No dia 25 de maio de 1980 Darth Vader inaugurou sua nova política no que diz respeito à postura do Império Galáctico perante a escória dos traidores da galáxia. Sim! É exatamente neste dia que Lord Vader ensinou ao mundo as sutilezas e os sabores de uma linda vingança, tudo temperado, claro, com um pouquinho de Lado Negro, sobre um bando de adolescentes rebeldes. Quem nunca quis dar um sopapo nesses militantes da vida, hein? Talvez este seja um dos motivos da existência de tantos simpatizantes para com o nosso querido vilão.

Mesmo assim, uma grande vingança não pode ser estabelecida sem uma grande música por trás para simbolizar a abundância de sensações e sentimentos que surgem no ato da vendeta. Se você dúvida faça o teste em casa: bata em seu irmãozinho enquanto a Marcha Imperial toca, depois, sem a musiqueta. Acredite em mim, haverá uma grande diferença. Embora esta explicação possa parecer simplista, é esta a base do pensamento musical em toda trilha sonora e, porque não, em toda a música: expressar em som o que as palavras e a imagem não dão conta.

Este é o papel da música em Star Wars, e, também, o grande mérito de John Williams. Tendo se baseado na obra do compositor erudito Richard Wagner, Williams sintetiza em suas composições para Star Wars aquilo que George Lucas havia imaginado: criar uma Space Opera diferente de tudo que alguém já havia visto. Conhecida na década de 40 como “Novela Espacial” a Space Opera é um sub-gênero da ficção  científica de aventura épica e romântica, tendo como exemplo máximo as aventuras de Flash Gordon [1] e Buck Rodgers que, por extrema coincidência e, de acordo com a estrutura de meu texto, é, também, base para a idéia de Star Wars.

O gênero da Space Opera tem como estrutura narrativa o drama romântico com um herói predestinado a grandes atos, tendo suas relações para com outros personagens atreladas por parentesco ou amizades conquistadas pela revelação do caráter. Esta seria a idéia da jornada do herói [2], advinda da interpretação da geração romântica do século XIX acerca da Tragédia Grega e que continua a fazer parte da maioria das obras dramáticas atuais. Outra característica marcante da Space Opera é a presença constante de cenários épicos e fantasiosos, necessitando assim de uma bela trilha sonora para compactar e passar a idéia de mundos distantes, diferentes e inatingíveis.

O conceito de drama que estamos lidando incide, portanto, na perspectiva romântica do século XIX, tendo como principal expoente o compositor Richard Wagner e sua saga em ópera baseada nos mitos germânicos, “Der Ring dês Nibelugen” (O Anel do Nibelungo). Nesta obra Richard Wagner inaugura o conceito de “drama musical”, ou seja, o compositor passa a tratar e retratar cada personagem e ambiente através de temas musicais fixos, o Leitmotiv, motivo condutor. Desse modo, quando duas ou mais figuras dramáticas se encontram na cena, seus respectivos temas musicais (Leitmotiv) também se deparam, unificando assim os elementos da estrutura da narrativa com a trilha sonora.

A idéia de Leitmotif wagneriana está presente em todo o discurso narrativo na obra de John Williams, sobretudo em Star Wars. Isso se verifica quando analisamos o tema de Darth Vader (Marcha Imperial), uma música metricamente marcada, pontuada, precisa e vibrante tal qual uma marcha militar, onde os soldados possuem um espaço delimitado, marcham com movimentos precisos, etc. É interessante observar que John Williams opta pelo uso de uma tonalidade menor e dissonante, tendo como objetivo criar uma atmosfera de opressão [3] por parte do Império Galáctico.

Podemos escolher outros temas e ver como eles se relacionam. Peço ao caro leitor que passe a ouvir atenciosamente a música tema de Han Solo e Leia Organa na trilha sonora de O Império Contra-Ataca. Nota-se o contraste que esta música apresenta perante a Marcha Imperial, sendo ela mais orgânica (pouco pontuada), leve, romântica, simbolizando a relação que estes dois personagens adquirem na saga.

Feito isso, pode-se então entender o conceito de Leitmotif quando John Williams entrelaça os temas de Vader e Han Solo/Princesa Leia na cena em que o coreliano é congelado em carbonite pelo Lord Sith. Nessa música percebemos primeiramente o tema de abertura de Star Wars, executado por trompa e trompete (diferente da versão original em que todos os instrumentos da orquestra participam de forma retumbante), seguido da Marcha Imperial e, por fim, a junção da famosa marcha pontuada com o tema romântico de Solo e Leia.

