2001

Como editor do Ao Sugo devo confessar que o retorno do Cineclube Sci Fi não poderia ser em maior estilo e elegância do que exibindo 2001 – Uma Odisseia no Espaço. Considerado um dos filmes mais emblemáticos de Ficção Científica do século XX, 2001 eleva o gênero como obra de arte e faz uma poderosa crítica aos caminhos (ou descaminhos) da Humanidade do futuro. Nele, a discussão sobre Humanidade, Inteligência e Progresso Científico/Tecnológico alcançam em uma síntese bastante complexa um enlevamento espiritual raramente visto no cinema.

Três minutos de Atmosferas de György Ligeti com a tela preta quando, BAM, E Assim Falou Zarathustra de Richard Strauss explode na tela. Algo sério estava para acontecer. Já na entrada Arthur C. Kubrick deixava claro que se afastava de toda a tradição cinematográfica em Ficção Científica produzida até então. Nada de Theremin, aquele instrumento misterioso que produzia o tão característico som dos filmes de Ficção Científica e Terror. Nada de discos voadores de papelão, efeitos especiais baratos e atores pouco talentosos. 2001 vinha para marcar a história do cinema, contada

No primeiro ato os próximos minutos narram a história de agrupamentos de símios (em algum estágio da evolução humana) em busca da sobrevivência. Caçam. Fogem. Dormem. Comem. Caçam. Fogem. Bem, vocês entenderam a rotina. Tudo muda quando encontram um estranho – o famoso – monólito obsidiano encravado no chão. Se tratando obviamente de um construto alienígena (ou os golfinhos realmente estavam pregando uma peça em todos nós), o monólito promove pelo contato com estes símios um dos primeiros passos da evolução. São criadas as primeiras ferramentas, armas, lógico. Mas ainda assim ferramentas, isso tudo somado aos quase sete minutos assustadores e caóticos do Requiem para Soprano, Mezzo Soprano, Dois Coros Mistos e Orquestra de Ligeti, culminando no crescendo estonteante de Also Sprach Zarathustra. Pela própria trilha sonora ja poderíamos ver a passagem do Caos absoluto para um momento de transição quase mágico, até então inexplicável.

2001

O segundo ato começa com O Danúbio Azul de Johann Strauss, com o planeta Terra visto do espaço, com uma nave espacial singrando pelo Cosmos em sua própria valsa, levando seu único passageiro, Dr. Floyd, para o encontro com aquela icônica estação espacial cujo anel circula gerando gravidade artificial. Nenhuma palavra é dita, o filme se firma fortemente como uma obra de arte contemplativa (o que deixa muita gente irritada, acreditem em mim), mostrando o pleno Domínio do Homem sobre a Ferramenta, no caso, a Tecnologia. Sim, tudo com letra maiúscula.

Na estação Floyd sabe por uma reunião burocrática e enfadonha com cientistas russos que algo está muito errado na base lunar norte-americana Clavius. Um monólito obsidiano é encontrado soterrado na Lua, certamente alienígena. O caso é rapidamente abafado e ocultado da opinião pública, devendo ser imediatamente investigado. Já na Lua, os cientistas são surpreendidos quando o monólito começa a emitir um som ensurdecedor, direcionado a Júpiter. Estava dado o próximo passo para a evolução humana.

A sequência seguinte nos apresenta a famosa nave espacial Discovery em sua jornada para Júpiter, 18 meses depois do incidente na Lua. Em várias cenas contemplativas novamente vemos o Homem como mestre supremo da técnica, agora auxiliado por uma inteligência artificial fantástica e odiosa, o HAL 9000… Creio que devo parar a minha descrição por aqui, pois, apesar do filme ser já bastante antigo, ninguém gosta de spoilers.

2001

2001 – Uma Odisseia no Espaço pode ser considerado um desdobramento do conto de Arthur C. Clarke chamado The Sentinel. Tal desdobramento, no entanto, foi fruto da colaboração entre Clarke e Kubrick na produção do filme/roteiro/livro. Apesar de um clássico da Ficção Científica, 2001 é, ironicamente, um dos filmes mais polêmicos e pouco compreendidos por conta de sua abordagem estética e seu próprio final, aberto à interpretação do telespectador.

