As cicatrizes de uma pandemia

Edward Hopper, Morning Sun 1952
Edward Hopper, “Morning Sun”

“O ano de 2020 era para ser muito melhor que 2019”. Perdeu-se a conta de quantas vezes leu-se ou ouviu-se essa frase. O primeiro ano de um novo decênio, 2020 prometia tirar do papel muitos projetos de tanta gente, sabe-se lá o motivo. Talvez por ser ano de Olimpíada ou ano de eleição em muitos lugares. De Olimpíada, ao menos, não é mais. Talvez por ser um número bonito, fácil de falar: 2020 – vinte-vinte. Talvez alguém acredite em alguma coisa dessas tantas ideologias que circundam nosso planeta. De todo modo, era um sinal, para tantos, de uma renovação que vai além das promessas cafonas de Réveillon.

Mas 2020 vai sendo muito diferente do que tanta gente previra – ou queria. E sua promitência tombou ante as vicissitudes causadas por um inimigo invisível aos olhos nus: o Covid-19, ou o novo Coronavírus. Um vírus que chegou atropelando qualquer intenção para mostrar que o rei estava nu. De um repente, tomou por refém uma espécie que, do alto de sua tórrida e trôpega sapiência, achava-se dona de um mundo que, em verdade, não é seu. Nunca foi. E fomos lembrados disso. Por onde passa, deixa um rastro indelével de destruição. Pelo mundo todo vê-se economias fortes que se curvam ante seu poderio. Países e culturas das mais diversas origens veem-se obrigados a admitir sua debilidade frente a um inimigo tão implacável. E a poderosa e complexa raça humana é posta em cheque por uma coisinha que nem sequer possui metabolismo independente.

Pelo mundo, o Covid-19 já deixou milhares de mortos. De várias idades, são pessoas que feneceram muitas vezes sozinhas, sem poder despedir-se daqueles que lhe são caros. Não, ele não afeta só idosos. Afeta a todos, mesmo àqueles que não veem. Aos que ficam, também em outras tantas ocasiões tiveram de ver seus entes serem velados à distância. Em alguns lugares em que o vírus não foi levado a sério, caminhões militares percorreram ruas silenciosas para retirar os finados de uma guerra difícil de combater.

Difícil porque o mundo observa, combalido, o preço de desconsiderar a importância do conhecimento, do preparo e da ciência em suas mais variadas formas. As ciências exatas para planejar e entender o preço a se pagar (às vezes literalmente) por esse mundo paralisado. As humanas, para saber o impacto social e antropológico dessa fase aterradora. E as biológicas, que noite e dia trabalham para desmembrar esse inimigo, entender sua fraqueza, e sintetizar os agentes de sua derrocada.

A todos eles deveríamos reverenciar. E referenciar.

Atualmente, representantes de todas as partes da ciência têm constantemente suas opiniões desautorizadas: o físico está errado porque o padre disse que está; o médico, porque a avó cozinha alho com mel; o sociólogo, porque o vereador não viu na favela o problema que ele apontou. Em não poucos casos, tira-se dessas pessoas o dinheiro, a oportunidade, às vezes até a sanidade. Agora, contudo, exige-se uma resposta rápida para algo que não deve ser feito às pressas. E por quê? Porque não era uma prioridade. Do alto de nossa soberba, resmungamos muitas vezes de aparatos tecnológicos programados sobre um vírus e seus impactos enquanto nos deparamos com notícias diversas e tentamos prever o que vai acontecer com as pessoas e o mundo.

Mas não fazemos ideia de quem são Ada Lovelace, Louis Pasteur, Gregor Mendel, James Lind, Joseph Pulitzer, Auguste Comte ou Adam Smith

Vimos e vemos a importância de manter nossa mente ativa em um mundo em que tantos insistem em mergulhar na ignorância. Só que nossa fome por conhecimento deve continuar sendo justamente por isso: conhecimento. Conhecimento de verdade, comprovável, verificável, estudável, compartilhável. Vivemos num mundo em que isentamos igrejas de pagar impostos enquanto tiramos bolsas de estudos das pessoas que nos sintetizam vacinas. E embora a sanidade espiritual possa ser – e é – importante, não podemos adormentar a vida. Não importa em que você acredite, eu duvido que você queira morrer.

Ao final das contas, a raça humana está de cama. Discute-se entre quem prefere salvar as pessoas e quem prefere salvar a economia, mas talvez o ponto seja que se entenda que não são em nada excludentes. A humanidade e todas as suas idiossincrasias coexistem. Somos, no todo, um organismo. Como um ser humano, toda a nossa raça é composta de inúmeros complexos que trabalham noite e dia para mantermo-nos vivos. Cada escolha que fazemos, cada rumo que tomamos, é para evoluir e criar anticorpos que nos protegerão de inimigos externos ou internos. Como todo organismo, temos dentro de nós, a raça humana, bactérias e vírus dos quais já aprendemos a nos defender, alguns que ainda não sabemos, e outros que deverão ser combatidos por toda a nossa existência. São nossas leis, nosso conhecimento, nossa democracia, nossa consciência, que devem combater nossos preconceitos, nossa ignorância, nossas incivilidades. Vez ou outra aparece alguma coisa que não sabemos exatamente como vencer, e por isso precisamos de repouso e descanso, para que esse mega-organismo que é a nossa espécie saiba se curar e possa se prevenir.

A crise vai nos deixar cicatrizes. Entretanto, a cicatriz é o que acontece quando somos lembrados de que somos feitos de carne. Não importa quem sejamos ou onde estejamos, somos todos afetados por essa pandemia. Uns mais, outros menos, mas todos. E, ironicamente, o distanciamento e isolamento social deu-nos algo novo: preocupamo-nos mais com os outros, oferecemos ajuda como podemos. Mesmo que sejam apenas palavras. Criamos novas memórias calorosas – ainda que à distância. O mundo uniu-se como poucas vezes o fez. Talvez até como jamais tinha feito. A típica multidão sem face das ruas e transportes públicos começa a ter uma cara – mesmo que, de quando em vez, coberta por uma máscara – daqueles que não podem parar, que trazem a sopa quentinha e o cobertor para esse pirralho mimado e febril que se tornou a raça humana. E aqueles que escolhem a insensatez são apenas outro vírus, outra bactéria, para o que ainda precisamos desenvolver nossas defesas intelectuais. Afinal, como diria Asimov, “a violência é o último refúgio do incompetente”.

São novos tempos, e a adaptabilidade talvez seja nossa maior virtude. Isso tudo passará mas, agora, a humanidade precisa repousar. Temos a tendência de lembrar apenas daquilo que nos feriu porque o beijo e o abraço não deixam marcas. Vemos que o soldado perdeu a perna na guerra, mas ignoramos aquilo que ele defendeu. Mas enquanto as cicatrizes nos lembram pelo que passamos, as memórias nos lembram por que passamos por aquilo em primeiro lugar. E ainda que uma cicatriz seja um sinal de que você foi ferido, é também um sinal de que você foi curado.

Marcus Vinicius Pilleggi, Quarentenado

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