earthsea1Existem livros com qualidades incríveis, livros belamente escritos e repletos de enredos cativantes. Existem livros singelos, assim como existem livros densos, dentre tantas coisas quanto possível. Contudo, encontrei uma série de livros que tem uma qualidade singular: a de fazer você refletir sobre sua história por várias semanas ou meses depois de ter terminado a leitura. Senhoras e senhores, hoje apresentarei para vocês o primeiro livro do Ciclo Earthsea, The Wizard of Earthsea, de Ursula K. Le Guin.

Imaginem o sucesso que foi O Senhor dos Anéis ao chegar nas livrarias. Publicado em 1954, a trilogia de John Ronald Reuel Tolkien rodou o mundo e conquistou fãs nos quatro cantos. Camisetas, broches e campanhas em nome de Frodo & cia. corriam as ruas, criando uma demanda cada vez maior de fãs de um gênero até então esquecido ou pouco considerado, a Fantasia. Escritores tentaram imitar o feito tolkieniano (criando assim uma legião de “tolkienistas”, como são reconhecidos lá fora) e vários livros parecidos chegariam ao mercado, todos com seus elfos, anões e dragões, porém imagens espelhadas de pouca qualidade perto da sua obra de inspiração.

Foram poucos os autores que conseguiram transcender a febre tolkieniana, proporcionando um revival dos contos de fadas ao oferecer leituras alternativas ou até mesmo superiores à saga do Um Anel. Destes, devemos destacar o trabalho de Guy Gavriel Kay, autor canadense que fez uma homenagem aos Tolkien com The Fionavar Tapestry, já apresentado por mim aqui no Ao Sugo. Outro expoente é a autora de quem falarei hoje, Ursula K. Le Guin, cujos escritos ecoam como os mais vendidos ou então os mais famosos do gênero, considerada por alguns como superior ao próprio trabalho tolkieniano.

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Pois bem, antes de continuar, devo já me preparar para as críticas e para os choramingos dos conservadores. Tolkien e Le Guin não são imediatamente comparáveis, como podem pensar muitos. Inspirado pelas Club Stories britânicas, Tolkien produziu tomos e mais tomos nos apresentando Arda e a Terra-Média, como um viajante distante que em seu diário anotava tudo o que via. Crítico à ideia de alegoria em sua obra (porém afeito à questão da “aplicabilidade”, seja lá o que for isso), Tolkien nos trouxe um mundo novo, cuja quantidade de detalhes o tornou vivo. Ursula K. Le Guin apresentou Earthsea em livros curtos, nem tão cheios de detalhes e nem tão repletos de personagens épicos como assim o fez Tolkien ou Kay. A grande diferença é que Le Guin faz o leitor pensar.

Filha do antropólogo Alfred Kroeber (pasmem, assim como eu estou pasmo), Ursula K. Le Guin estreou no mundo da literatura com A Mão Esquerda da Escuridão, romance de Ficção Científica que propõe uma séria reflexão sobre gênero e sexismo, consolidando o caminho da Ficção Científica Feminista desde então. Com forte formação em humanas (para além dos pais, pois fico imaginando o ambiente familiar…), Le Guin sabe como ninguém inserir em seus livros profundas discussões sobre gênero, raça, identidade e sociedade, sendo vencedora de inúmeros prêmios Nebula e Hugo pelos seus feitos, inspirando outros grandes nomes como o próprio Neil Gaiman.

Consagrando-se na Ficção Científica adulta, A Wizard of Earthsea foi um desafio proposto em 1967 à Le Guin pelo seu editor, Herman Schein, achando que ela seria incapaz de escrever um livro Infanto-Juvenil (o famoso YA). Passado um tempo a escritora aceitou a empreitada, acreditando ser possível transmitir, mesmo em uma obra Infanto-Juvenil, sua poderosa mensagem e reflexão sobre o pensamento humano, o que ela fez muito bem, obrigado. Mesmo voltado para crianças e adolescentes, A Wizard of Earthsea tem como objetivo apresentar uma aventura em que os magos não são aqueles homens curvados e sábios, mas sim jovens que aprendem a magia conforme aprendem a viver, numa narrativa simples que cativou e continua cativando vários leitores adultos pelo mundo todo.

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Le Guin se baseou em dois contos publicados em uma edição há muito perdida da Fantastic, sendo eles The Rule of Names e The Word of Unbinding, ambos de 1964. Tais contos apresentam não apenas o mote principal do Ciclo Earthsea, a arte e o poder da nomeação, como também introduzem a noção do Arquipélago reconhecido como Earthsea.

A Wizard of Earthsea conta a história de Duny, um menino que fica intrigado desde pequeno com as palavras de poder que sua tia tinha em relação às ovelhas da família. Após observar secretamente a sua tia em ação, Duny tenta repetir o feito quando ela não está olhando e… pronto, temos um menino andando pra lá e pra cá com várias ovelhas em seu encalço! Assustada por ver que seu sobrinho tinha um grande potencial na Arte, a tia do menino lhe diz que o que ele estava fazendo, na verdade, era apenas chamar as ovelhas pelo seu verdadeiro nome. Bobinho? Banal? Leviano? Veremos.

