Cartaz Soviético

Em “A Era dos ExtremosEric Hobsbawm nos mostra que o século XX é marcado pelas guerras “totais”, a guerra em que todo um país entra em esforço de guerra até seu último homem, sua última bala. Tropas inteiras em favor de umas poucas causas mobilizadas para destruir o adversário até o seu extermínio total. A tecnologia bélica desenvolve-se ao ponto em que já não é mais necessário entrar em um combate “corpo-a-corpo” para subjugar o adversário. Embora possa parecer alguma outra história sombria e pessimista de ficção como V de Vingança, 1984 e Distrito 9, após alguns exemplos totalitários presenciados durante este século já não reside mais apenas na imaginação dos homens quais seriam as últimas conseqüências quando se põe à prova a condição humana.

Embora muitos estudiosos da mente humana como psicólogos e psicanalistas estejam à procura de uma explicação “psicopatológica” para a loucura de Hitler e Stalin, como também a capacidade destes homens motivarem massas inteiras sob seu comando, as décadas de 30 e 40 do século XX ainda estão longe de serem totalmente compreendidas. Enquanto cientistas sociais buscam através de seus rígidos métodos lógicos por uma explicação sensata para o que aconteceu naquele período, enfrentam um dilema até então desconhecido na história das civilizações humanas: como procurar pela lógica de sistemas que não possuem lógica?

Até que ponto podemos aceitar a mobilização de massas motivadas pela “loucura”, ou mesmo como podemos identificar o que é ou o que foi esta “loucura”? Podemos nos ater na expressão hoje vista como cliché que “situações desesperadas exigem soluções desesperadas” para começar a discussão, já que nos embasaremos no texto de Hanna Arendt, “O Sistema Totalitário”. Roland Littlewood estabelece um modelo antropológico para compreender como a loucura poderia ser “justificada”, sendo necessário no entanto que ocorressem algumas circunstâncias específicas: em duas delas, a loucura só poderia existir desde que correspondesse a determinadas situações da “audiência”, ou seja, não bastaria ser “louco” para estar no poder, pois a própria idéia não se mantém logicamente por muito tempo: confirmada a loucura de um governante ele logo é considerado inapto ao poder e imediatamente retirado de sua condição de chefe.

Como afirma Hanna Arendt, em tempos de crise e miséria sócio-econômica em que a própria dignidade do homem é extirpada, movimentos que não exigem a lógica convencional dos regimes políticos de até então podem ascender ao poder, como os sistemas totalitários. Em situações em que a “audiência” ou as massas “aceitam” determinadas condições nunca antes previstas, temos as motivações e bases necessárias para que o totalistarismo se instaure como nova forma de regime.

Soldados

Todavia, não é suficiente que apenas esta “audiência” seja não apenas a fonte deste tipo de governo, mas é necessário também que o mantenha. Neste sentido, embora muitos estudiosos das ciências sociais tentem procurar alguma lógica em um movimento à primeira vista “sem lógica”, o que devemos entender é que tais movimentos se baseiam em uma lógica interna própria que fornece a sua sustentação no poder. A partir deste momento, cria-se uma realidade fictícia e objetivos ilimitados, como exterminar um grupo étnico inteiro ou “dominar o mundo”, dando ao movimento um aspecto de instabilidade e constante[1] reformação, ao contrário do que tinha se visto até então na política. Algumas destas características aparentemente “ilógicas” como o “amorfismo” das instituições, o poder entre partido e Estado, a polícia secreta e o antiutilitarismo merecem destaque aqui, como veremos a seguir.

O “amorfismo” do Estado totalitário sempre foi tido por muitos como uma das mais altas expressões da aparente falta de lógica deste tipo de governo. A constante multiplicação de instituições, o remanejamento constante de pessoal, a promoção e eliminação instantânea de cargos sempre foram características do sistema totalitário em que o que mais se almeja é a liderança. Como observado na Alemanha nazista, várias instituições competiam pela liderança de determinada região, geralmente com jurisdições sobrepostas, porém nunca se sabendo qual destas detinha o real domínio, até que o verdadeiro poder do Mein Führer se instalasse em qualquer lugar. Nesta situação, todos vigiam todos, todas as pessoas, ligadas ou não às instituições envolvidas, passam a se policiar umas às outras atrás da almejada “liderança”.

