architecture

Olá pessoal leitor do Ao Sugo, hoje estamos com uma grande novidade. Temos hoje um texto sobre Arquitetura especialmente criado para o blog que vos fala pelo arquiteto, amigo e companheiro de lanches e batatas fritas Sr. Aron Guelfi Palo. Por favor divirta-se e quando terminar, claro, vamos às batatas fritas!

Victor Hugo

Quando recebi o convite para escrever um texto sobre Arquitetura para o Ao Sugo fiquei bastante lisonjeado e ao mesmo tempo apreensivo. Primeiramente por conta da responsabilidade em escrever a um público leitor seleto, e em segundo momento, porque falar sobre Arquitetura costuma dar muito pano para a manga. Assim, ao invés de ser muito categórico, resolvi compartilhar com vocês uma situação do meu cotidiano profissional, aliás, uma bem particular, a qual me fez refletir sobre alguns conceitos.

Há poucos dias conversava com um colega de profissão, engenheiro eletricista [1] e indignado, que expunha a seguinte questão: “por que eu não posso fazer a minha casa no estilo grego? Não que eu queira uma casa no estilo grego, mas por que para arquiteto tudo deve ser moderno, reto, com uma porção de ângulos? Enquanto a palavra “pastiche” começava a surgir em minha mente à luz vermelha de um neon, ecoada ao som estridente de alerta, este meu colega emendou: “quando eu vou fazer um projeto de elétrica não tem destas frescuras, eu coloco no papel mostro para o cliente e ele não tem que discutir se quer ou não quer daquele jeito. É norma, é lei, não tem destas, agora… …arquiteto sempre tem uma frescura”. De certo modo ele tem razão, projetos de elétrica, projetos estruturais de edificações, projetos de hidráulica, entre outros do mesmo tipo, exigem do projetista um conhecimento técnico específico que não poderá ser encontrado nas páginas das revistas mais lidas em todo o país. Nenhum deles ganhará a capa pelo projeto de cálculo mais preciso do mês. E esta especificidade torna o conhecimento restrito às suas classes, o que pode ser visto como vantagem já que o cliente não terá qualquer informação mais profunda para questioná-lo quanto a eficiência dos Watts, dos Newtons, dos Pascais calculados para um projeto.

Além disso, algumas recomendações básicas orientam a conduta de realização de um projeto e quando estas recomendações caracterizam-se como indispensáveis, intransponíveis e essenciais, atribui-lhes o caráter de normas e passam a vigorar em legislações municipais, estaduais e até mesmo federais. A partir daí é simples: ou segue-se a regra ou o edifício caí, queima por conta de um curto-circuito, rompe em suas tubulações. A lei pode ser um obstáculo para aqueles que não seguem coerentemente a conduta que lhes é exigida, no entanto, torna-se um respaldo necessário para qualificar um projeto como bem sucedido, afinal de contas, quando se diz: “é norma, é lei” não há cliente que conteste um projeto.

Porém, a questão da Arquitetura é um pouco mais complexa, ela não está sujeita a normas ou leis que a qualifique como a Arquitetura bem sucedida, mas está ancorada na discussão de conceitos. Concordo que seria extremamente interessante a existência de um Tribunal Superior de Justiça da Arquitetura: “nesta comarca de Construbiboca do Puxadinho, o júri considera culpado o réu José Antônio Carlos da Silva pelo crime cometido, mau-gosto”.

De fato não se trata de criar uma lei que oriente o exercício da Arquitetura e tão pouco de buscar incriminar clientes por suas concepções e gostos. Para que haja a prática de uma boa Arquitetura é preciso voltar-se para cidade, o produto da nossa cultura e, procurar dentro de sua lógica de funcionamento, compreender o que poderia ser considerado uma “boa Arquitetura”. Dentre tantas possibilidades, acredito na sua capacidade de comunicar através de um elemento físico e tátil, formas de pensamentos, e aqui não me refiro ao caráter psíquico, ao raciocínio, mas ao caráter social, cultural e histórico [2]. Para clarear esta idéia, tomemos uma particularidade da Arquitetura grega, a coluna. Ela expressava uma visão antropocêntrica de mundo embasada na busca da proporção e harmonia. Pensando de um modo mais romântico, quando olhamos para uma coluna distintamente grega estamos nos deparando com a racionalização do corpo humano e podemos considerar que as dimensões e o desenho da coluna jônica, por exemplo, simbolizam a proporção e a harmonia do corpo feminino, enquanto que as dimensões e o desenho da coluna dórica simbolizam a proporção e a harmonia do corpo masculino.

