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Olá nobres leitores do Ao Sugo! Ouvi há pouco de um amigo meu e leitor do blog que estes artigos nostálgicos são os favoritos dele e, confesso, são os meus favoritos também. Tudo bem que nem sempre possuem a mesma densidade de informação e reflexão dos nossos artigos mais fortes, contudo, além de facilíssimos de serem escritos, são um enorme prazer. Estava discutindo isso com o Marcus Vinícius sobre o artigo do Sábado Sci Fi (que já é um hit do Ao Sugo, obrigado) e de fato tais textos nos fazem lembrar até mesmo das raízes deste blog, pois somos ambos nerds e com trajetórias e inspirações muito próximas ao longo destes 20 anos.

Hoje falarei a vocês sobre os livros-jogo ou aventuras-solo. Sim, uma atividade praticamente obrigatória para qualquer nerd formado nos anos 80 e que na maioria das vezes fez parte da vida dos jogadores de RPG da primeira e segunda geração. Ah, explico. Sem querer menosprezar os jogadores da atualidade, hoje muitos deles não chegaram nem a conhecer os livros-jogo de aventuras-solo por terem em mãos outras formas de divertimento associadas ao RPG, como os jogos para computador. Mas não importa.

Se você nem é nerd e nunca jogou RPG, você também vai gostar de saber um pouco mais sobre as aventuras-solo. O presente texto está enumerado em várias partes, sendo que ao final de cada parte você terá algumas opções para prosseguir com a leitura. Escolha sabiamente.

Se você é jogador de RPG e nerd, vá para a parte 3. Caso nem saiba o que é RPG ou nerd, vá para a parte 2. Se você não sabe o que está acontecendo e está se sentindo perdido, vá para a parte 5.

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Se enganam aqueles que acreditam ser os livros de aventuras-solo restritos ao mundo dos Role Playing Games, seja por razões históricas ou mesmo por razões de princípio. Por mais inacreditável que pareça, os livros-jogo deram as caras já na década de 1940 (ou seja, muito antes do primeiro RPG ter sido lançado) e, pasmem, por Jorge Luis Borges! Em “Examen de La obra de Herbert Quain” Borges já oferecia ao leitor a capacidade de interagir com a estória do livro, no caso, o final. Já em “El jardín de senderos que se bifurcan” propunha um labirinto que o leitor deveria atravessar dentro de uma sequência lógica para poder chegar ao fim.

E é isso o que um livro-jogo ou livro de aventura-solo é, uma narrativa linear que permite a participação do leitor na aventura, seja em maior ou menor grau. Para alguns, teria sido a porta de entrada para o mundo dos jogos de interpretação de papéis, os Role Playing Games, por seguirem princípio semelhante, o de envolver o leitor/jogador no enredo. Ou então como um excelente recurso para estimular a leitura na adolescência, como assim pensavam as professoras de Português das nossas escolas, apontando alguns destes livros como leitura obrigatória.

Se você entrou no RPG por conta dos livros-jogo ou aventura-solo, vá para a parte 3. Se você quer conhecer mais sobre a série mais famosa de aventuras-solo, vá para a parte 9. Se você não é nerd, não jogava RPG e ainda não sabe do que estamos falando, vá para a parte 4. Se está entediado e está pensando em parar de ler o artigo, vá antes para a parte 8.

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Ah, lógico, muitos jogadores de RPG tiveram esse start nerd nos livros-jogo, principalmente na série de Ian Livingstone e Steve Jackson (não, não o criador do GURPS, o sistema de RPG genérico e universal). Publicados no Brasil pela Marques Saraiva na década de 1990, a série de Aventuras Fantásticas tinha logo no começo do livro algumas regras básicas, como o uso de dados e a necessidade do leitor preencher uma ficha em branco que seria, a partir de então, o seu alter-ego dentro da estória. Com a perspicácia do leitor em saber escolher os melhores caminhos e também com um pouco de sorte nos dados, o leitor, agora um personagem fictício, adentrava em um mundo totalmente fantástico, na maioria das vezes de Fantasia Medieval.

Se você quer saber mais sobre a diferença entre RPG e aventuras-solo, vá para a parte 7. Se você conheceu ou quer conhecer a série Aventuras Fantásticas, vá para a parte 9. Se você quer saber sobre outros estilos de aventuras-solo, vá para a parte 6. Se você ainda não entendeu o que estamos falando, vá para a parte 5. Se está entediado e está pensando em parar de ler o artigo, vá antes para a parte 8.

