Pelos idos de 1996 e 1997 quem tinha o canal USA Network[1] em casa podia pegar, aos sábados, uma programação pra lá de curiosa. Licenciado lá no Brasil pela Globosat, o canal de variedades exibia uma seleção de seriados clássicos do mundo da Ficção Científica: estava no ar o Sábado Sci Fi do USA Network!

Por muito tempo como propriedade da MCA, o USA Network veiculava seriados do seu canal irmão nos EUA, o Sci Fi Channel que, felizmente ou infelizmente, chegou muito tarde no Brasil. Contudo, aqueles sábados marcaram profundamente a minha vida nerd e a de meu irmão. Vocês sabem como são nerds: programação de sábado? Nada. Nerds dificilmente pegam balada, ainda mais os hardcore. Com vidas sociais absurdamente limitadíssimas, passava a semana esperando pelo famoso Sábado Sci Fi para ver tanta coisa esquisita… mas memorável, na frente da televisão. Lembro como se fosse ontem.

Às 9 horas da manhã eu já estava grudado na frente da TV para pegar O Incrível Hulk (1978-1982) da CBS, aquele seriado cult com Bill Bixby como o cientista Bruce Banner e Lou Ferrigno[2] como o feioso verde de peruca. A série era lamentável, reconheço… Primeiro que se baseava no Hulk da Marvel, uma série de histórias em quadrinhos que atualizou o lero lero do Médico e o Monstro, com roteiro bem mal estruturado e os efeitos especiais igualmente… marcantes. Porém, foram vários sábados tomando café da manhã escutando o encerramento deste seriado, com aquele tema no piano triste demais, transmitindo a ideia de que a série não era de aventura e ação (como eu sempre imaginei), mas numa história de tragédia… Triste foi a sina de Bruce Banner, escutem vocês mesmos.

Em seguida, começava o Sci Fi Cinema, às 10 horas da manhã, tendo obviamente a Ficção Científica como carro-chefe da sessão que seria reprisada pouco depois da meia-noite na madrugada de sábado para domingo. Em algumas vezes foi possível assistir filmes clássicos como Star Trek II – The Wrath of Khan (KHAAAAAAAANNNNNNNN) entre outras coisas de procedência duvidosa, como Nightlife (1989), um filminho mequetrefe sobre vampiros, cuja única coisa que lembro é da explicação científica para nossos camaradas sanguinolentos terem este vício pecaminoso… e se não me engano o cientista do filme tinha descoberto uma anemia incomum no sangue dos vampiros, justificando assim essa necessidade perigosa. Mas também foi no Sci Fi Cinema que conheci coisas fantásticas como The Thing, do John Carpenter:

Pois bem, meio-dia eu desligava a televisão. Os programas logo depois do meio dia incluíam Mulher Nota Mil (1994-1997)… sim, o filme passou no Sci Fi Cinema algumas vezes e fizeram um seriado muito ruim disso. Dois adolescentes recortaram várias fotos de modelos, escanearam e colaram tudo isso no Paintbrush… e aí ao clicarem em “Imprimir” teriam esta mulher na vida real… Convenhamos… Existem limites para a minha capacidade nerd. Em seguida, a coisa não melhorava muito: Sexta-Feira 13, A Série (1987-1990)! Mas nada de Jason e máscaras de hóquei imortalizadas no mundo do cinema. A série se baseava numa loja de antiquidades, incluindo muitas peças de magia negra e ocultismo, sempre havendo algum cliente com problemas mais sérios e impossíveis de serem atendidos por um Serviço de Atendimento ao Cliente no mundo.

