É época de Natal. Época de Natal sempre deixa a maioria das pessoas com um espírito diferenciado. Não necessariamente por elas gostarem do Natal em si, mas existe uma comoção generalizada que influi em cada um e causa, no final das contas, aquilo que a gente poderia chamar de “espírito natalino”.

Na pior das hipóteses, são alguns dias de folga do trabalho.

Dia desses nesse último mês de ano, perambulava pela rua em que percorre grande parte do PIB brasileiro. Precisava tirar uma verba. Além de precisar comer, queria também comprar um gibi de Star Wars ali na banca. Entrei no shopping, já direcionado ao caixa eletrônico. Shopping este decorado com enfeites natalinos azuis. Sempre achei enfeites natalinos azuis melhores que os vermelhos.

Ao caminhar na direção da suntuosa porta de vidro, fui surpreendido por um Papai Noel. Destes de shoppings mesmo, embora com uma vestimenta majestosa e uma barba encorpada nem sempre comum aos papais noéis de shopping. Admirou. Ele perguntou o que eu queria de Natal. Pergunta difícil de responder, esta. Ainda mais quando questionado por um gordo barbudo de roupa brilhosa para um marmanjo barbado e cansado que chegava do trabalho.

Por alguns momentos minha mente viajou. Não porque não tenha nada que eu queira de Natal, ou que eu sou uma pessoa feliz e saudável e que não preciso de nada. Mentira. A dificuldade em responder vem do fato de eu querer coisas demais. Fiquei embasbacado com a minha resposta subseqüente.

Tempo – eu disse – quero tempo.

O velho fantasiado – ou não – olhou-me de forma samaritana, porém abstrusa – Tempo? – perguntou-me – você quer tempo para fazer alguma coisa, mais tempo para algo?

– Não. Quero meu tempo de volta. Pode me dar isso, Papai Noel?

Ele não soube o que me responder. Pudera, nem sei o porquê de eu ter dito aquilo. Foi estranho. O velhinho ficou um pouco abestalhado. Sem culpa. Era só um Papai Noel de shopping – eu acho. Incapaz de pensar em uma réplica aceitável, o senhor me entregou um pacote generoso de balas, sorriu e virou-se enquanto me mandava o clássico sinal de “joinha”, do tipo “boa, amigão”, e pôs-se a atender outros passantes.

Não consigo olhar para meu próprio rosto sem um espelho, contudo, tenho certeza de que minha expressão demonstrava impetrável apatia. É claro. Afinal, obtive uma resposta deveras insatisfatória aos meus intentos. Não que minha declaração houvesse sido tremendamente suficiente, por outro lado.

Quando resolvi tomar meu rumo, dei de cara com uma senhora que caminhava com a filhinha. Quase trombei com mãe e filha. Desculpei-me. A menininha, que não deveria ter mais de quatro ou cinco anos, disse que gostou de minha camiseta – não tinha nada demais, era apenas amarela. Agradeci.

– Qual o seu nome? – perguntei.

– Gabi… – disse a garotinha, em uma tentativa de esconder o acanhamento.

Indaguei à mãe se eu poderia dar as balas do Papai Noel para sua filha. Ela meneou silenciosamente, e consentiu – Gosta de doces, Gabi?

– Sim… gosto…

– Então, isto é para você – completei enquanto passava à menininha o pacote generoso de balas e pirulitos que aquele Papai Noel de shopping, ou não, tinha me dado. Ela abriu o embrulho e espiou lá dentro. Foi um espasmo de alegria. Tive a impressão de que ela não tem o costume de ganhar muitos doces.

– Verdade, moço? Para mim? – perguntou-me, ainda incrédula – Por quê?

– Porque eu não tenho tempo.

Marcus Vinicius Pilleggi

3 comentários »

  1. Aff..Natal e a Ano Novo…essa época me da calafrios!!!!
    gastar dinheiro que nao se tem, ouvir congratulações de pessoas que vc nao ve ha meses ou ate anos e que por acaso nao são verdadeiros, comida…e mais comida….sem necessidade!!!
    E o pior…a falsidade da familia…Aff…isso me mata!!!!

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