Aos 13 anos Duny recebe seu nome verdadeiro, Ged, devendo oferecê-lo apenas aos amigos e pessoas mais próximas, senão, deve ser conhecido pela alcunha Sparrowhawk. Descobrimos ao longo da leitura que Ged é um dos maiores magos de Earthsea justamente por ter o poder ou a capacidade de dar nomes às coisas (ele nomeia e não apenas “descobre” o nome delas), sendo enviado para uma das maiores escolas de magia do arquipélago. Lá ele faz um amigo e até um inimigo à la Draco Malfoy, deixando os fãs de Harry Potter atordoados… Durante uma magia imprudente Ged liberta algo inominável, o verdadeiro vilão durante toda a narrativa: oras, o que não tem nome não pode ser controlado! Se isso não brinca com boa parte da Antropologia Social e a ideia de onomástica, então não sei de mais nada.

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A Wizard of Earthsea pode ser encarado como uma homenagem à Linguística e ao Estruturalismo Lévi-Straussiano, legado que certamente aprendeu com os pais. No livro aprendemos que, diante da necessidade de nomear e assim domesticar o mundo à nossa volta, a Velha Arte, Arte ou Magia é na verdade o ato de nomear as coisas ou, para alguns, redescobrir o nome verdadeiro das coisas (e não aquela palhaçada à la Dragon Ball Z ou Dungeons & Dragons 4). Diante deste contexto, aprender a chamar as coisas pela forma como são realmente conhecidas garante àquele que nomeia pleno poder sobre elas, aspecto que é refletido no nome dos personagens e na forma como ganham e perdem nomes ao longo da vida. Duny se transforma em Sparrowhawk/Ged, etc., cada qual com funções e papéis sociais específicos dentro do contexto da narrativa. Le Guin percebe assim e transmite de maneira bastante sutil o poder da Linguagem. Nos demais livros da série, ela explora com maestria temas como Gênero e até mesmo a discussão sobre diversidade cultural, mas de maneira séria e que interessa mais à gente grande do que aos adolescentes aos quais estes livros são destinados.

Uma das críticas mais frágeis (imbecis) que fazem à Ursula Le Guin é a “simplicidade excessiva” de seu livro, mostrando dois efeitos imbecis do mercado editorial contemporâneo. A Wizard of Earthsea não chega a ter 200 páginas, sendo um pobre coitado perto da verborraria irrefletida da Literatura Fantástica atual, como comentado anteriorment aqui. O último livro de Harry Potter é um tormento de pouco mais de 700 páginas. Os “tomos” das Crônicas de Gelo e Fogo literalmente pesam quilos e mais quilos. The Wise Man’s Fear tem 1000 páginas… Se tamanho é documento, então quem não recorre à prolixidade é um grande imbecil. Acho que não.

Muitos dos críticos atuais também consideram A Wizard of Earthsea “simples demais” por lerem este livro após o turbilhão que foi Harry Potter, uma saga extremamente divertida, porém clonada de Le Guin e outros autores. Como falou Le Guin ao The Guardian em 2006 sobre J.K. Rowling, ela não se sente ofendida pelo “plágio” em si, porém diz que Rowling “poderia ter sido mais grata sobre seus predecessores. Minha incredulidade se deu pelas críticas que consideraram o primeiro livro [Harry Potter e a Pedra Filosofal] maravilhosamente original. [Rowling] tem muitas virtudes, mas originalidade não é uma delas.” Para os que lêem em inglês, vale a pena dar uma conferida no artigo do Guardian, retraçando as origens do pequeno bruxinho.

Apesar das críticas (críticas?), A Wizard of Earth é um livrinho muito interessante, curto e com um estilo de narrativa atemporal: o leitor não consegue em nenhum momento dizer que a história foi escrita ao final da década de 1960. Fora isso, carrega a poderosa mensagem do poder da Linguagem e da nomeação, ponto que criou direta e indiretamente um forte legado com Neil Gaiman, China Miéville e Patrick Rothfuss, hoje três dos maiores expoentes do gênero. Apesar do cliché, Ursula Le Guin fez história e certamente é leitura obrigatória para os fãs de Ficção Científica e Fantasia.

Victor Hugo

Leia mais:

10 Reasons Why Le Guin’s Earthsea Books Can Still Change Your Life

The Magician

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

1 comentário »

  1. Republicou isso em Cabaré das Ideiase comentado:
    Um excelente post sobre uma das autoras mais fundamentais na literatura de fantasia e também ficção científica: Ursula L. Le Guin. O interessante do post é justamente a clareza (e forte opinião do Trekker Victor Hugo) sobre o status das publicações de Fantasia (em especial porque mais em destaque, hoje em dia, no mercado editorial). Ainda que discorde em um ponto ou outro, muito boa análise!😉

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