Contemple Faerûn, continente indômito que abrigou, abriga e ainda abrigará vários e poderosos reinos e impérios tocados pela trama arcana de Mystra. Seu solo é marcado por camadas e camadas de civilizações esquecidas, de ruínas e construções de povos que habitaram toda essa vastidão há mais de 10.000 anos atrás.

Faerûn é a criação máxima de Ed Greenwood para o grande cenário de campanha dos Reinos Esquecidos, sendo uma das ambientações mais populares ja criadas para o RPG mais famoso do mundo, nosso querido Dungeons & Dragons. Vários suplementos foram editados para os mestres e jogadores usarem e abusarem desta ambientação em suas longuíssimas campanhas em volta de uma mesa com dados esquisitos e salgadinhos sabor pizza. Tal popularidade atingiu o mercado editorial do mundo da Fantasia, sendo que temos vários romances e sagas épicas baseadas em Faerûn. Contudo, nem todos estes títulos são bons, eis a verdade. Depois do sucesso estonteante de O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, o mundo literário foi inundado por elfos, anões, fadas e dragões nem sempre muito espertos ou tão cativantes quanto aqueles da obra de inspiração original. Verdade seja dita, tem muita porcaria por aí.

É bastante comum encontrar nesse meio livros de qualidade duvidosa, especialmente quando é baseado ou derivado de jogos. Mesmo quando os escritores são pessoas envolvidas no processo de criação destes jogos, falta, para muitos, uma qualidade literária. Não é porque somos mestres e jogadores de RPG super imaginativos e criativos que somos todos escritores capazes de usar a pena como nossa maior e melhor arma. Fantasia pipoca ou entretenimento barato, você escolhe.

Felizmente, este não é o caso da trilogia The Last Mythal, de Richard Baker. Envolvido até as entranhas com o mundo dos Reinos Esquecidos, sua trilogia é uma surpresa notável.

Temos aqui a apresentação do mundo élfico de Faerûn de uma maneira nunca antes visto. Os detalhes, os costumes e a cultura élfica ficam evidenciadas nestes livros de narrativa envolvente, conferindo uma densidade inigualável para esse povo dos Reinos Esquecidos.

The Last Mythal conta uma das últimas e grandes batalhas do povo élfico espalhado pelo continente, enfrentando assim uma antiga ameaça do passado. Antigos heróis são revividos, assim como antigas intrigas e rusgas de outrora, exigindo que todos os elfos de Encontro Eterno, Evereska e da Floresta Alta se unam mais uma vez para adentrar nas profundezas da antiga cidade-estado de Myth Drannor, destruída pela violação da magia e pela chegada de seres abissais. A cidade abriga um dos maiores nós da trama arcana do continente, sendo cobiçada por uma galera não muito legal.

Baker escreve muito bem. Não apenas ele sabe fazer todos os encadeamentos inteligentes para se ter uma boa história, como ele possui essa qualidade literária que mencionei mais acima. Tudo pode ser conferido numa edição omnibus disponível tanto na versão impressão como no formato de ebook, reunindo assim os títulos Forsaken House, Farthest Reach e Final Gate, todos lançados entre 2004 e 2006.

Nunca liguei para a magia ou os elfos em Dungeons & Dragons porque é sempre tudo muito clichê e enfadonho, mas esta trilogia me fez repensar essa postura. Pela primeira vez em décadas que vi uma história que confere sentido para o bizarro sistema de magia vanciano presente em Dungeons & Dragons, além de torná-lo muito, muito interessante.

Gostei bastante dos personagens, até mesmo dos vilões. Todos são bem interessantes e, em sua grande maioria, tridimensionais. O livro tem um caráter épico bem legal, fazendo os Reinos Esquecidos ficar mais parecido com o clássico Silmarillion de J.R.R. Tolkien do que qualquer outra coisa (o que acho ótimo, afinal, é o meu livro preferido do criador dos hobbits). Os elfos e suas várias etnias constituem esse povo antiquíssimo que habita Faerûn e que observa as infinitas asneiras que os povos mais jovens cometem a todo momento.

O livro faz muito bem o papel de mostrar essa transposição de impérios e reinos antigos, uns sobre os outros. A linha do tempo e a história ganham muita evidência e importância aqui, mostrando como mesmo os elfos, que são um povo antigo, estão caminhando sobre rastros de outros povos do passado. Essa ideia de esquecimento e deslumbramento é bem interessante nos Reinos Esquecidos e que não é tão bem explorada pelos próprios cenários de campanha, ou até mesmo pelos romances do próprio criador do cenário, Ed Greenwood. Ponto para Richard Baker.

Victor Hugo Kebbe, diretamente da Terra dos Vales

Nota: Gostaria de agradecer ao Gustavo Sembiano pela indicação desta leitura. Valeu muito a pena.

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