Alien

Senhoras e senhores, dos padawans aos Caçadores de Recompensa, a Cozinha do Ao Sugo volta para mais uma sessão especialíssima do Cineclube Sci Fi CJRJ, desta vez fazendo uma breve análise sobre o filme Alien, de 1979. Nada mais justo a exibição deste filme numa sessão do Conselho Jedi Rio de Janeiro, pois pouquíssimas pessoas sabem que a produção que vocês estão prestes a assistir só foi possível graças ao lançamento de outro filme de muito sucesso lançado dois anos antes… Star Wars!

Das grandes resoluções às quais atenta-se a vã mortalidade, muitas revolvem-se nas tentativas de romper justamente essa barreira inerente a toda a raça humana. Se existe alguma outra sensação que supera a vontade de se tornar imortal é a sua vontade de simplesmente sobreviver. É esse gutural cálice do homo sapiens que norteia – entre outros ideais, Alien, o Oitavo Passageiro, de Ridley Scott.

Notável por sua capacidade de transpor seus limites estereotípicos, Alien não só é um filme que “envelheceu bem”, já que até hoje sua trama, ritmo e efeitos visuais são de primeira linha, como, também, porque justamente tais predicados têm inegável influência estética em toda a linha de filmes de Ficção Científica que vieram depois.

Alien

Mas Ficção Científica por Ficção Científica há, aí, às toneladas – e boa parte, admitamos, está longe de terem o esmero que Alien possui. Contudo, a obra de Ridley Scott envereda pelo desafio de conjugar terror e suspense ao enredo no espaço. Algo que, à época, não era tão comum assim.

Vamos ao enredo? A trama se inicia – na verdade, é praticamente toda – a bordo da Nostromo, uma espaçonave cuja tripulação é de cientistas e pesquisadores que singram o espaço para encontrar recursos e outras coisas menos importantes. Os sete tripulantes, cada qual com sua área de expertise, são despertos da hibernação por um sinal oriundo de outro planeta. O sinal, interpretado como de socorro, é imediatamente rastreado. A nave, então, parte para o planeta para averiguar o que está acontecendo.

A tripulação vê-se em um planeta devastado, com tecnologia alienígena. Um dos membros da equipe é atacado por um organismo bizarríssimo que “gruda” em seu rosto, e os cientistas rapidamente voltam à Nostromo para socorrê-lo, ao mesmo tempo em que partem do planeta. Depois que a criatura se desgruda do rosto, ela incuba o tripulante com o parasita que se tornará o grande antagonista da heroína Ripley, vivida por Sigourney Weaver.

Alien

Certo, certo. Mas e então, o que tem de tão interessante no filme assim? Vindo dos ramos da direção de arte, Ridley Scott sempre foi um diretor preocupado com a estética visual de seu trabalho. Alien é apenas um exemplo entre muitos outros do diretor que mostram uma estética marcante.

Em vez da típica Ficção Científica utópica, de ambientes limpos e claros, Ridley Scott dá um tapa na cara com um ambiente cinzento, sem cores e extremamente claustrofóbico. O próprio ambiente torna-se um personagem tão apreensivo quanto o próprio “monstro”. Oras, temos na Nostromo uma nave escura e labiríntica em oposição à bela e espaçosa USS Enterprise! Aliás, fica aqui também a atestação de elegância na sacada sempre inteligente de não mostrar o bicho inteiro, recurso que já tinha sido utilizado com muita sagacidade (ou falta de grana) no clássico da Ficção Científica Veio do Espaço, de 1953.

Com inspiração direta ou indireta nos contos escabrosos de H.P. Lovecraft, em especial Nas Montanhas da Loucura, a obra de Ridley Scott envereda pelo desafio de conjugar terror e suspense ao enredo no espaço, audaciosamente indo aonde nenhuma nave da Weyland-Yutani já foi antes.

Alien

Como em quase todas as histórias de Terror de Lovecraft, vemos em Alien a (re)introdução da noção de horror abissal: Ridley Scott usa e abusa dos recursos estilísticos explorados por Lovecraft, como assimetria e imagens que fogem totalmente da lógica ocidental. Não é à toa que Scott contratou o artista plástico H.R. Giger, famoso por suas pinturas e esculturas surreais que ditariam a arte do filme, sempre difusa, sombria, orgânica… medonha. Se Giger mantém contato astral com Lovecraft, está aí uma bela questão a ser colocada em pauta.