Enquanto que na Alemanha nazista tínhamos a multiplicação de instituições e todo o efetivo pessoal destas continuando a existir, na URSS Stalin preferia a eliminação e criação de novas instituições, sendo que todo o efetivo pessoal de uma instituição a ser extinta seria eliminada com ele, garantindo que, com esta renovação de pessoal nunca se firmasse um sentimento de solidariedade[2]. Esta paranóia de nunca se saber quem detém o poder faz parte das premissas do movimento, a de deixar o sistema instável. Um dos maiores perigos para o movimento seria se, após a obtenção do poder, tudo se estabilizasse e “acalmasse” o “espírito” de reformar o mundo. O movimento passa a adquirir características de reformação do mundo, não tem e nunca teve raízes em um determinado país, o que nos mostra o total desprezo pelo nacionalismo[3].

Mesmo neste clima de paranóia sabe-se que quem detém o poder é o partido, no entanto, de uma forma muito peculiar: quanto mais se sabe sobre determinada função no Estado, menos efetivo ele é, ou seja, as verdadeiras raízes do poder num sistema totalitário reside no segredo e na ocultação dos objetivos finais. Desse modo, o Estado passa a ser um meio para que o partido seja representado perante às demais nações. A polícia secreta passa a ser a verdadeira fonte de todo o poder, muito mais do que as próprias forças armadas, detentora dos verdadeiros objetivos do partido. Uma “realidade fictícia” é passada para os que não pertencem a este meio, uma mentira tão amplamente difundida que mantém os verdadeiros princípios e fins do partido ocultos do mundo, de modo que quando se defronta com o “verdadeiro mundo” passamos a não acreditar que aquilo seria possível, como os Campos de Concentração.

Guernica, Pablo Picasso

Temos no totalitarismo uma inovação, uma nova concepção de poder que nos escapa à lógica. O poder sempre foi tido como obtenção de meios materiais, porém neste regime vemos o total desprezo pelo “desejo do poder”, mas pela fé em uma ideologia, um idealismo fundado na simples agressão, o que foge à corrente lógica utilitarista dos outros países não-totalitários. Invade-se um território, mas suas riquezas não são exploradas; continuamente contingentes são enviados aos campos de concentração, mas pouco se obtém através deste trabalho “escravo”, exceto tortura, humilhação e a manutenção da maior mentira de todas. Desta mentira, o movimento procura obter o “domínio total” do homem e de todos os seus pensamentos, ou seja, não apenas o domínio daqueles escravizados nos Campos, mas de toda uma sociedade, como ela pensa e como ela deve pensar. Controlar a todos, fazer todos se policiarem, trabalharem para o Estado, formatar visões de mundo, definir os limites entre “certo” e “errado”…

A manutenção desta realidade fictícia e da constante paranóia também deve ser entendida a partir do momento em que temos a definição de um inimigo já declarado, ou seja, os inimigos do movimento são definidos antes mesmo deste obter o poder. Após a entrada no poder, estes inimigos “objetivos” são constantemente classificados e re-classificados conforme a conveniência, o que nos ajuda a entender a relação entre movimento e os inimigos do movimento. Sabe-se que na URSS os inimigos políticos foram eliminados logo nos primeiros anos de governo socialista, no entanto, passado este período e após praticamente todos terem sido mortos, o movimento precisava continuar a caminhar, definindo novos inimigos objetivos, mesmo que aleatoriamente, assim como a constante busca pela supremacia da raça ariana na Alemanha nazista que inventariava, classificava e re-classificava os judeus enquanto seus inimigos, depois os aleijados, os doentes, etc.