A temática principal é evidentemente a questão entre a relação entre o Homem e a Máquina/Criação, dado o seu domínio da Ferramenta e da Tecnologia, algo presente em quase todos os filmes clássicos de Ficção Científica. Apesar das longas cenas contemplativas em torno desse domínio do Homem sobre a Máquina, o filme apresenta uma profunda discussão sobre algo que gosto de chamar de Estatuto da Humanidade: diante da nossa máxima criação, a Máquina, em que medida isso afeta/produz/atualiza/reproduz/significa/ressignifica a nossa própria Humanidade? De quais maneiras essa relação quase neurótica e umbilical com a tecnologia interfere nas próprias sociabilidades, nas próprias relações humanas?

Materializado na inteligência artificial HAL, vemos como a Máquina cria ao longo do filme características cada vez mais humanas. De uma voz afável (afável?), surge o medo, a neurose, a suspeita. Nos momentos finais, quando HAL precisa ser desativado, observamos um assassinato. Moribundo, HAL canta músicas que lhe relembram da “infância”, comenta sobre “memórias” de um passado nunca apresentado no filme. Não estamos mais desplugando uma máquina da tomada. Estamos interrompendo uma vida.

2001

Como percebe M. Keith Booker em Alternate Americas: Science Fiction Film and American Culture2001 traz consigo vários temas importantíssimos abordados no filme foram recuperados por outros clássicos do cinema, como Blade Runner e afins. Apesar do domínio da tecnologia que se compara quase que literalmente a uma valsa, temos quase uma distopia, marcada pelo afastamento/diminuição das relações sociais. Nas cenas como a do videofone nota-se uma relação bastante distante e desinteressada entre Pais/Filhos, devidamente debitada ao final da ligação. E depois me dizem isso sobre famílias inteiras que ficam em seus notebooks, tablets e celulares e deixam de conversar pessoalmente, apesar de partilharem do mesmo espaço… Quanto a isso, um ponto interessante é o empobrecimento da Linguagem, notável na quantidade de diálogos no filme. Quando surge, é burocratizada, contabilizada, economizada.

Aqui vemos o preço – alto – da Tecnologia e Progresso Científico que neste filme e livro estão intrinsecamente atrelados à evolução humana, no próprio sentido darwiniano (opção da narrativa que certamente deve ter tido uma influência muito forte da perspectiva de Arthur C. Clarke). Alcançar o Espaço e dominar a Ferramenta em prol dessa “escadinha” de “desenvolvimento humano” implica no constante “desumanizar-se”, quando ironicamente as máquinas se tornam cada vez mais humanas. Como sabiamente aponta Booker, tais ritos de passagem de um estágio evolutivo inferior para o Homem Superior nietzcheano são sempre marcados pela presença ou intervenção alienígena, porém jamais explicada, o que talvez cause tanta indignação entre vários telespectadores. Mal sabem eles que aqui o que importa não é um extraterrestre de olhos grandes e crânio gigantesco, pois nem com a própria Humanidade/Tecnologia a gente não consegue lidar.

Tal crítica se faz presente em todos os filmes já apresentados aqui no Cineclube Sci Fi, algo indissociável dos próprios princípios, origens e bases fundadoras do que chamamos de Ficção Científica: o que seria dela senão o pensamento fantasioso, só que ancorado (ou às vezes amarrado, agrilhoado) na suposta Ciência e Progresso Científico? Em 2001, tal Ciência e Progresso Científico, erroneamente atrelado à evolução humana no sentido darwiniano “desumaniza” ou esteriliza a própria Humanidade em suas características mais profundas: as relações humanas. Eis aqui uma crítica poderosa e que só se faz presente em pouquíssimas obras, os verdadeiros “clássicos da Ficção Científica”. Só espero que não precisemos de monolitos aparecendo por aí para o povo começar a acordar.

Victor Hugo, diretamente do Ao Sugo para o Conselho Jedi Rio de Janeiro

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