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Um livro-jogo ou um livro de aventura-solo é provavelmente um dos estilos mais impressionantes, desconhecidos do grande público e, por isso mesmo, bastante menosprezado nos acervos das livrarias brasileiras. Primeiro porque a narrativa geralmente é truncada e não pode ser lida sequencialmente: embora os parágrafos da história estejam todos numerados, não podem ser lidos na ordem. Chamados de “partes”, ao final de cada parte você encontra duas, três ou mais possibilidades para continuar a leitura, permitindo assim ao leitor a capacidade de construir o enredo por conta própria. Se você é um forte guerreiro munido de uma bela espada pode, ao deparar com uma criatura terrivelmente fantástica e fantasticamente terrível, simplesmente optar por lutar indo para a parte X, dialogar com ela indo para a parte Y ou então fugir, indo para a parte Z. Deste estilo predominou no Brasil a série Aventuras Fantásticas, mas vários outros estilos surgiram com o tempo.

Se você quer ler mais sobre a série Aventuras Fantásticas, vá para a parte 9. Se você quer conhecer outros estilos de aventura-solo, vá para a parte 6. Se você está perdido, vá para a parte 5. Se está entediado e está pensando em parar de ler o artigo, vá antes para a parte 8.

Aventura-solo!

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Realmente você não entendeu o espírito da brincadeira. Como um tradicional livro de aventuras-solo, enumerado de maneira esquisita e propondo uma aventura ao leitor, pois bem, assuma o seu papel, comece da parte 1 e a partir daí vá se deslocando para as partes que serão oferecidas conforme você vai avançando na história.

Volte para a parte 1.

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Existiram inúmeros livros de aventuras-solo e livros-jogo além da série Aventuras Fantásticas. No mesmo estilo de seguir os parágrafos/partes e ir tomando suas decisões passo-a-passo dentro da aventura, a Ediouro lançou no Brasil uma série de aventuras-solo do Sherlock Holmes há muito tempo atrás, consistindo em mistérios na Londres do século XIX para serem desvendados pela astúcia do leitor, seguindo as pistas deixadas pelo criminoso na cena do crime e por aí vai. Não era necessário ser um gênio da lógica como o próprio Holmes para desvendar os mistérios, contudo, era realmente difícil passar por algumas etapas sem quebrar a cabeça.

Existem ainda outros livros-jogo lançados no mundo, como o do próprio Jorge Luis Borges e que não possuem parágrafos numerados, mas sim finais alternativos que poderiam ser “acessados” mediante a interpretação do leitor ao longo da aventura. Se era um livro de mistério e durante a leitura um leitor achava que o assassino era o mordomo, bastava ler o final alternativo do mordomo. Se era o jardineiro, bastava ler o final do jardineiro. É evidente que a “participação” do leitor na estória estava pra lá de limitada, mas não deixa de ser um livro jogo.

Se você quer saber a entrada do Jorge Luis Borges nesse papo, vá para a parte 2. Se você quer ler mais sobre a série Aventuras Fantásticas, vá para a parte 9. Se está entediado e está pensando em parar de ler o artigo, vá antes para a parte 8.

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A diferença crucial entre Role Playing Games e aventuras-solo é que estas últimas são definitivamente mais rígidas nas opções que o jogador pode tomar durante a aventura. Como diz o Jovem Nerd, no RPG o mestre assume o papel de narrador e vai criando possibilidades e alternativas conforme os jogadores vão participando da história, enquanto que na aventura-solo as alternativas e opções já estão demarcadas desde o momento que o livro foi impresso.

Essa passa a ser a maior crítica aos livros de aventura-solo, pela sua “linearidade”, ou seja, pelo fato da aventura estar amarrada, para o bem ou para o mal. Por outro lado, o RPG preza pela interpretação de papéis e não apenas a capacidade do jogador escolher entre esta ou aquela opção/alternativa, caso contrário, ele está jogando um péssimo RPG (e bem mal, diga-se de passagem; dizer ao Mestre de Jogo no RPG o que seu personagem deseja fazer é não interpretar, é dar um tiro no próprio pé… que fique então com as aventuras-solo).