Outra cena interessante para ser analisada corresponde ao olhar de Luke para o por do Sol em Tatooine no início do Episódio IV. Há outras coisas em jogo do que um simples olhar. Nesta cena ingênua se pode deduzir algo que diz respeito ao destino de Skywalker e seus atos. Se pararmos para prestar atenção, este tema é executado em toda trilogia antiga e sempre em momentos de decisões cruciais.

Para encerrar, não podemos deixar de esquecer que em todos os finais dos filmes da saga de Star Wars sempre há um “Ending”, ou seja, a música final executada durante os créditos do filme que expressa por si só a unidade do episódio para com a saga. Nesta música de encerramento notamos a repetição de todos os temas dos personagens que apareceram durante o filme e suas relações, sejam elas de amor, conflito, tragédia, etc. Desse modo, vale a pena passar a acompanhar todo o letreiro dos finais de Star Wars para justamente prestar atenção em como a história toda é recontada, mas agora musicalmente.

Espero ter esclarecido alguns pontos sobre a trilha sonora de Star Wars e sua influência wagneriana. Deixo como lição  não apenas uma nova forma de encarar os filmes de nossa saga favorita, como também o fim da preguiça dos fãs que desistem de assistir ao letreiro de créditos. Para os fãs mais curiosos, a chapuletada e redenção de Darth Vader pode ser agora vista não apenas enquanto um discurso narrativo ou cinematográfico, mas também ouvida através de seus reflexos na música de John Williams.

Pedro Kebbe, especial para o Ao Sugo


[1] É legal notar que até o famoso letreiro de abertura de todos os filmes de Star Wars foram inspirados nos letreiros de Flash Gordon, seriado exibido nos cinemas antes dos filmes a década de 1940 do século passado (Nota do ed. VH).

[2] A famosa Jornada do Herói tão estudada e difundida pelo antropólogo norte-americano J. Campbell e tida como orientação chave na criação dos personagens de Star Wars, como assim afirmou George Lucas. Vale ressaltar que apesar de ser amplamente difundida, é passível de uma leitura crítica ainda hoje (Nota do ed. VH).

[3] O mesmo ocorre com outro recurso estético na abertura do Episódio IV, onde aparece um imenso Imperial Star Destroyer ocupando todo o campo de visão do telespectador,  dando-nos uma prévia da magnitude do Império Galáctico (Nota do ed. VH).

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

7 comentários »

  1. Eis um vídeo com trechos musicais do anime OS CAVALEIROS DO ZODÍACO, relacionados à Batalha de Asgard, onde temos o guerreiro SIEGFRIED (entre outros, da Mitologia Escandinava):

    http://migre.me/HfV1 (especial atenção entre 01:34 ~ 02:36 = sensação de Marcha Imperial) Se alguém tiver interesse, favor contatar o @aosugo (ele fala comigo e eu mando as músicas, na íntegra, em mp3).

  2. Sensacional. Extremamente bem escrito. Talento e apuro estético na análise.

    Parabéns Pedro Kebbe. Parabéns Ao Sugo.

    Bárbaro!

    Bjs,

    Giselle Zamboni

  3. Gostaria de agradecer os comentários postados. Como vocês sabem, eu sou meio novo aqui (huahuahuahauau), sendo este o motivo de meu nervosismo.
    Muito obrigado Giselle… Como escrevi no artigo, tentarei expor mais esse lado sombrio da ficção científica chamado música…huahauhaua
    Abraços
    Pedro Kebbe

  4. Belo texto.
    Tão bom ler algo que nos explica de uma maneira clara curiosidades que às vezes não sabemos apreciar, por falta de conhecimento mesmo(meu caso).

    Parabéns Pedro, ficou ótimo! =]

  5. Opa!!!
    Valeu aí galera pelos elogios….
    Era essa a idéia do texto: mesmo contendo assuntos técnicos, procuramos aliviar e excluir ao máximo todas as “masturbações mentais” que as pessoas normalmente usam para demonstrar alguma posse de conhecimento excessivo.
    Fico feliz em saber que deu certo e que os leitores estão apreciando o modelo proposto.

    Mais uma vez, obrigado e continuem lendo.
    Abraços

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