Spoilers

Victor Hugo, Hoth – Três dias após o lançamento de Star Wars – O Despertar da Força no Brasil e, após ter assistido ao filme por duas vezes, já sinto a segurança necessária para escrever esta análise. Todos vocês devem ter notado a minha ausência na Holonet Ao Sugo, me dedicando quase que unicamente às notícias que continuam bombando a revista A Cantina, porém, com ínfimo conteúdo próprio. Vale aqui um desabafo, compartilhado por alguns dos fãs nerds da saga.

Verdade seja dita, eu estava com um medo horroroso desse filme. Fã do Universo Expandido de Star Wars desde os primeiros livros de Timothy Zahn, recebi o anúncio do “reset” da Disney/Lucasfilm quanto ao universo de Star Wars como uma facada no coração. É uma puta sacanagem descobrir que tudo o que você curtiu por 30 anos não vale bosta nenhuma, em prol do discurso da “liberdade criativa” do Jar Jar Abrams e da Kathleen Kennedy. Descobrir que os novos filmes da franquia jogariam todo o conhecimento da saga no lixo foi um golpe duro, me fazendo temer e perder a vontade de assistir ao Despertar da Força.

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Calma lá, não venham me defender o Jar Jar Abrams não. A primeira coisa que o infame diretor fez foi implodir o universo de Jornada nas Estrelas, também “resetando” todo um conhecimento – sistemático e já estável – de pelo menos 40 anos de idade. Quando conheci os romulanos, eles tinham franjinha e usavam roupas acinzentadas estranhas, isso por pelo menos 40 anos. Até chegar o Jar Jar, quando eles ficam carecas, tatuados e marombados. Já o segundo filme fora uma espécie de cópia porca de a Ira de Khan, mas muito, muito mal feita e praticamente irreconhecível. Pra mim Star Wars estava andando no fio da navalha.

Com bastante felicidade, mordi a língua. O Despertar da Força está por aí e é facilmente um dos melhores filmes de toda a saga. Não digo o melhor, pois para ele estar despontando por aí, é porque vieram outros três antes dele, os episódios IV, V e VI respectivamente. O Despertar da Força acabou despertando em mim uma euforia por Star Wars que só tive lá em 1997, quando me converti num fanboy descarado do Luke Skywalker & cia. A plateia estava elétrica no cinema e chorei como um bebezinho durante o filme inteiro. Reassisti e caí no choro novamente, percebendo, sim, com muito orgulho, que voltava a ser uma criança.

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Já ouvi algumas críticas ao novo filme e aproveitarei a oportunidade para rebatê-las, conferindo aqui o tom da minha análise. Ok, aqui poderão aparecer alguns spoilers, portanto, recomendo que você, leitor que ainda não foi ao cinema, saia desta página agora. Agora.

A primeira crítica ao Despertar da Força é que o filme é uma cópia descarada do Episódio IV, tanto na estrutura do roteiro, como também nos cenários e reaproveitamento de personagens. Muito foi dito, aludindo a falta de criatividade do Jar Jar Abrams, mas discordo veementemente destes aspectos.

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Primeiramente, o roteiro do Despertar da Força é unicamente original, sendo as semelhanças com os episódios anteriores uma baita de uma homenagem. Dos elementos que sempre foram características saga, destaco que o drama familiar, a discussão acerca do terceiro excluído freudiano (pai vs. filho etc), a jornada do herói e os mitos universais que orbitam a Grande Narrativa de Star Wars que é contar a história da família Skywalker. Isso tudo está presente e muito bem, obrigado, no Despertar da Força, retomando uma fórmula sublime que esteve ausente (ou foi muito má contada) nos episódios I, II e III. Lembrem-se, na época do Episódio I o pessoal saía do cinema achando que “não parecia Star Wars“…

Em segundo lugar, temos um empoderamento das personagens femininas de forma nunca antes vista em toda a história da franquia. Não existem correlatos estruturais neste filme com o episódio IV, V e VI: Rey não é o Luke Skywalker de saias, a Maz Kanata não é um correlato barato com o Yoda e temos Stormtroopers mulheres (sendo a capitã Phasma a líder deles). O Despertar da Força minimizou (ou implodiu) o machismo de Han Solo, descartou a ideia de usar uma Leia de biquíni escravizada e acabou com o mimimi da donzela em perigo, o que por si só já denota um ineditismo se pensarmos nas baladas de trovadorismo arturianas e tudo mais.

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Aqui vocês podem estar achando que sou muito ranzinza. O pessoal não entende que colocar um blaster ou lightsaber nas mãos da Leia ou da Padmé não denota, de modo algum, que temos uma igualdade de gênero na narrativa, mas sim, uma masculinização de personagens femininas para que elas se transformem em “heróis”. Isso é uma sacanagem sem tamanho e que foi, graças à Força, arrancado na porrada neste novo filme.

