
Certa vez li no Sedentário uma notícia sobre a vindoura (na época) publicação no Brasil do livro A Guerra dos Tronos (Editora LeYa) da autoria de George Martin. Quase não dei bola. Principalmente porque fantasia nunca foi muito a minha praia, mas naquela mesma notícia, me impressionou o arranjo da trama: a disputa política que permeia toda a história. Pensei então: “vou ler essa budega quando sair no Brasil sabe-se lá quando“. Embora cético, não é que o livro foi publicado e realmente valeu a pena cada centavo que gastei comprando-o? Por isso, farei uma breve resenha crítica do livro porque, em minha opinião, as Crônicas de Gelo e Fogo de George Martin já fazem parte do panteão clássico da boa literatura de fantasia.
Uma vez me disseram que a série de tv West Wing foi a melhor coisa, do ponto de vista de entretenimento, que conseguiram fazer tendo no jogo político algo interessante de se ver. Eu discordo, é claro. Já até escrevi um post no Poliarquias sobre a política em Star Wars e como ela é pano de fundo do melhor e mais instigante na saga espacial. Ao mesmo tempo, tenho uma baita vontade de ler Bórgias, saga européia de HQ escrita por Alejandro Jodorowsky e desenhada pelo mestre Milo Manara. Nesta HQ temos tudo de mais podre e sórdido da nossa realidade política (mas não apenas ela): sexo, intrigas, traição, assassinato, busca por poder, mais poder, sexo, incesto, mais poder, etc. Mas por que estou escrevendo sobre West Wing e Bórgias quando deveria estar me detendo no livro A Guerra dos Tronos? Simples. O livro de George Martin tem tudo isso. E ainda por cima com porções muito bem condimentadas de fantasia medieval.

Basicamente a história do livro é sobre a ascensão de Eddard “Ned” Stark ao posto de “Mão do Rei“, uma espécie de Grão-Vizir ou Alto Conselheiro do Rei Robert Baratheon. O “problema” todo é que Stark não desejou essa ascensão, afinal, é um Senhor do Norte do Reino e vive muito bem (e obrigado, diria), não desejando tomar parte da politicagem existente na Corte ao Sul. Mas se diz que se você não encontra o problema, o problema vem te encontrar… A antiga “Mão do Rei” falece de maneira relativamente misteriosa e Stark é convocado a assumir o posto.
Mas como interferir na vontade do Rei? E Stark acaba assumindo esse fardo. Para complementar a inglória situação, tem de abandonar metade da família e ir conviver com a Rainha da família Lannister, desgosto nítido do agora “Mão do Rei“. Desconfiado da morte de seu antecessor, Eddard Stark começa uma investigação que o leva a tortuosos e mortais caminhos permeados de intrigas palacianas. Não contarei o andar da carruagem neste sentido, mas o autor não se preocupa muito em poupar personagens centrais da trama.

Os personagens da trama são muitos e cada capítulo recebe o título de cada personagem. Três em especial me cativaram, o anão ou duende Tyrion Lannister, Daenerys, a filha do Dragão e Jon Snow, filho bastardo de Eddard Stark. O interessante de A Guerra dos Tronos como livro de fantasia é que tanto a trama como os personagens são muito bem construídos com doses cavalares de “realidade”, ou seja, foge-se em geral do maniqueísmo tolkieniano (sim, não gosto muito de O Senhor dos Anéis) e caracteriza precisamente um personagem do outro. Estes três personagens são trágicos de maneiras diferentes. E isso não apenas características dos três, mas de todas as personagens da trama.
Como uma boa trama, A Guerra dos Tronos é escrita de maneira a ter certeza de que o poder flui e nunca fica muito tempo nas mãos de alguém ou de uma dinastia. E mais: perde-se aliados, ganha-se aliados, ganha-se batalhas, perde-se batalhas. Esse ciclo sem fim está na trama do livro. E Daenerys, herdeira exilada do antigo, deposto e assassinado Rei (antecessor de Robert Baratheon) é um exemplo literário desta realidade tão próxima a nossa. Mas nem só de realidade política pura e crua vive esse mundo de A Guerra dos Tronos, havendo espaço até para o sobrenatural na trama.