Cientes de que as colunas em questão comunicam a forma de pensamento do Homem Grego, incorporá-las à construção de uma casa residencial unifamiliar em um condomínio fechado de um bairro nobre, começa adquirir um tom de incoerência, caracteriza aquele tal do pastiche citado anteriormente: descontextualização histórica; ou seja, o elemento coluna/grega vem desprovido de seu conteúdo, harmonia e proporção, quando inserido em nossos dias, pois vivemos em outro contexto, outra realidade e com uma visão de mundo extremamente diferente daquela construída pelo Homem Grego, nosso bode expiatório.

Assim, o que chamamos de “frescura de arquiteto” pode também ser encarado como um zelo, um cuidado ou uma postura crítica a esta lógica de pensamento contemporânea descompromissada com o conteúdo e com o contexto, despreocupada com o significado e que se atém a responder aos estímulos e seguir tendências.

por Aron Guelfi Palo, arquiteto e camarada

[1] Engenheiro Eletricista é o profissional do ramo da engenharia que lida com o estudo e a aplicação da energia elétrica e do eletromagnetismo. É qualificado para trabalhar na área de implementação, manutenção e projetos de sistemas elétricos em baixa, média e alta tensão, sistemas de automação industrial, sistemas de eletrônica de potência e sistemas de comandos elétricos.

[2] Para os simpatizantes desta idéia, “A cidade Polifônica” de Massimo Canevacci.

* Imagem: Faculty of Architecture and Fine Art, Norwegian University

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

7 comentários »

  1. ow!!!! depois da correira de fim de ana, e tanto tempo longe do ao sugo, foi muiot bom retornar ao blog com esse texto. Como arquiteta, não tenho anda a acrescentar. adorei o texto Arones, e Vitão e Marcus, muito legal convidarem o Aron pra isso, o text tá muiot bom!!!!
    parabéns

  2. Adorei o texto!!! Nós, arquitetos, trabalhamos com conceitos que alguns chamam de frescura, e com alguns clientes com reais frescuras na hora de contratar o serviço do arquiteto. O arquiteto estudou para se formar, e não podemos partir do princípio que ele faz o projeto desse jeito ou daquele porque fica “mais bonito”. Há muitas coisas a levar em consideração ao fazer um projeto, e não podemos falar que é “frescura”.
    Ainda tenho uma coisa a acrescentar. É claro que na arquitetura há muito mais a discussão de conceitos do que de normas, mas também há muitas normas (de acessibilidade, de iluminação, ventilação, acústica, etc, etc) a serem consideradas. E muitas vezes não basta falar: “é norma, é lei” para um cliente quando se trata de arquitetura. Já vi casos de clientes que queriam de certa forma contornar a norma, porque não entendiam que num edifício público de mais de um pavimento, pelas normas, há a necessidade de um sanitário masculino e um feminino por pavimento.
    Mais uma vez, parabéns pelo texto!!

  3. Interessante post! Gostei muito, mesmo!
    Coordeno um grupo de discussão em Psicologia, e neste mês vamos discutir a relação entre a Psicologia e a Casa. A idéia do tema veio, exatamente, do sentimento de que há um descompasso entre as formas como temos habitado as nossas casas e o significado do espaço doméstico no nosso imaginário individual e coletivo. No Blog do grupo estamos disponibilizando vários textos que discutem essas questões. O nosso endereço é: http://www.grupopapeando.wordpress.com

  4. Aron, de uma forma muito clara e explicita, creio que você sintetizou o que eu sempre quis falar às pessoas, com um exemplo muito feliz!

    Parabens!
    =)

  5. Aron… vc sabe que engenheiros e arquitetos tem uma relação no minimo complicada…. há quem diga que arquitetura é perfumaria… mas eu discordo… tb pq sei o qnto vc rela e dou mto valor a sua profissão… MAS… é claro q isso nao livra vc de levar umas lancheiradas…. hahahahaah

    Parabens pelo artigo!!! e cuidado!

    []s

  6. Divertido pensar sobre leis do mau gosto… Acho que os arquitetos poderiam romper mais com tendencias “modernas” e pensar a cidade a partir de outras lógicas… seria divertido…

Deixe um comentário elegante

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s