A Rey desbarateia a todo momento o Finn com sua necessidade incessante de achar que ela está sempre em perigo e que não pode cuidar de si mesma, estando ele, na verdade, na corda bamba. Seu medo da Capitã Phasma, sua imaturidade e cavalheirismo de convenção social acabam colocando o nosso rapaz sempre em perigo. Que porcaria é essa de correr de mão dada? Não teve coisa mais linda de ser ver que o cavaleiro jedi deste filme não é mais um homem, mas uma mulher que possui um poder da Força muito mais desenvolvido do que o próprio Luke no Episódio IV, senão até mesmo do que o Anakin na nova trilogia.

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Quando você subverte a estrutura da narrativa assim, você destrói a dominação masculina que permeia toda a saga, algo impossível há décadas atrás. Tal ponto mostrou para todo mundo que a Disney comprou a Lucasfilm e chegou para ficar, recontando os motes ou tropes clássicos de Star Wars de um jeito absolutamente diferente e inovador. As comparações ao Episódio IV ficam apenas no âmbito de comparação.

O meu maior medo era o que aconteceria após a implosão do Universo Expandido, agora chamado de Legends (e que muita gente famosa da internet anda falando que são “as aventuras de Luke, Leia e sua turminha”, texto de press release e que denota que a pessoa não sabe bosta nenhuma do UE…), estando o Jar Jar Abrams livre, leve e solto para destruir uma franquia tão cara por mim. O Despertar da Força se provou o contrário, sendo uma das coisas mais divertidas que você pode assistir no cinema. Mordi a língua feio, sim, mas confesso que estou feliz com o que vi. Já espero ansiosamente pelos próximos.

Que a Força esteja com vocês.

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Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

5 comentários »

  1. Belíssima análise! Também senti o mesmo com relação ao UE, ainda que tenha me aprofundado nele apenas recentemente. Todavia, após ver O Despertar da Força e terminar Marcas da Guerra, tenho minhas suspeitas que tanto Thraw como Mara Jade estarão no novo UE…

  2. Parabéns pelo texto!!
    Adorei o filme e, além de todos os aspectos citados, acrescentaria mais um detalhe; tendo em vista a herança capitalista cujo velho é abandonado e substituído pelo novo num piscar de olhos, onde ignoramos ou não creditamos o devido valor “aos experientes”, achei super bacana o R2D2 não ter sido considerado uma mera sucata, mas sim ter aparecido de forma crucial no clímax do filme. Sem falar no impacto emocional que foi a presença do Harrison, da Carrie, do Mark, do Chewie e do C3PO. Nooossa, meu coração teve que se mostrar forte ali. No final das contas, considero muita sorte a nossa pelo tempo ter lhes dado saúde para se manterem vivos até esse momento e nos ofertado e presenteado, em pleno Natal, tamanho deleite. Enfim, foi fantástico. Abraço

  3. Tive uma boa impressão do filme e concordo com os elogios feitos. Mas tive uma impressão que o Jar Jar Abrahms (hahahah) teve a intenção de reconquista o fã, de mostrar que é possível fazer Star Wars de novo, diferente dos episódios I, II e III.

    E por isso a leitura de homenagem cabe, apesar de achar que foi mais cópia do que homenagem… e isso me incomodou, apesar de durante o filme eu estar com a sensação de estar vendo de novo Star Wars

    Mas tendo o fã de volta, meu medo é, o que vem depois disso? Algo como um Império contra ataca? Ou vai ter a liberdade criativa exagerada e fugir de tudo isso?

    Agora é aguardar os sei lá quantos dias, e no meu caso estou com uma expectativa um pouquinho melhor que estava para esse, mesmo de achar que é um ótimo filme, mas que não ultrapassa nenhum da trilogia clássica.

    Abraços, Ernesto

  4. Boa análise, porém concordo em partes. Mesmo o Despertar da Força sendo um homenagem aos antigos não anula o fato de ser uma cópia. Teus argumentos não foram suficientes para me convencer disso. O filme preservou algumas coisas do Universo expandido como o filho de han e leia partindo para o lado negro.(gostei disso). Também me agradou o que você levantou na análise sobre o emponderamento feminino. A única coisa que vale lembrar é que luke inicialmente seria uma mulher. Talvez, a protagonista, Rey tenha sido uma personagem reaproveitada da história original, visto que ela também cresceu num planeta desértico. Outro ponto o mal desenvolvimento dos vilões durante o filme – primeira ordem, capitã Phasma que mal apareceu. Mesmo sendo um fãzasso da saga não fiquei impressionado, mas fico super curioso em relação aos próximos, pois há uma margem grande para uma ótima história que pode ser melhor ainda que a saga original.

    Abraço, Diego

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