A partir desta premissa lovecraftiana, em Alien a exploração espacial se torna algo realmente desafiador, testando a cada momento as noções de mundo do leitor e telespectador ao ser confrontado com criaturas e universos que fogem do senso comum. Emprestando algumas palavras do nosso caro Todorov, a “mágica” deste tipo de recurso ou estratégica de narrativa é de mesclar as experiências do(s) protagonista(s) com as do leitor/telespectador, criando a genuína sensação do confronto com o fantástico… e Alien, meus caros, bem, nem precisamos debater algo que já é patente, certo?

O grande mérito dessa estratégia cinematográfica é que, além de não sabermos exatamente o que ou como esse bicho-nave-planeta-meu-deus-minha-nossa-senhora é, coloca-se em cheque seu modus operandi. Isso fomenta o temor e o suspense envoltos em suas aparições. A tática do diretor envolveu até mesmo em deixar alguns atores sem saber, na totalidade, como a cena se desenvolveria, auxiliando a atuação grandes atores como Ian Holm e John Hurt. Para tanto, Scott se aproveitou do pavor real dos atores em parte de suas atuações, criando um efeito impressionante na película que a deixou memorável.

Alien

Existem controvérsias sobre as referências exatas na elaboração do roteiro de Alien, contudo, não podemos deixar de apontar a importância do clássico do horror espacial A Ameaça do Outro Mundo (1958) como eixo norteador da narrativa, a primeira expedição ao planeta Marte que resulta em uma série de mortes escabrosas graças a uma forma de vida alienígena (imaginem se isso quase não deu problemas de direitos autorais no país das patentes)… Várias menções e homenagens são feitas durante o filme, como a Inteligência Artificial a bordo da Nostromo (a Mãe, ou Mother no original) que é ligado direta ou indiretamente ao HAL de 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968). Já “Nostromo” é uma homenagem ao livro de mesmo nome de Joseph Conrad de 1904, discutindo a chegada e presença dos ingleses em uma república fictícia na América do Sul.

É incrivelmente difícil continuar este pequeno review sem revelar spoilers, dada a importância de Alien não só em ser um “agregador” de infinitas referências do mundo da Ficção Científica, como também em ser ele próprio um embrião de um formato de muito sucesso em Hollywood. Alien é o primeiro de uma série de filmes de sucesso na Ficção Científica dos anos 80 e 90 que traz a presença de uma criatura super-humana (alienígena e/ou artificial) realizando uma caça frenética aos “mocinhos” do filme. O estilo deste tipo de enredo, emprestado diretamente de O Massacre da Serra Elétrica (1974), entraria de vez para a Ficção Científica com Alien, mas estaria presente ainda em outros filmes de sucesso como o próprio Exterminador do Futuro, comentado na sessão anterior do Cineclube Sci Fi.

As ligações de Alien com Blade Runner são profundas, desde o prosseguimento com a direção de arte soturna em contraposição à brilhantina de Star Trek até mesmo à discussão sobre o Homem versus Máquina. O personagem de Ian Holm é um belo ensaio do que veríamos depois em 1982, mas isso é outra história

Alien

A trilha sonora de Jerry Goldsmith, um dos pais de vários temas que temos nos nossos corações, já tem um histórico de percalços. Graças a uma série de problemas de edição e divergências artísticas entre o diretor e o compositor, uma sucessão de atrasos impediram o lançamento de uma trilha sonora coesa (oras, isso cheira a Blade Runner…). Só em 2007 que ganhamos um álbum definitivo, considerado por Goldsmith como uma de suas obras mais difíceis e complexas. Segundo o compositor, faltava a Scott a capacidade de encarar a trilha sonora como algo orgânico e coeso à narrativa do filme, crítica que Scott já vem recebendo há um tempo no meio. Todavia, é inegável a marca de Goldsmith no filme, como no tema da Nostromo, quando utiliza arranjos exóticos para compor a atmosfera sombria da espaçonave. A verdade é que não se discute com quem manja do assunto.

Alien ampliou-se em um universo que destinou-se a questionar temas recorrentes da Ficção Científica, como a maternidade, e caminhou com seus passos aterradores até o recente Prometheus com a ideia de onde diabos viemos. De um jeito ou de outro, Alien está aí para lembrar-nos de essencialmente duas coisas: a que ponto chega a nossa vontade de simplesmente estar vivo ao quanto são ridículas todas as nossas soberbas.

Marcus Vinícius Pilleggi e Victor Hugo Kebbe

1 comentário »

  1. Sem sombra de dúvidas, esse é um dos filmes que mais amo! Já vi “trocentas” vezes e não canso. Tenho o box (quadrilogia) e, volta e meia, assisto a todos. Mas, o 8º passageiro é inigualável. É épico e sempre atual! Seu artigo faz jus a essa obra tão fantástica! Parabéns!

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