Star Trek (1967)

Influências Históricas nos Estilos

Muito antes dos primeiros voos espaciais de verdade, a imaginação humana já antevia este tipo de viagem. Já nos acostumamos a ver reluzentes veículos cruzando o espaço da telinha e da telona. Fica absurdo imaginar histórias de astronautas e alienígenas sem naves espaciais. O Cinema e a TV retrataram espaçonaves com gosto e criatividade variáveis ao longo do tempo. Autores, desenhistas, ilustradores, quadrinistas e maquetistas se inspiraram em veículos reais. Navios e aviões de verdade influenciaram a forma e a “funcionalidade” de naves imaginárias. Algumas formas dominantes de certa época acabaram por ditar o desenho das naves fictícias por muitos anos depois. O exemplo claro disto foram os discos voadores e os primeiros foguetes. As espaçonaves soviéticas e norte-americanas históricas também contribuíram para a estética ficcional. Desta forma nossos veículos espaciais fictícios reproduziram tubeiras, antenas, domos, formas e cores. O uso e abuso destas tendências se identificam em todas as histórias espaciais.

Esse especial em dois artigos não tem a pretensão de ser uma listagem cronológica ou enciclopédica das naves da ficção científica. São tantas que a tarefa seria sempre incompleta. Por isso peço desculpas desde já se não menciono aquela sua nave preferida. É meu objetivo ir pontuando naves de formas mais notáveis que representam tendências e marcaram séries importantes do gênero Space Opera.

De la terre à la lune (1865)

Projéteis e Foguetes: charutos e cilindros

Um projétil lançado por um canhão foi, provavelmente, a primeira nave espacial da ficção científica. O personagem Barbicane no romance de Júlio Verne De la terre à la lune (1865) projetou uma grande bala oca para levar três tripulantes à Lua. Aquele cilindro pontudo não tinha nem nome. A obra de Verne inspirou uma das primeiras representações cinematográficas de uma espaçonave por George Méliès em Le voyage dans la lune (1902).

O desenvolvimento tecnológico do século IX tornou claro que os foguetes (veículos autopropulsados) seriam o primeiro passo do voo espacial. Nas primeiras décadas do século XX surgiram vários romances espaciais e séries memoráveis. O estilo romântico, e às vezes exageradamente melodramático, dominava as aventuras de diversos heróis singrando o espaço imaginário. Um dos primeiros foi Buck Rogers, criado por Francis Nowlan em 1928 e se tornou série de tevê nas décadas de 50 e 80.

Tintin - Explorers on the Moon (1954)

Em 1934 surge o fenômeno Flash Gordon, criado por Alex Raymond para os quadrinhos. Dois anos depois a série chega ao cinema. Flash viajava através do espaço num foguete com linhas quase automobilísticas identificada apenas por foguete do Dr. Zarkov. O tal doutor era o personagem sábio que ajudava o herói todo músculos. Nas séries de TV que vieram depois Flash ganha uma nave chamada Sky Flash (1954). Em 1941 surgiu o termo Space Opera para denominar este gênero de histórias. O termo é uma referência as Soap Operas, literalmente “óperas de sabão”, as novelas visando as donas de casa e patrocinadas geralmente por marcas de sabão em pó. O público alvo inicial das Space Operas era infanto-juvenil.

O primeiro foguete não fictício eficiente foi o V2 alemão. Não era uma espaçonave e sim o percursor dos mísseis balísticos de longo alcance. Ao final da Segunda Guerra Mundial as grandes potências se aplicaram em produzir foguetes baseados na tecnologia dos foguetes alemães. Foi o inicio da corrida espacial. Por muitos anos a forma de charuto do V2 foi o sinônimo de foguete para a ficção científica. Veem-se claramente isso em longa metragens como o Destination Moon (1950) baseado em novela de Robert A. Heinlein. A forma da V2 também aparece no comic book sobre as aventuras de Tintin intitulado Explorers on the Moon (1954) de Hergé. A Sky Flash, nave de Flash Gordon, também era uma versão estilizada do foguete alemão. Os foguetes norte-americanos cilíndricos (Vanguard e Redstone) e cônicos soviéticos (R7) só influenciaram o design dos Space Opera alguns anos depois. A ficção científica não previu os foguetes e naves de múltiplos estágios usados na exploração real da Lua.