Todavia, para explicar o sistema de regras os dois RPGs mais conhecidos do mundo se utilizaram da aventura-solo como recurso didático, no caso, o GURPS e o Dungeons & Dragons. No GURPS, após ter lido todas as regras, você podia escolher um personagem fictício e participar de uma aventura-solo no final do livro, como forma de ver se o leitor entendeu ou não as regras. Já o Dungeons & Dragons era mais interativo ainda, ensinando regra por regra através de uma aventura-solo contida dentro daquela caixa vermelha, recurso que foi aproveitado por uma revista brasileira de RPG chamada “Aventura-Solo” na década de 90.

Mas se você acha que o mundo das aventuras-solo está restrito ao mundo do RPG, está redondamente enganado, devendo ir para a parte 2. Se você quer ler mais sobre a série Aventuras Fantásticas, vá para a parte 9. Se você quer conhecer outros estilos de aventura-solo, vá para a parte 6. Se está entediado e está pensando em parar de ler o artigo, vá antes para a parte 8.

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Pois se está pensando em desistir do artigo ou do blog, devo então supor que está abrindo mão da sua elegância.

Volte para a parte 1.

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A série Aventuras Fantásticas é de quebra uma das mais conhecidas no Brasil, pois entrou em circulação pouco antes da chegada dos Role Playing Games ao país, em especial o Dungeons & Dragons e o GURPS. Os famosos livrinhos da Marques Saraiva possuíam a lombada na cor verde e tinham em média pouco mais de 200 páginas, sendo que no começo você deveria preencher sua ficha de personagem e ter em mãos dados de 6 faces para poder prosseguir.

Lembro que o meu primeiro livro da série foi “A Cidade do Caos” de Steve Jackson, adquirido em um aniversário numa das livrarias mais famosas da minha cidade naquela época (hoje uma papelaria grande e boring). Era um sábado e lembro que não conseguia desgrudar do livro, narrando a SUA aventura para eliminar um reinado de terror. O vilão era um guerreiro/feiticeiro bastante poderoso e você dependia no final da aventura de sua habilidade, magias guardadas e muita sorte para passar…

Já o meu segundo livro da série foi “O Feiticeiro da Montanha de Fogo”, também de Steve Jackson, sendo que desta vez o vilão não era um guerreiro, mas um mago imensamente poderoso e que ficava enclausurado em sua montanha. Lógico que a montanha era repleta de corredores e câmaras habitados por criaturas mágicas e, para não ficar perdido no meio do caminho, era realmente aconselhável desenhar um mapa para continuar, sem brincadeira. Literalmente uma “dungeon” no melhor estilo Dungeons & Dragons sem, no entanto, ser um RPG legítimo.

Dos demais livros da série temos “O Templo do Terror”, de Ian Livingstone (que também possuo aí no Brasil, este narrando a sua viagem para dentro de uma fortaleza no meio do deserto, muito bem bolado), “A Floresta da Destruição” de Ian Livingstone, “Robô Comando” de Ian Livingstone e Steve Jackson e a “Nave Espacial Traveller”, de Steve Jackson.

Se você quer conhecer outros estilos de aventura-solo, vá para a parte 6. Se você quer saber a relação entre aventura-solo e RPG, vá para a parte 7. Se você está perdido, vá para a parte 5. Se está entediado e está pensando em parar de ler o artigo, vá antes para a parte 8. Se você já cobriu todas estas passagens, vá para o Epílogo.

Epílogo

Se você leitor teve paciência e conseguiu passear por esta pequena aventura-solo, parabéns. Além da oportunidade de aprender um pouco mais sobre este gênero literário, certamente atestou a sua elegância ao adotar o Ao Sugo como leitura. Se você não gostou do texto, vá para a parte 8. Se quiser ler mais sobre RPG e Aventuras-Solo, vá para a Taverna Dano Crítico. Se você gostou do texto e do blog, vá para https://aosugo.wordpress.com.

Victor Hugo, O Mestre dos Magos

15 comentários »

  1. Ahhh quanta elegância… e a taverna do dano crítico entao?? que coisa espetacular…
    Depois dessa aventura-solo, eu pergunto.. quando rola o proximo jogo??

    Parabens pelo texto muito bem construído!

  2. Acompanhei desde o início a série Aventuras Fantásticas, me lembro que a primeira vez que vi fui uma pequena resenha na revista Superinteressante, a partir de então já fiquei louca pra ler, tive vários, medievais (meus prediletos) e de ficção científica.

