Contratempos – As voltas que o espaço-tempo dá

Há onze anos escrevi um artigo aqui no Ao Sugo comentando sobre a série Quantum Leap (Contratempos no Brasil). Contratempos é um seriado que marcou a minha saída da adolescência, assistindo os episódios com meu pai às tardes no Universal Channel, antigo USA Network. Contratempos ficou no ar de 1989 até 1993 nos EUA e, mesmo tendo apenas 97 episódios, marcou a telinha daqueles tempos.

Contratempos narra a saga do físico Samuel Beckett (Scott Bakula) que, graças a um experimento em Física Quântica chamado Quantum Leap, consegue torcer as dimensões do espaço-tempo, permitindo a viagem para diversos lugares e tempos diferentes. Longe de seguir em seu próprio corpo, o viajante troca de lugar com outra pessoa por um breve momento.

Com a ânsia de testar os limites do próprio invento, Beckett decide experimentar a máquina em si mesmo, dando muito certo e muito errado ao mesmo tempo. Em sua primeira incursão Beckett é enviado para 1956 e assumindo a persona de um piloto de testes da Aeronáutica estadunidense, porém, ganhando amnésia e não sabendo como retornar ao seu próprio tempo. É graças aos esforços de sua equipe, seu computador Ziggy e seu melhor amigo, Albert Calavicci (Dean Stockwell), que ele descobre que apenas reparando algum erro do passado de seu hospedeiro é que ele pode voltar pra casa.

Nadando na vibe do clássico De Volta Para o Futuro, Contratempos trazia aventuras em que Sam Beckett aparecia como aquele anjo – às vezes relutante, às vezes perdido, porém, com um coração gigante – que podia dar uma segunda chance para nós, pobres mortais. Ao mesmo tempo que eram narrativas edificantes (afinal, quem não quer uma segunda chance sobre algum erro que cometeu no passado?), a série tinha um tom triste bem característico dos anos 1980. Por conta do caráter experimental de seu invento, Beckett sempre acabava pulando de tempo em tempo, de espaço em espaço e de corpo em corpo, resolvendo o problema de todo mundo e nunca conseguindo voltar para casa.

Acabei de rever o episódio piloto e ele é bastante envolvente. Na pele de Tom Stratton, Beckett se torna um piloto de testes em uma época bastante emblemática para a história estadunidense. A corrida espacial, tecnológica e militar se confundia com os anos áureos dos baby boomers e do Sonho Americano da década de 1950. É bastante interessante como tudo isso é amarrado e mostrado neste episódio, nas aflições e anseios dos personagens, e em como tiveram grande cuidado na reprodução de elementos materiais daqueles tempos (os próprios aviões, carros, casas, objetos, vestuário, propagandas, músicas e afins), destoando apenas da trilha sonora marcada por sintetizadores e batidas contemporâneas.

O fim do episódio piloto ainda traz outros dois saltos no espaço-tempo, mostrando os limites e o verdadeiro alcance das ações de Beckett conforme viaja pelo passado. Para voltar para casa Beckett deve ajudar os outros, no entanto, não pode revisitar o próprio passado, podendo disparar algum gatilho tenebroso como em De Volta Para o Futuro! Essa imprevisibilidade dos saltos e de quais erros devem ser reparados em cada momento abre um leque quase infinito de possibilidades narrativas.

Scott Bakula como Beckett e Dean Stockwell como Al formam uma dupla perfeita. A atuação, o timing e o entrosamento é notório já nos primeiros minutos do episódio, sendo uma parceria sólida que durou anos e transbordou as fronteiras do próprio seriado, afinal, reapareceram juntos em Star Trek Enterprise e NCIS. Não é à toa que ambos ganharam inúmeros prêmios da televisão por Contratempos, como alguns Globos de Ouro e Emmys.

Os projetos para um remake de Contratempos estão sendo discutidos desde 2002, porém, é agora que tudo parece caminhar com maior vigor dado o apadrinhamento da NBC para relançar o seriado em seu serviço de streaming, Peacock. Enquanto a série nova não sai, voltarei aqui conforme for revendo os episódios.

Fiquei surpreso ao perceber que levei 11 anos para voltar no espaço-tempo e rever esse seriado que me marcou bastante. Quando escrevi meu artigo original, aqui, também tinha feito 11 anos que não assistia o seriado com o meu pai, lá nos idos de 2000. As voltas que o espaço-tempo dá…

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