The Day the Earth Stood Still (1951)

Os Discos Voadores

No período da guerra fria surgiu uma verdadeira febre ufológica. O termo “flying saucer” ou “disco voador” foi cunhado em 1947 a partir do relato de avistamento feito pelo piloto norte-americano Kenneth Arnold próximo ao Monte Rainer. O termo mais técnico UFO (Unidentified Flying Object) foi criado pela Força Aérea daquele país. Entretanto, foi o termo popular que fixou no imaginário popular a ideia de naves circulares. Mais uma vez a arte de produzir naves imaginárias seguiu a onda.

Hollywood se encheu de discos voadores. O famoso disco voador do alienígena Klaatu em The Day the Earth Stood Still (1951) era a representação típica dos visitantes extraterrestres. Mas as naves humanas para explorar o espaço também foram concebidas com forma de disco. Um exemplo disso aparece em Forbidden Planet (1956). Era uma das primeiras naves com um nome próprio: United Planets Cruiser C57-D. Este nome pomposo é um dos hábitos da ficção: siglas cheias de letrinhas para simular o jargão da ciência.

Outro disco voador famosíssimo retratado na TV foi o Júpiter 2 de Lost in Space (1965). A forma discoide nunca deixou as telas, só evoluiu de círculos para elipses. Formas mais ou menos amendoadas aparecem influenciando obras tão atuais como Star Wars e Star Trek.

Lost in Space (1965)

Formas originais, inovadoras e nada convencionais

Nos primórdios da ficção científica o grande gênio de H.G. Wells nos brindou com a Esfera de Cavor no seu romance The First Men in the Moon (1901). As inovações wellianas da forma esférica e do uso da antigravidade me fazem sugerir o título de bisavó da Estrela da Morte para a Esfera de Cavor. A história foi retratada no Cinema em 1919 e 1964 e na TV em 2010. Cavor era o nome do cientista, a esfera também não tinha nome.

Vale notar alguns pontos fora da curva: naves que não parecem nada com naves. Um dos melhores exemplos da categoria é a TARDIS da série de TV Doctor Who (1963). Uma antiga cabine de polícia inglesa pintada de azul que é muito maior por dentro que por fora. Seria interessante incluir nesta categoria também a nave Coração Dourado do Douglas Adams em The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy (1978) não pela forma (que a gente só conheceu no recente filme de 2005), mas pela curiosa propulsão movida a improbabilidade infinita. O humor inglês dá o tom destas duas curiosidades da navegação espacial de ficção científica.

Doctor Who (1963)

Seguindo um padrão extrapolado das naves da NASA (cores brancas, jatos em cruz nas laterais e tubos de Venturi expostos) vieram as naves do clássico 2001: A Space Odyssey (1968). A principal nave do longa-metragem, a Discovery One, é extremamente inovadora na sua forma que lembra um espermatozoide interplanetário: uma grande cabine esférica na proa, o corpo principal em forma de um longo “cordão” segmentado, uma antena parabólica a meia-nau e os motores na popa.

Dotada de um forma mais convencional, 2001 nos brindou com a Órion III, uma espécie de space-shuttle futurista da companhia aérea Pan Am (empresa comercial real extinta em 1991). O veículo aparece na viagem entre a Terra e uma enorme estação espacial em forma de roda.

2001: A Space Odyssey (1968)

A animação japonesa nos brinda em 1974 com o encouraçado espacial Yamato que dá nome a uma série inteira: Space Battleship Yamato. Uma das primeiras naves de séries de TV a fazer isso. Isto faz dela quase um personagem principal na trama extremamente curiosa que levou um navio da Segunda Guerra Mundial para o espaço. Na história os humanos estão proibidos de fazer uma nave de combate espacial daquela magnitude. Aí se resolve o problema trabalhando secretamente no casco envelhecido do Yamato original que acaba por tornar-se a primeira nave estelar da Terra.

E assim a espaçonave-navio sai pelo espaço “metendo o pau” nos inimigos com seus inúmeros canhões, naves caça e a poderosíssima arma de ondas. A tal arma de ondas só é usada no final do confronto depois de levar muita surra, coisa de seriado japonês tipo Ultraman. Talvez para não criar problemas com o público norte-americano com o nome de uma belonave japonesa a série recebeu novo nome: StarBlazer (Patrulha Estelar, no Brasil). A Yamato passou a se chamar Argo. Este é o exemplo mais exagerado do que eu vou chamar de “navalização” das espaçonaves. Continua…

Space Battleship Yamato (1974)

Por Naelton Mendes de Araujo, diretamente para o Ao Sugo

Leia agora mesmo a parte II do Especial Espaçonaves no Cinema e na TV, agora com a famosa USS Enterprise, a Millennium Falcon, Battlestar Galactica, entre outras!

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