Aí sim; depois disso a coisa mudava de ares. Primeiro com o seriado Amazing Stories, já comentado neste blog com maiores detalhes e seguido de The Ray Bradbury Theatre. (1985-1992) Ambos os seriados traziam contos terrivelmente fascinantes e igualmente escabrosos, tendo forte inspiração nos clássicos seriados Alfred Hitchcock Presents (1955), The Twilight Zone (1959) e no posterior The Outer Limits[3] (1963), outras preciosidades que também tinham lugar no Sci Fi Saturday. Para os ignorantes de plantão, Ray Bradbury é considerado um dos gênios da Ficção Científica do mundo das revistas Pulp, ao lado de Isaac AsimovHarlan Ellison e Richard Matheson, todos eles desafiando de maneira impressionante a nossa capacidade de imaginar as coisas.

A abertura do programa já era por si própria deveras estranha: um escritório com vários livros e miniaturas e objetos espalhados por todo lugar, quando aparece um senhor idoso e franzino do meio da tranqueirada toda, falando “é só disso o que preciso, eu sei onde está tudo o que quero para escrever as minhas estórias” ou algo do gênero, dizendo que a bagunça toda na verdade instigava a sua criatividade, “pois eu posso pegar esse submarino de brinquedo aqui e esse livro aqui e somar com aquele brinquedo ali e inventar uma aventura e tanto”. E não deixa de ser verdade. Produzido na década de 80, infelizmente o seriado não duraria muito tempo, deixando fãs nerds e cults espalhados pelo mundo em busca das reprises.

O mestre do suspense já dava suas caras em 1955 com The Alfred Hitchcock Presents, uma antologia de contos de mistério e suspense que, às vezes – e só às vezes – envolvia estórias pra lá de bizarras, como o famigerado “A Jarra”. Neste episódio temos uma jarra com uma coisa disforme em seu interior como famosa obra de arte abstrata, intrigante, entretanto, a todas as pessoas: seria um polvo, uma montagem, uma cabeça humana?

Já Twilight Zone[4] ou “Além da Imaginação” aqui no Brasil estaria nas mãos de Rod Serling, um dos homens mais importantes e referenciados no mundo sci fi. Seu seriado seria um dos primeiros a desafiar a audiência com dilemas e mistérios totalmente imersos no mundo da fantasia e da Ficção Científica, mas esbarrando em discussões sociais e filosóficas de maneira sem precedentes. Ok, podem dizer que Flash Gordon já levava a Ficção Científica para a telona e telinha 20 anos antes, mas Além da Imaginação colocava os telespectadores de volta na Terra/terra, tendo como roteiristas nada mais além do próprio SerlingRichard MathesonRay BradburyHarlan EllisonCharles BeaumontJerry SohlGeorge Clayton JohnsonEarl Hamner Jr e Reginald Rose.

Com um tema de abertura inesquecível de Bernard Hermann[5]The Twilight Zone ainda teria um revival na década de 80 e outro na primeira década deste século, sem contar um filme de 1983 com produção de Steven Spielberg. O filme se baseava em 4 episódios do seriado, tendo como diretores John LandisJoe DanteGeorge Miller, o próprio Spielberg e atores de peso como Dan Aykroyd e John Lithgow. Se o tema do seriado original era de Hermann, o do filme era de Jerry Goldsmith, compositor renomado do mundo Sci Fi por ter composto peças notáveis como vários temas dos filmes e seriados de Jornada nas Estrelas… é, não estavam brincando…

Às 18h começava Jornada nas Estrelas – A Série Clássica (1967-1969), sendo o que marcou definitivamente a minha entrada no mundo trekker. “O espaço. A fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise, em sua missão de cinco anos para explorar, encontrar novos mundos, novas formas de vida, indo aonde nenhum homem jamais esteve.” Inesquecível, a nata do dia, a cerejinha no topo do sundae. E por quê? Simples, porque Star Trek condensava em cada episódio toda a proposta da Ficção Científica feita até então e transmitida durante todo o sábado: imaginar o futuro.

