Repleto de Spoilers!

H.P. Lovecraft foi definitivamente um dos maiores escritores de horror de todos os tempos. Comecei a ler o autor desde há muito tempo (“quando ainda estava no bercinho”, diria Ben Hazrael) e não há dúvidas. Horror (ou terror, danem-se as classificações e seus classificadores) é um gênero literário capaz de incitar e provocar as mais profundas sensações humanas e o Lovecraft, ah, esse aí o faz muito bem, obrigado.

Enquanto Edgar Allan Poe trata do horror de forma abstrata, Lovecraft o coloca no duro e frio chão da realidade. Suas descrições quase sempre apelam aos sentidos, além de pontuar seus escritos com muitos detalhes técnicos, científicos e jornalísticos. Não é à toa que vários de seus livros e contos poderiam ser lidos como relatos reais, com personagens cientistas, médicos, policiais, jornalistas, etc., que estariam oferecendo ao leitor um retrato preciso da sensação de ser tocado pelo medo.

Hoje apontarei cinco razões para você ler Nas Montanhas da Loucura, uma de suas maiores obras. Publicada em fascículos na Weird Tales em 1931, esta narrativa é uma clara homenagem ao melhor que o horror e a ficção científica podem oferecer, hoje disponível em vários idiomas e publicada em várias coletâneas. Contudo, já aviso que a lista é repleta de spoilers que podem (ou não) estragar o prazer daqueles leitores que curtem a surpresa.

5 – Fonte de inspiração: Nas Montanhas da Loucura inspirou direta ou indiretamente várias outras histórias e historietas clássicas do mundo nerd. Delas, podemos destacar o filme The Thing de John Carpenter (1982), o episódio Ice da primeira temporada de Arquivo X e o filme X-Files – Fight the Future (1997). Estas produções abordam os mistérios ocultos no continente gelado da Antártida, maculado há milhares de anos pela presença alienígena. Nas Montanhas da Loucura também inspirou Hellboy, com a sugestão de Mike Mignola de que o continente gelado abrigou (ou pior, ainda abriga) várias divindades dormentes.

4 – Horror abissal: Nas Montanhas da Loucura inspirou o mais recente filme Prometheus (2012), no qual Ridley Scott usa e abusa dos recursos estilísticos explorados por Lovecraft. Assimetria e imagens que fogem totalmente da lógica ocidental são frequentemente abordados, com criaturas inclusive que fogem ao senso comum. A exploração se torna algo realmente desafiador, testando a cada momento as noções de mundo do leitor e telespectador. O mesmo pode ser dito de Alien (1979), no qual o criador de arte H.R. Giger explora por formas alternativas de vida inteligente além da humana. Mesmo sendo uma história que apresenta alienígenas, esqueça TUDO o que você sabe, já viu ou leu sobre seres extra-terrestres, pois Nas Montanhas da Loucura apresenta uma série de conceitos absurdamente novos e absurdamente perturbadores.

3 – Excelente introdução: Nas Montanhas da Loucura é um excelente livro introdutório para aqueles que querem conhecer o universo criado por Lovecraft. Em todas as suas páginas o autor faz referências diretas a outros de seus escritos, mostrando a densidade e solidez de todo esse universo macabro. Só para constar, Nas Montanhas da Loucura leva o leitor a conhecer indiretamente Celephais (1920), The Call of Cthulhu (1928), The Shadow Over Innsmouth (1931), The Thing on the Doorstep (1933), The Dreams in the Witch House (1933) e The Haunter of the Dark (1935).

2 – Frio de trincar os dentes: Nas Montanhas da Loucura é um prato cheio para aqueles que gostam de histórias de suspense no gelo, pois se passa em plena Antártida da década de 30. Uma expedição é montada para explorar as cercanias do vulcão ainda ativo Monte Erebus, referenciando precisamente lugares reais e que, por sinal, você pode visitar pelo Google Maps e Google Earth.

1 – Uma excelente história de alienígenas: Apesar de muito já ter sido feito sobre alienígenas dentro da ficção científica, Nas Montanhas da Loucura antecede várias produções que só conheceríamos décadas depois de sua publicação, dentre as quais devo citar Eram os Deuses Astronautas (1968) de Erich Von Däniken. Apesar de eu achar um saco e uma asneira esse papo do Däniken, Nas Montanhas da Loucura antecede e introduz muito bem o conceito de que não ESTÁVAMOS sós (aham, passado…). A grande diferença entre as duas linhas de pensamento é que Lovecraft não coloca seus alienígenas em contato direto ou como responsáveis pelo surgimento dos humanos e suas “civilizações”, sendo nós apenas umas formiguinhas inconvenientes em todo o plano intergaláctico. Concordo plenamente.

Victor Hugo, apavorado

Imagens: Moonxels, Gutalin, Steve Burg, Intrepid Explorer, Turizam, Wikipedia 

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Nas Montanhas da Loucura em animação

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

6 comentários »

  1. Olá – gostei muito de seu artigo! Parabéns pela forma como abordou o assunto. Muito legal. Eu aprecio muito o Lovecraft. Também escrevo algumas resenhas, e só para vc saber, aconselho os meus leitores a ler este seu arquivo no comentário que escrevi sobre esta mesma obra, se quiser ver está em “livros e filmes ponto com”.

    • Lediecio,

      Muitíssimo obrigado pelos elogios e pela referência. Por uma coincidência cósmica digna dos Antigos, ando relendo H.P. Lovecraft bem quando você deixa essa mensagem. Devo postar novidades em breve.

      Vida Longa e Próspera,
      Victor Hugo

  2. Só posso dizer que me deu vontade súbita de reler Nas Montanhas da Loucura, obra que me introduziu ao universo incrível de HP
    Como dizem, o primeiro Love (craft) a gente nunca esquece.

  3. Lovecraft é bom, mas o seu amigo de correspondência Clark Ashton Smith era beeeemmm melhor ! Pena que dá pra contar nos dedos os contos de Smith que foram traduzidos. Mas tem em espanhol vários ebooks, é dá pra se virar. Leia Clark Ashton Smith e vai ver que ele era melhor que Lovecraft. Acima desses dois, só o Robert Howard. Não é à toa que os três eram chamados pelo editora da Weird Tales de “Os três mosqueteiros”.

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