Como palavras finais, Hanna Arendt nos mostrou alguns dos pontos centrais que permitem o surgimento de um movimento como o descrito acima, marcado pela miséria e pela perda da “condição” de dignidade do homem. A partir do momento em que um povo já não possui mais as mínimas condições de viver dignamente, tais movimentos podem reaparecer, todavia, com novas roupagens, dizendo sempre atender às reivindicações das massas, ao combate contra a pobreza, contra a fome, etc. Este artigo, apesar de possuir um conteúdo bastante denso, nos mostra como ficções como 1984, V de Vingança e Distrito 9 são realidades possíveis, ficções que retratam a maior das ficções, a maior mentira de todas. Fica esperto.

Victor Hugo, Envergonhado

Imagens: Propaganda Soviética contra o Nazismo, Formação de Soldados Alemães da Segunda Guerra Mundial, Guernica (Pablo Picasso)

Leia mais:

ARENDT, Hanna. As origens do totalitarismo, 6ª Edição, 562 páginas. Companhia das Letras: São Paulo, 2006


[1] Como a “revolução mundial comunista” na URSS ou simplesmente exterminar grupos étnicos inteiros na Alemanha.

[2] Ou “clique”, no Nazismo. Sempre que uma “clique” estava prestes a se formar em algum ponto do regime nazista, Hitler logo remanejava todo pessoal, geralmente concedendo cargos com renome público visível para todos da sociedade, evitando assim um sentimento de solidariedade e diminuindo o seu poder.

[3] Independentemente dos discursos ideológicos de Hitler para o povo alemão que eram repletos de cunho nacionalista, o que vimos foi a utilização da Alemanha como um “trampolim” para a expansão do movimento, os alemães no fim de tudo acabaram sendo tratados como se estivessem sendo “usados” por um “conquistador estrangeiro”, como observado em inúmeras leis criadas pelo movimento. A respeito da raça ariana, sempre se soube que tal raça ainda não existia, não era portanto o povo alemão.

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

3 comentários »

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  2. Darth Victor diz:
    o q vc acha de 1984 e v de vingança, comparados
    Marcus – Come fly with me – diz:
    Acho a comparação indevida
    Darth Victor diz:
    pq
    Marcus – Come fly with me – diz:
    São narrativas imersas em sociedades de controle, apenas isso
    Em 1984 o controle é mais profundo pq ele chega a ser imperceptível
    a própria sociedade controla o indivíduo, não é simplesmente uma ditadura partidária como acontece no V de Vingança
    No V de Vingança existe um controle em prol da segurança populacional. No 1984 não é SÓ isso
    não existe algo no V de Vingança, por exemplo, como a ideia de manter uma guerra para dar a ilusão de paz (pq o fim da guerra seria a mudança da situação atual na qual acomodou-se a massa)
    Darth Victor diz:
    hum
    Marcus – Come fly with me – diz:
    No final das contas é que assim
    V de Vingança utiliza algumas ideias que sem dúvida estão presentes no 1984
    mas, de modo geral, é raso
    não existe nenhum mártir em 1984
    o Winston não é nenhum mártir. Na verdade ele não muda porra nenhuma
    O V de Vingança o V deixa claro que é o comodismo que ajuda a manter o status quo, que movimentar a sociedade pode mudar a situação e talz.
    Darth Victor diz:
    a hanna arendt escreveu um livro sobre totalitarismo nazista e soviético, é tudo isso for real
    Marcus – Come fly with me – diz:
    Mas no 1984 a sociedade não quer mudar.
    Darth Victor diz:
    mostrando q foge de uma ditadura
    e chega no controle do pensamento e bla bla bla
    Marcus – Come fly with me – diz:
    é justamente isso
    Darth Victor diz:
    por isso q eu disse, for real
    Marcus – Come fly with me – diz:
    Ditadura é um regime totalitário, mas o totalitarismo vai além da ditadura
    Nossa, que brilhante
    anota aí
    Pilleggi 2010
    Darth Victor diz:
    ahah
    Marcus – Come fly with me – diz:
    o controle no 1984 é tão foda que um cara como o V não existiria

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