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E quando entraram no carrinho da montanha-russa e apertaram seus cintos de segurança mal sabiam que estariam partindo rumo a um mundo fantástico, maravilhoso e terrível. Pois bem caros leitores do Ao Sugo, venho apresentar um post que há muito estava engavetado durante estes dois anos de blog. Falarei de um desenho animado que literalmente mudou toda uma geração de adolescentes na década de 80, Caverna do Dragão.

Os leitores espertos do Ao Sugo que andaram fuçando nossas páginas com certeza já sabem, então não teremos tantas novidades aqui. Dispostos aleatoriamente em artigos passados, hoje podem até parecer eastereggs que deixamos para trás. Mas Caverna do Dragão foi baseado em um jogo muito peculiar e de mesmo nome, o Dungeons & Dragons. Considerado como o roleplaying game mais famoso de todos os tempos, nosso querido D&D oferecia aos jogadores uma premissa totalmente inovadora que fugia dos hits War ou Banco Imobiliário: agora os jogadores interpretariam papéis de heróis em uma saga fantástica envolvendo cavaleiros com suas armaduras reluzentes e dragões.

Tido como o jogo da década de 80 nos Estados Unidos, o D&D esteve presente em inúmeros lares nas noites de sexta-feira com Ruffles e Coca-Cola para transformar meia dúzia de nerds fracotes, porém, muito imaginativos em aventureiros sem igual. Nestas partidas noturnas os jogadores tinham a incrível oportunidade de salvar uma princesa das garras de um feiticeiro maligno ou refazer tantos outros feitos épicos à la Senhor dos Anéis. Para aqueles que ainda não se tocaram da importância do D&D naquela época, as crianças do filme de sucesso E.T. – O Extra-Terrestre estavam jogando o tal RPG quando aquele ser de outro mundo vinha dar as caras por estas bandas.

Como já comentado a rodo na nossa seção exclusiva sobre RPG, este jogo é inovador porque não tem vencedor. É o único jogo do mundo em que todos ganham ao mesmo tempo[1]. A ideia é a mesma de contar uma história fantástica ao redor de uma fogueira, com o diferencial de que os ouvintes podem dar um palpite aqui e acolá para o contador de histórias, criando assim um final totalmente imprevisível, porém muito mais interativo. No D&D o narrador da história é chamado Dungeon Master ou DM, o coitado que dedica dias antes da partida bolando a aventura, pensando nos personagens com quem os jogadores irão interagir, etc. Como disse sabiamente a equipe do Nerdcast #196 – Quem é o Mestre, o Dungeon Master é o anfitrião, aquele que é versado nas regras do jogo e que adora entreter os outros (e se entreter) simplesmente contando uma história. Já os demais jogadores assumem o papel dos heróis ativos da história contada pelo DM, sejam eles guerreiros, magos, ladinos ou simplesmente os encrenqueiros da galera.

E se isso virasse um desenho animado? Bem, virou, que pergunta besta. Em 1983 a TSR, editora criadora do jogo Dungeons & Dragons teria em parceria com a Marvel Productions e a japonesa Toei Animation uma das animações mais bem sucedidas da televisão. Chamado no Brasil como “Caverna do Dragão”, este desenho exibido nas manhãs diárias no Xou da Xuxa contava a história de 5 adolescentes que por um revés do destino pararam em um mundo mágico de cavaleiros e dragões. Recebidos pelo sábio e bastante poderoso Mestre dos Magos (ou no original, Dungeon Master… isso, pasmem), estes garotos receberiam armas mágicas e inúmeros conselhos enigmáticos para enfrentar as adversidades no caminho de volta para casa.

O grupo era encabeçado por Hank (15), o mais velho e líder da equipe dos novos aventureiros que, com seu arco mágico, podia criar flechas mágicas de energia que funcionavam como dardos letais até algemas e raios. Com seu forte senso de justiça e devoto ao objetivo de levar todos para casa, Hank ainda contava com a ajuda de Eric (15), seu amigo adolescente muito teimoso com um escudo mágico, Diana (14), a acrobata que voava pelos inimigos com um bastão mágico, Presto (12), o mago atrapalhado com um chapéu mágico e dos irmãos Sheila (13), a ruivinha ladina com sua capa élfica que a deixava invisível e Bob (8), o bárbaro com uma clava encantada. A equipe ainda seria acompanhada por Uni, a filhote de unicórnio que gerou comoção e raiva entre os fãs…

Recém chegados num mundo mágico repleto de criaturas fantásticas, nossos heróis seriam sempre importunados pelo Vingador, feiticeiro cruel que almejava dominar o mundo com as armas mágicas da nossa trupe, contando com a ajuda de seus exércitos de orcs e seu espião Demônio das Sombras na execução de seus planos vis. Além do Vingador, nossos adolescentes ainda se deparariam (assim como o Vingador) com Tiamat, a poderosa deusa dos dragões que com suas cinco cabeças[2] possuía os poderes de cuspir ácido, fogo, gelo, raios e gases venenosos.