Neste mundo, o Reino é protegido por uma Muralha vigiada pela Patrulha da Noite. Esta é constituída de cavaleiros que renegaram suas antigas vidas para dedicarem-se integralmente a vigiar as fronteiras do Reino. E mais um probleminha na trama: com o inverno está vêm os Outros, espécies de mortos vivos. É uma ótima sacada. Não sou fã integral de zumbis, mas a forma como essa idéia de mortos vivos foi introduzida por George Martin nas Crônicas de Gelo e Fogo ficou muito interessante. Porque se os vivos estão em conflito uns com os outros, imagine se os mortos decidem participar dessa bagunça toda que passa a permear o Reino?
É interessante, ao se ler o livro, observar como algumas verdades são encobertas buscando-se preservar algo maior. O dilema é que preservar algo maior pode acabar com sua cabeça. Literalmente. A ascensão e queda de reis ao longo da história foi motivada pelos motivos mais nobres e pelos motivos mais estúpidos e torpes. Não é diferente no contexto deste livro. Um Rei só pode ser Rei se tiver garantias para governar. É a impressão que se passa no livro. Caso não tenha, terá de conquistá-la provavelmente a ferro e fogo. E nem todos e todas estarão necessariamente suscetíveis de apoiar essas medidas. É o caso de A Guerra dos Tronos.
Por isso fiquei mais fascinado pela saga. Além da verdadeira “engenharia política” para se poder reinar, é necessário observar que as “pontes políticas” entre os diversos interesses são frágeis demais, pois as instituições políticas são poucas, fragilizadas e fortemente concentradas. Que resta então? Cabe aos governantes selar com laços familiares a articulação de seus domínios, mas isso sabemos ser frágil demais para situações de intenso conflito, como se configura a realidade de A Guerra dos Tronos.
A pergunta que fica é: com um outro inimigo maior e mais poderoso, é sábio procurar alianças entre aqueles que não confia? E caso não, qual a outra alternativa? Estou ansioso por ler a continuação, intitulada A Fúria dos Reis. Pelo final do livro, acredito que as coisas esquentarão ainda mais, ou melhor, esfriarão ainda mais… De lambuja, teremos agora A Guerra dos Tronos como minissérie pela HBO. É um box na certa na cinemateca de casa.
Ben Hazrael, direto do Poliarquias e do Cabaré das Idéias para o Ao Sugo
Ben Hazrael me convenceu há alguns dias a comprar A Guerra dos Tronos, mesmo enquanto estava no Japão. Agora repatriado, procurei o livro nas livrarias e realmente me impressionou o cuidado gráfico com o projeto. Embora ainda não tenha terminado a leitura, é realmente empolgante já ter de cara os mapas de Westeros no começo e fim do livro… Me lembrou de tempos imemoriais quando tive o meu primeiro contato com O Senhor dos Anéis, isso há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante.
O que eu considero importantíssimo no momento é que o seriado da HBO ainda não saiu, sendo este um momento liminar e especial para ler os livros sem se levar pela imagética que a minissérie vai proporcionar. Lembro que muita gente só foi ler O Senhor dos Anéis depois que saíram os filmes, matando parte fundamental do exercício imaginativo necessário em toda a leitura de qualquer livro de literatura fantástica. Aproveite enquanto você ainda tem tempo e o último livro ainda está saindo nos Estados Unidos para começar a leitura já. Caso queria ler a resenha de Ben Hazrael para A Fúria dos Reis, basta visitar o Cabaré das Idéias.
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Sim, já publicamos outros dois textos sobre as Crônicas de Gelo e Fogo, constituindo então numa série. Como tinha comentado anteriormente, foi Ben Hazrael quem me incentivou para ler essa chaproca de quase 600 páginas, tendo valido a pena. Espero trazer no próximo um breve review do seriado da HBO que, aham, está impressionante. A lição de casa para vocês hoje é a seguinte:
A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo – Resenha de Ben Hazrael sobre o primeiro livro da saga e que foi publicada simultaneamente no Ao Sugo e no Poliarquias. Além de estar sem spoilers, tem um featurette muito bom da HBO chamado Inside Game of Thrones, introduzindo a minissérie de televisão.
A Fúria dos Reis – As Crônicas de Gelo e Fogo – Resenha de Ben Hazrael sobre o segundo livro da saga, publicado tanto no o Ao Sugo como no Cabaré das Idéias. Este artigo está repleto de spoilers e foi uma dor no coração publicá-lo enquanto ainda estava no meio da leitura de Guerra dos Tronos… ou seja, para leitores que JÁ leram o primeiro livro ou então que são muito corajosos.
A Lâmpada Mágica – blog do tradutor Jorge Candeias, em cujo espaço se debruça sobre literatura fantástica e seus trabalhos mais recentes. É super interessante ver a crítica do tradutor sobre a versão brasileira de A Guerra dos Tronos, apontando em detalhes alguns dos problemas que encontrou. Confesso estar bastante curioso para ler a versão lusitana na íntegra, devendo ser muito boa.
Victor Hugo






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