Foi já com algumas cervejas na cabeça que resolvi voltar para casa depois de uma boa conversa de bar com alguns amigos. Claro, a pé, já que a verba não permitia nem uma moto vagabunda. Pensando na vida, como todo bêbado sozinho eventualmente faz, cruzei a frente de um bar tranquilo, humilde, onde um pequeno e modesto grupo apresentava talentosamente um bom jazz.

Como gosto de jazz, acabei entrando. Sentei numa mesa e já pedi uma cerveja, só pra manter a lucidez. Por um tempo que minha cabeça se recusa a calcular, fiquei ali sentado, sozinho e quieto, com a mente aberta e vazia, com atenção somente à boa música que povoava cada canto escuro daquele barzinho, ecoando de cada harmônico de cada nota do habilidoso quarteto. Ouvir jazz é como ver um jovem filhote que está descobrindo o mundo: você não sabe ao certo o que virá a seguir, o que ele vai fazer, mas tem a certeza de que será encantador.

Escutava cuidadosamente com ouvidos musicais. Na quietude, buscava compreender e perceber a nuance da harmonia e melodia, mais livre e agradável como é a boa escola de Chet Baker; menos intrincado que um Parker ou Gillespie. Natural, afinal, o bebop está entre os menos agradáveis dos estilos do jazz. Isso porque o Parker, numa certa megalomania vanguardista, levou o jazz a um nível de complicação que talvez só o Coltrane e o Free Jazz trariam mais tarde. O turum tum tss tá tá, tchurururuuu tchururuu dorom dom dom dororom dorom dom era mais aprazível, entretanto, do que as míseras palavras podem dizer. Tentar traduzir a língua da mais suprema das artes, a música, é, no mínimo, uma tremenda ousadia.

A maioria das pessoas não aprende a apreciar o jazz, contudo. Acho que é por ser algo inesperado, improvisado, e poucos gostam disso. Preferem programar-se, controlar o que virá. É costume criticar a rotina, só que, ironicamente, as pessoas precisam dela. É bom acordar sem saber o que irá fazer, mas natural ao homem desesperar-se quando não sabe o que fará. Acontece que dominar a arte da improvisação, na música e fora dela, é menos simples do que parece. O bon vivant tem potencial para ser um jazzista do mundo assim como a um bom músico é possível ser um bom jazzista. A maioria de nós, inclusive, tem condições de ser um improvisador boêmio, assim como qualquer instrumentista tem capacidade para executar um bom jazz. Só fica mesmo o medo de arriscar. Estranhamente, àquele que vive no improviso é preciso, em geral, maior conhecimento e habilidade do que àquele que vive sempre na mesma cadência e ritmo. É difícil mudar, e tanto quanto saber quando fazê-lo; nem todas as notas resolvem belamente uma melodia.

Pois a cadência de minhas divagações foi quebrada ao notar uma bela moça sentada a umas duas mesas ao lado. Observei-a por um tempo por canto d’olhos; ela com os longos e castanhos cabelos repousando sobre os ombros encolhidos, enquanto a difusa e diminuta luz refletia a matiz âmbar-esverdeada de seus olhos brilhantes e a pele clara dos braços, que serviam de apoio para as mãos delicadas que emolduravam um rosto suave. Talvez ali o ambiente fosse de jazz, mas ela era uma peça bachiana, como o solo num prelúdio de um violoncelo, executado com a perfeição e perícia do voo de um beija-flor. Graciosa, bela, perfeita, era como eu queria lembrar-me dela.

Ora, da mesma forma que mudei a harmonia ao entrar naquele bar, não esperava ver aquela bela moça ali, sozinha como eu. Resolvi usar escalas incomuns, ao menos ao meu estilo de tocar, e mudei o tema principal; levantei e fui até ela e acabamos distraídos numa deliciosa conversa também nada programada, fossem sobre assuntos sérios adultizantes ou reflexões inúteis sobre temas infantis. Aquela noite parecia tecida pelo sopro de Miles ou os dedos de Hancock. Mas o trompete ou o piano não poderiam causar a mesma sensação do arrepio caloroso do toque entre os pares de lábios naquele canto de mesa de um bar pequeno, o ápice dum dueto instrumental perfeito; um encontro que durou mais do que posso me lembrar, mas menos do que eu queria me lembrar.

Não tardou a despedida. Pouco sei a respeito dela, a não ser por seu nome e seu rosto, ambos gravados em minha memória. Um lampejo de uma luz numa noite que não foi programada, mas sim improvisada, como as notas do sax de Coltrane, atonal e dodecafônico, sem rigidez, sem rotina e livre de convenções, em que cada nota foi encaixada com perfeição, resolvendo em temas e harmonias e melodias tão agradáveis quanto um sonho colorido e suave repleto de música. O bar fechou; jazz não dá dinheiro, não hoje, não aqui. Mas sua atmosfera está marcada, já que possivelmente perderia aquela jam session se mantivesse um mesmo ritmo cadenciado. Felizmente, decidi que aquela noite eu faria um jazz. E se a vida for realmente uma grande música, uma grande composição, como já ouvir dizerem por aí, então que seja jazz.

Marcus Vinicius Pilleggi

7 comentários »

  1. Se me permitem….. PQP!!!! “Ouvir jazz é como ver um jovem filhote que está descobrindo o mundo: você não sabe ao certo o que virá a seguir, o que ele vai fazer, mas tem a certeza de que será encantador.” acho que foi a melhor definição do jazz que ja li em todo e qualquer lugar….. MTO, MAS MTO BOM!!!! esse molho tá no ponto!!!!!

  2. Foi tão bem escrito que parece romance de um livro.
    E é tão cult, nossa adorei mesmo!

    Pena eu não entender nada de jazz, mas talvez eu saiba apreciar…

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