Os 27 episódios de Caverna do Dragão basicamente seguiam a jornada dos heróis em busca de um portal que os levassem para o parque de diversões com a montanha-russa onde entraram pela primeira vez. Contudo, no meio do caminho deveriam resolver enigmas e escapar do Vingador ou de Tiamat com vida. Quase sempre ao final dos episódios o grupo adolescente eventualmente conseguia abrir tal portal, mas não conseguiam atravessá-lo por conta do Vingador ou então da… Uni… que sempre caía aos prantos junto com Bob por ter que abandonar o time nesses momentos derradeiros. Nesse sentido, apesar de criar uma legião de fãs em todo o mundo, Caverna do Dragão era um desenho relativamente triste, soturno, que mostrava um mundo árido e sem esperanças para as crianças.

Dos episódios memoráveis gostaria de citar apenas 3, também apontados pelo Nerdcast # 59 – Caverna do Dragão e que, de fato, marcou várias das minhas aventuras de RPG. “O Olho do Observador” trazia como vilão uma criatura abissal com vários olhos que estava causando a destruição de um vilarejo, podendo ser combatido unicamente com a esperança e o amor. Como já disse o Jovem Nerd neste Nerdcast de Caverna do Dragão, este episódio também ficou impregnado nas minhas partidas de D&D na utilização do Observador como monstro mágico principal, sempre intimidador, fantástico e aterrorizante.

Outro episódio muito legal de Caverna do Dragão é “O Salão dos Ossos”, quando os nossos heróis precisam encontrar um antigo templo capaz de recarregar as suas armas mágicas que no momento estavam enfraquecidas. Ao chegarem no altar em formato de crânio humano o nosso time é surpreendido pelo Vingador que literalmente chega quebrando tudo… Por fim, “A Caixa” apresenta a Caixa de Zandora, um portal mágico capaz de abrir portas para infinitos mundos… inclusive o dos nossos heróis. Aí dependendo aonde o usuário colocava e abria a caixa, tínhamos portais para localidades diferentes… É lógico que o nosso grupo foi mais uma vez atrapalhado pelo maldito Vingador e deu tudo errado de novo… Mas “A Caixa” chacoalhou tanto o meu mundo nerd que não é à toa que meu sistema favorito de D&D até hoje é Planescape… mas isso é outra história…

Caverna do Dragão teve 3 temporadas entre os anos de 1983 e 1986, exibidas nos Estados Unidos pela CBS e aqui no Brasil em looping pela Globo e Multishow. Apesar das promessas da Xuxa de trazer o episódio final do seriado, a produção jamais foi feita, entitulado Requiem[3], gerando um burburinho absurdo entre os fãs em todo o mundo. Ao invés de comentar sobre os possíveis “episódios finais” como todo mundo faz, acho interessante apenas apontar um possível fim de Caverna Dragão que apareceu em um dos jogos de D&D para computador, Baldur’s Gate II. Quando você entra em uma pequena loja em uma cidade em Amn, é possível encontrar no fundo do estabelecimento dois quadros enormes de Hank e Bob, tendo na legenda das figuras o possível fim: nossos heróis teriam sido comidos por Tiamat!

Outra animação baseada no mundo de Dungeons & Dragons voltaria à telinha com Dragonlance: Dragons of Autumn Twilight, uma outra história com outros heróis envoltos em uma saga épica para salvar o mundo mágico de Krynn da invasão dos dragões de Takhisis. Dragonlance: Dragons of Autumn Twilight ainda contaria com as vozes de Michael Rosenbaum (o Lex Luthor de Smallville), Kiefer Sutherland (o Jack Bauer de 24 Horas) e Lucy Lawless (a Xena, a Princesa Guerreira), conciliando as técnicas de animação 2D e 3D ou CGI. Ao contrário de Caverna do Dragão que foi baseado em partidas aleatórias de D&D, Dragonlance foi baseado no best-seller de mesmo nome de Margaret Weis e Tracy Hickman, apresentando outra história, outra saga…

Longe de acabar, ainda vale a pena conferir o Nerdcast #59 sobre Caverna do Dragão do site Jovem Nerd, além de um papo com os dubladores de Presto (Nizo Neto) e Sheila (Fernanda Fernandes) nos Nerdcasts #179 e #170 respectivamente. Lá os caras batem um papo descontraído e muito divertido sobre as peripécias do grupo. Caso esteja curioso para saber o final de Caverna do Dragão de Michael Reeves, basta clicar aqui. Se por outro lado agora você quer saber mais sobre RPG e Dungeons & Dragons, não perca a nossa seção exclusiva sobre os Roleplaying Games. Me vou, mas aguardo nos comentários aqui os seus episódios favoritos de Caverna do Dragão. E como diria o Mestre dos Magos, na escuridão, procure a luz.