Enterprise sempre foi e sempre será a nave espacial mais feminina de todos os tempos. E os capitães Kirk e Jean-Luc Picard sempre enfatizaram isso. Singrando pelo espaço afora, o capitão Kirk, o Sr. Spock e o Dr. McCoy encontravam em cada episódio uma espécie alienígena, mas não para nos falar da capacidade criativa dos seus escritores e roteiristas ao imaginarem espécies e culturas tão exóticas, e sim para nos falar sobre nós mesmos. Star Trek vomitava filosofia embaixo de nossos narizes, apresentava um futuro próspero cuja Humanidade só conseguiu resolver seus problemas como fome, pobreza e desigualdade por meio do contato com outros seres que não deste planetinha miserável.

Infelizmente cancelada em 1967 por ser considerada “cerebral demais” para a televisão daquela época, Star Trek estava, reconhecidamente, à frente de seu tempo, perdoem-me o clichê. Angariando inúmeros fãs em todo o mundo, Jornada nas Estrelas nos dava outra chance de pensar o nosso futuro em plena época de Guerra Fria, irrelevava a podridão humana que fazíamos e continuamos fazendo em prol de uma aposta, uma imensa aposta no sucesso e prosperidade da humanidade. Não é á toa que é igualmente criticada como um dos maiores recursos em prol do escapismo e da fantasia exagerada… Contudo, sinto muito, é isso o que fazem as pessoas que conseguem imaginar.

Não acabava aí. Às 19h começava Jornada nas Estrelas – A Nova Geração (1987-1994), um dos maiores sucessos da televisão norte-americana em todo o mundo. Como já disse o Jovem Nerd, em A Nova Geração o criador de Jornada nas Estrelas conseguiu atualizar o roteiro, trazendo as mesmas temáticas da Série Clássica para o mundo “pipoca-de-microondas” dos anos 80 e 90, expandido o Universo Trekker e garantindo assim a continuação de uma próspera franquia televisiva e cinematográfica de no mínimo 40 anos… mas isso é outra história…

A partir daí o Sábado Sci Fi do USA Network reprisava alguns episódios do dia ou trazia outros novos dos mesmos seriados que falei aqui. Ah sim, o Sci Fi Saturday mudou com o passar do tempo, ganhou novas vinhetas, aliás, cada vinheta… e ganhou novos seriados, novos spin offs, criou uma legião de fãs, abriu e popularizou parte do mundo da Ficção Científica no Brasil que, até tempos atrás, estava relegado aos livros empoeirados e perdidos de livrarias.

Se passou mais de 13 anos daquela época e ainda hoje, como bom nerd que sou, ainda faço o Sábado Sci Fi onde quer que esteja, Brasil ou Japão, respeitando, se possível, os mesmos horários daquele tempo. Para mim, sábado ainda é dia de Jornada nas Estrelas, não tem desculpa, apesar da correria e do acúmulo de responsabilidades complicarem um pouco as coisas. Mas estamos aí… e com certeza o Ao Sugo não existiria se não fosse por aquela época. Vida longa e próspera.

Victor Hugo Slartibartfast


[1][1] Hoje Universal Channel, cujo nome corresponde à nova política do canal de seriados policiais e de ação e aventura… Vou te falar o quê…

[2] A verdade é que durante a minha infância demorou um tempo para eu perceber que o Banner e Hulk eram interpretados por dois atores. Lembro que anos antes de reassistir ao seriado no Sci Fi Saturday eu não conseguia fazer a associação do imenso Lou Ferrigno com a cara do pacato Bill Bixby, pensava “ué, algo está muito errado aqui”. É evidente que este era o menor dos problemas do seriado, que durou 4 anos.

[3] Que não chegou a passar nesta mesma época. Enquanto “Além da Imaginação” era atração da CBS, “A Quinta Dimensão” era o concorrente imediato da ABC, disputando os mesmos roteiristas e os mesmos atores da época, inclusive William Shatner e Leonard Nimoy que seriam imortalizados em Jornada nas Estrelas.

