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Frequências de saudações abertas,

Mal pode tomar sua preciosa xícara de café que o capitão da Nave Estelar USS Excelsior, nosso querido George Takei como Hikaru Sulu, leva um chacoalhão espacial: a Lua de Praxis, maior fonte de energia do Império Klingon, entra em colapso após um acidente. Com 50 anos de vida pela frente, os beligerantes Klingons são forçados a abandonar décadas de conflito com a Federação para que possa sobreviver enquanto povo.

O enviado especial da Frota Estelar, Capitão Spock, aponta Kirk e comitiva para escoltar a nave Klingon do Chanceler Gorkon, agora rumo a território da Federação para iniciar as primeiras conversas de paz. Quer um plot melhor que esse? É assim começa Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida, um filme espetacular que é obrigatório para qualquer ser humano que curte Ficção Científica.

Os trekkers sabem o quão difícil foi manter Jornada nas Estrelas, posteriormente conhecida como a “Série Clássica”, no ar. Para começo de conversa, Star Trek foi uma das únicas séries televisivas com direito a dois episódios Piloto, sendo cancelada três anos depois pela queda na audiência. Como resultado, a missão de cinco anos da Nave Estelar USS Enterprise NCC-1701 foi marcada desde o início pela dificuldade em manter a consistência entre as temporadas, sem contar a falta de um final digno desse mito televisivo.

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Com o sucesso de alguns dos filmes da franquia (misteriosamente sempre com os episódios pares) e, com o estouro que foi A Nova Geração, a Paramount decidiu oferecer ao nosso caro Nicholas Meyer a chance de finalizar a Série Clássica em grande estilo, esforço conjunto para a comemoração, na época, dos 25 anos de Jornada.

Contudo, diante do fracasso de bilheteria do filme anterior (em que um Kirk interpretado e dirigido por Shatner, desafia Deus na cara dura), o estúdio limitou de maneira brutal o orçamento, comprometendo a produção em várias esferas.

Destas limitações, vale destacar a reutilização de vários cenários dos sets de A Nova Geração, ainda em produção no período. Como exemplos, trekkers atentos reconhecem a utilização da Sala de Teletransporte, os corredores, o quarto de Data, o consultório da Deanna Troi e até mesmo a Sala de Observação, iiiiisso, aquela em que o Capitão Jean-Luc Picard faz suas reuniões com a tripulação.

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As maquetes todas foram reaproveitadas dos filmes anteriores, exigindo da produção a reforma intensa de alguns modelos, chegando até mesmo a danificá-las nas extensas pinturas. A maquete da Enterprise, na época com mais de 10 anos de idade, teve toda a fiação interna refeita, além de novas pinturas em dois modelos Klingons, a D7 (de Star Trek I) e a Ave de Rapina (de Star Trek III).

O mesmo foi sentido na maquiagem, uniformes, fotografia e até na contratação do compositor da trilha sonora, um Cliff Eldeman de 26 anos totalmente desconhecido do mundo cinema. Já o salário dos atores e staff foi assunto de infindáveis reuniões, mantendo os valores do filme anterior (o que é incomum em Hollywood), sendo o restante revertido com os lucros da bilheteria.

Porém, como dizemos aqui no Ao Sugo em outros artigos, ao contrário do que aconteceu em muitas produções recentes, todas de orçamentos exorbitantes e qualidade duvidosa (vide O Hobbit, a nova trilogia de Star Wars, etc), as limitações obrigam os produtores, roteiristas, diretores e atores e usarem e abusarem da criatividade. Tal reversão pode ser observada no cuidado com o roteiro e atuações fantásticas, recuperando uma atmosfera e densidade vistas em Star Trek II – A Ira de Khan, também de Meyer.

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Star Trek VI é conhecido pelas memoráveis cenas com os klingons, além da atuação impecável de Christopher Plummer como Chang. A limitação de recursos fez com que o roteiro fosse mais “pé no chão”, sendo um excelente dispositivo que narra de forma sublime a transição dos eventos da Série Clássica com a Nova Geração. Agora sim que passamos a entender a presença de Worf na Nova Geração, um passado de 80 anos que nunca tinha sido contado antes.

A alegoria da explosão de Praxis com a Usina Nuclear ucraniana de Chernobyl é evidente, sendo aqui os klingons os soviéticos da recém-esfacelada União Soviética, tendo Gorkon como nosso Gorbachev. Tal marco gera um feixe de tensões entre a Federação e Klingons, o que foi transportado de maneira sem precedentes na tela. O futuro dos Klingons estaria no abandono da beligerância, um aspecto que os define enquanto povo distinto ao da Federação… caramba!

Meyer aproveitou a discussão para inserir uns cutucões profundos na trama, como a alusão aos regimes totalitários, a percepção nazista alemã do “espaço vital”, a própria ideia do Shalom judaico e até mesmo o estabelecimento dos gulags ou Campos de Concentração para sustentar a máquina de guerra de uma potência moribunda

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Como dissemos aqui no Ao Sugo em outros artigos, ao contrário do que aconteceu em muitas produções recentes, todas de orçamentos exorbitantes e de qualidade duvidosa (vide O Hobbit, a nova trilogia de Star Wars, etc), as limitações obrigam os produtores, roteiristas, diretores e atores e usarem e abusarem da criatividade.

Tudo isso foi perfeitamente amarrado com um enredo e diálogos shakespearianos, tendo como origem várias passagens emblemáticas de Hamlet acerca do desconhecido e, no caso, da Fronteira Final. Tais diálogos foram imortalizados na atuação de Plummer, ator shakespeariano que traz uma sobriedade e densidade à cultura Klingon de modo nunca antes visto no seriado.

Já o final… não preciso nem dizer. Kirk faz uma alusão direta a Peter Pan (vocês verão) e a câmera abre para o espaço, com aquele final de fazer qualquer fã de Jornada nas Estrelas chorar. Eis um dos melhores filmes de Jornada já feitos, com toda a certeza, um encerramento muito digno de um dos seriados televisões mais bem sucedidos da história. Vida longa e próspera a todos!

Frequências de saudações encerradas,

Capitão Victor Hugo, diretamente da USS Nagoya para o Conselho Jedi Rio de Janeiro

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

2 comentários »

  1. Ótimo filme, a cena do jantar, o julgamento de Kirk e McCoy e o último captain’s log valem a diversão. E não tem como não se emocionar com a despedida da tripulação clássica, na cena final, comovente.

    Adorei a review!

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