Victor Hugo, O Mestre dos Magos



[1] Isso é, os jogadores que aprenderam direito. Caso queiram saber mais sobre esta discussão, não percam os nossos posts sobre RPG, em especial a coluna No Country For Old Men.

[2] Em relação ao jogo D&D, Tiamat simbolizava os 5 dragões cromáticos mais poderosos dos universos fantásticos deste RPG.

[3] Escrito por um dos roteiristas originais do desenho, Michael Reeves e disponível na internet e em audiodrama. Todavia, tal episódio nunca foi produzido na televisão e muitos consideram a história como “apócrifa” ou não válida.

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

14 comentários »

  1. Ai caramba… que post fantástico…. que nostalgia…. vo até rever todos os episodios…
    ja ta ficando repetitivo, mas PARABENS aos dois pelo blog, pelo post e pelo bom gosto…

  2. “Mas “A Caixa” chacoalhou tanto o meu mundo nerd que não é à toa que meu sistema favorito de D&D até hoje é Planescape”
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk !!!
    Pena que vc contou um possível final tão triste, com essa história de Tiamat. Você essa sua maltdita mania de querer matar todo mundo no RPG.

  3. Ovelha Negra….
    Eu adoro Caverna do Dragao…mas quanto blábláblá…
    Só me responde uma ” questã” ja q vc é o expert….é verdade que eles estao todos mortos no inferno e que o mestre dos magos é o capeta?????
    rsrsrsrsrs
    Ass:querida prima…

    • Então Gisele, essa é uma das vertentes de Caverna do Dragão que, por sinal, é bastante comentada quanto ao episódio final. Por não ter sido produzido, boa parte do pessoal especula essa coisa mesmo dos heróis estarem no inferno e o Mestre dos Magos ser o capeta encarnado num bom velhinho, mas são apenas especulações… rs.

  4. Rapá… Caverna dos dragões é o que há!! Primeiro preciso agradecer por ter conseguido o DVD e ter reassistido… NOSTALGIA total!! vi tudo num dia só.. num tapa… foi uma overdose… dps li Requiem…se é o verdadeiro final ou nao… só especulações, como ja falou o autor e grande amigo VH…

    Bem… esse desenho voltou a ser muito discutido numa mesa de buteco quando jogávamos RPG… alias lembro até hoje, que pra me apresentar um beholder que destruiu meus pontos de vida com o dedo da morte, falaram “assiste o episodio O OLHO DO OBSERVADOR!” RAPA… qndo eu assisti e vi a panca do bicho… VIXI…Fiquei doido, ou como diriam no nerdcast.. MINHA CABEÇA EXPLODIU!!!

    Caverna do Dragao ja é uma lenda…. um mito… algo que ja é totalmente relacionado aos nerds !! ahahah

    Como nerd e amigo, parabens pelo tema e pelo texto.. voces sao fodásticos…

  5. Oi Estava lendo essa matéria, e inclusive citei em um post no meu blog, eu queria saber a respeito dessa ilustração do livro com os personagens da “Cavena do Dragão”, o livro existe mesmo?
    Bjus

    • Olá Lais,

      Tudo bem? Obrigado pelo comentário. Dei uma olhada no seu texto e fiquei bastante feliz pela referência ao nosso artigo. A idéia é futuramente fazer outro, mas falando só da animação Dragonlance, que saiu anos atrás (cá entre nós, tem um elenco de “peso”, mas o uso do 3D não foi dos melhores…).

      Sobre a ilustração, pois bem, ela é a capa da edição em DVD do desenho animado lançado nos Estados Unidos e Canadá. Quanto aos livros, bem, só no RPG… você sabe do Dungeons & Dragons original, que teve várias versões (e em nenhuma aparecem os personagens do desenho com exceção da Tiamat) e que aqui no Brasil chegou no comecinho dos anos 90. O que saiu em texto que é considerado relevante pelo fandom (mas não necessariamente “oficial”) é o fim do desenho, Réquiem, cuja versão em PDF você pode achar no artigo.

      Ah, vi também que está começando a escrever sobre RPG no seu blog. Nós temos uma seção, a Taverna Dano Crítico, que são só posts sobre RPG, inclusive alguns contos e mais informações sobre D&D e outros sistemas.

      Mais uma vez, obrigado pelo comentário e pela citação. Aguardamos sua visita!
      Bjins,

      Victor Hugo

  6. Sabiam que existe um suplemento OFICIAL de D&D 3.5 com as fichas dos personagens e uma aventura pronta!
    O nome é D&D Animated Series Handbook, acho que não tem em potuguês. Mas tem até a ficha do Vingador!!!

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