[4] É curioso relembrar Além da Imaginação depois de tanto tempo. Agora que estou no Japão pude encontrar um revival do seriado nas terras de cá, com todos os episódios da série original sendo vendidos em fascículos e com o título Mistery Zone (ミステリーゾーン). Custando apenas 790 ienes o primeiro DVD, pude rever os três primeiros episódios em meu apartamento com toda nostalgia possível, apesar de não conter o piloto “The Time Element”, de 1958. Neste DVD nipônico lançado aqui pela CBS o primeiro episódio apresenta o implacável Sr. Morte, narrando como veio buscar o mascate Sr. Lou… pois é, ao contrário da deliciosa Morte de Neil Gaiman (já apresentada aos leitores do Ao Sugo), o Sr. Morte de Além da Imaginação era austero e eficiente, não dando muita trela ou espaço para conversa.

[5] Lembrando que o vídeo do post tem a segunda abertura da série, de Marius Constant.

12 comentários »

  1. Muito bom esse momento “nerd in the air”, Victor!!!!To doido para pegar uma estrada e colocar para rodar “no toca fitas” aquela trilhazinha do seriado do Hulk heheheeh

  2. Oloco, mulher nota 1000 era engraçado pelo menos…

    Hulk era chato demais… n dava pra ver mais de 5 minutos

    Além da imaginação era massa…

    O resto era nerd demais pra mim hahahaha

  3. AHh esse blog…. ESSE BLLLLOOOOOGGG….

    sabe, sinto informar mas o blog ja tá ficando “monótono”… só tem coisa boa!! é incrivel!!

    Mais uma postagem dakelas… P A R A B E N S…

    ABRAAAAAAAAAXXXXX

  4. Eu amava o sabádo na USA !! Achei que só eu que via essa programação…rs.
    O teatro de Ray Bradbury era o que eu mais gostava! Teve um episódio que o cara passou uma noite inteira tentando apagar impressões digitais que ligavam ele a um crime,quem lembra? Acho que quase ninguém né?? rsrsr
    Abraço grande da Pata!

  5. Cara, parabéns (atrasadão) pela lembrança!
    Os Sábados de Sci-Fi também fizeram parte do meu final de pré-adolescência/começo de adolescência. Saudosíssimos tempos em que a TV por assinatura (ainda chamava TV a cabo) tinha uma programação que valia cada centavo pago na mensalidade.

    Só uma ressalva: você esqueceu da cereja do bolo – GALERIA DO TERROR (Night Gallery, do mesmo criador da Twilight Zone)! Passava às 15:30 / 16h (com os anos alteraram os horários), e reprisava tarde da noite (23 / 23:30, eu acho) antes de Além da Imaginação (pontualmente à meia noite). Embora tenha durado até o início dos anos 2000, o auge dos SSF foram entre 1996 e 1998, sobretudo 1997 quando a grade de filmes foi espetacular! Lembro que no mês de outubro daquele ano exibiram os (até então) 3 filmes da saga de Brinquedo Assassino. Outras lembranças: O Ataque dos Vermes Malditos, Sementes do Diabo, Hellraiser, e um filme de lobisomen que até hoje não lembro o nome mas foi o melhor que já assisti do gênero.

    Impensável, nos dias de hoje, uma grade com Alfred Hitchcock “Suspense”, Galeria do Terror, Além da Imaginação, O Teatro de Ray Bradbury… o canal TCM chegou a ensaiar um revival dos SSF há coisa de uns 7 ou 8 anos atrás, mas a coisa não engrenou. E concordo com o que dissestes, o canal Sci Fi nunca chegou nem às unhas dos pés dos lendários e gloriosos Sábados de Sci-Fi do USA.

    Segue a lembrança: https://www.youtube.com/watch?v=jBY2d2qa4Mk

    ps – eu gostava tanto de Galeria do Terror que há coisa de 6 anos atrás comprei os dvds da 1ª e 2ª temporada… dublados! Na mesma versão que passava no USA.

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