2020 – um ano a se esquecer?

Tenho visto muitas mensagens de como as pessoas querem “esquecer 2020”. E delas não tiro a ponderação e nem a legitimidade do raciocínio. Entendo os motivos. Acho que boa parte também compreende. Ou ao menos deveria. Todavia, pôs-me a pensar sobre a indagação. E em meus devaneios eu acho que cheguei a uma conclusão.

E, respeitosamente, discordo. O ano de 2020 não deve ser esquecido. Contudo, meu desconcorde não é desprovido de deferência.

Foi um ano de muita dor. Aprendemos algumas coisas só que, entrementes, perdemos demais. Dois mil e vinte tirou-nos muitas coisas. Liberdade, empregos, dinheiro, sonhos. Ainda assim, mais que coisas, 2020 tirou-nos vidas. Os alguéns que não poderão mais abraçar aqueles que lhe são caros. Pais, mães, filhos e filhas, irmãos e irmãs, avôs e avós, amigos, primos, vizinhos e até os fulanos que você dava “Bom dia” no elevador cujo nome talvez nem se lembre.

Essas pessoas – e mesmo as “coisas” – se foram por uma série de motivos. Em muitos casos pelo repentino, pelo despreparo, desconhecimento, casualidade ou imprevisibilidade. Porém, dentre as vicissitudes da ventura, houve aqueles que se foram por descaso, descuido. Negligências em todas as esferas que eu não posso ignorar e que você, que está lendo isso, sabe que fez ou quem fez. Todos nós sabemos.

Em respeito a essas pessoas que se foram e às que perderam – seja o que for – eu peço: não esqueçam 2020. Que seja essa cicatriz profunda, que vai doer em tempos chuvosos, para nos lembrar que esse tipo de coisa nunca mais pode voltar a acontecer. Não se pudermos lutar contra isso. O ano 2020 vai ficar na memória; e deve.

Por outro lado, àqueles que continuam aqui eu peço que celebremos o fato de, justamente, estarmos aqui. Contra trilhões de possibilidades se considerarmos apenas as combinações possíveis do genoma humano, você está aí, dentro da pequena parcela de seres humanos que já existiram em toda a nossa história. Os átomos que compõem a sua existência originaram-se bilhões de anos atrás nos núcleos das estrelas mais brilhantes. Considere a fortuna de estar aí, de poder estar lendo isso, se de fato estiver. Somos diversos e nossas diferenças é algo a ser exaltado, celebrado, jamais reprimido. É isso que nos faz, em verdade, tão fascinantes.

Finalmente, mantemos na memória o que fez de 2020, bem… 2020. Não se esqueçam dele, porque não devemos. Não é certo. Contudo, lembremo-nos da nosso êxito de estar onde estamos. Afinal, já que somos, em parte, pó de estrelas tão distantes no espaço e no tempo, vamos sacudir a poeira e deixar transparecer um pouquinho a parte que nos faz estelares.

Feliz Ano Novo a todos.

Marcus Vinicius Pilleggi

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