    Mas meu primeiro contato com o gênero foi na verdade em uma revista de aventuras do Tio Patinhas, Donald e sobrinhos! Antes das aventuras fantásticas, me lembro vívidamente dessa revista do tio Patinhas e Cia. em que era possível escolher vários lances até o desfecho, no mesmo esquema de “vá para a página tal ou tal”. A estória era no fundo do mar e eles disputavam com o Patacôncio (outro pato milionário) umas ânforas antigas, encontradas num naufrágio.

    Essa matéria deixou todo mundo com saudades! 🙂

  3. Ah, também desenhei alguns mapas enormes!!! rsrs
    Num desses livros, numa passagem subterrânea, havia uma encruzilhada hiper confusa, me perdi literalmente! Foi uma das raras vezes que achei chato um desses livros…

  4. Oi Vanessa, Fernando, Gobato e Ju,

    Fico feliz pelo feedback de vocês. Como comentei há pouco no Twitter, lembro-me que há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante, eu cheguei a fazer o meu próprio livro de aventura-solo caseirão.

    Peguei a máquina de escrever lá em casa (pois ainda não tínhamos computador lá, para vocês verem como isso faz muito tempo), num sábado de manhã preguiçoso… Escrevi uma pequena história com não sei quantos parágrafos/partes sobre um guerreiro à la Conan e talz. Sei que chegou num momento que não aguentava mais escrever: apesar de já mestrar RPG naquela época, o livreto tava acabando comigo, rs.

    Consegui fechar a história e muito convenientemente achei em casa um papel que tinha a textura de couro. Juntei as páginas, encapei e pronto, tinha um tomo totalmente caseiro com minha aventura-solo. Naquela época já tinha “inventado” o meu próprio RPG alguns anos antes, mas valeu a brincadeira.

    Eu poderia ter substituído os “vá para a parte X, X, Z” etc por hiperlinks, evitando assim o esforço no uso da barra de rolagem. Contudo, por nostalgia mesmo, achei que valia a pena brincar até com isso, já que naquela época nós deixávamos os nossos livros de aventuras-solo manchados, marcados e borrados de tanto uso. O vai-e-vem de páginas e parágrafos, morrer no meio do caminho ou então decidir voltar num corredor não era sinal de fracasso, mas sinal de que o livro tava funcionando, estava entretendo.

    Ainda tenho alguns livros destes em casa (lá no Brasil), aí quem sabe ao retornar eu dê uma outra folheada, se o tempo assim me permitir.

    Abraços,

    Victor Hugo

  5. Legal passar aqui, eu adorava os livros de aventura solo, lembro-me de uns da Ediouro, do gênero ‘enrola e desenrola’. O texto imitando a estrutura desses livros ficou muito legal! Super abraço

  6. Sei que já faz tempo do artigo, mas conhecendo o blog somente agora depois do workshop na White nerd não pude deixar de passar a leitura desse artigo. Parabéns, muito legal descobrir sobre o livro do Borges, o que me fez lembrar de outro escritor argentino que fez algo parecido com o livro “Jogo de amarelinha” que pode ser lido de duas maneiras, e uma delas se parece muito com o livro jogo.
    Ainda dentro desse universo, senti falta de comentar sobre o livro Titan (que infelizmente perdi no decorrer dos anos) que é a ambientação de todo o universo criado pelos livros jogos.
    Parabéns pelo texto… boas lembranças desses horas lendo esses livros.

    • Opa Ernesto, agradeço pela visitação. Foi igualmente divertido e nostálgico escrever esse texto! A intenção era mostrar alguns destes livros no Workshop, mas novas oportunidades virão e aí poderemos discutir com mais detalhes. Pô, o Titan… que dor no coração agora, rs… eu conheço o livro, mas nunca li e sempre tive vontade! Preciso dar uma fuçada nas Amazons da vida, rs. No mais é só: contamos com a sua participação nos próximos Workshops!

      Abração,
      Victor Hugo

  7. Lançado a série de aventuras solo “Vida, Caminho e Destino”. É uma série de livros espíritas onde, o leitor irá trilhar o seu destino no além com conhecimentos espíritas reais. A venda nas melhores livrarias e sites o primeiro livro que tem o mesmo nome da série.

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