Retorno de Jedi

O dia 25 de maio de 1983 foi um dia especial em vários sentidos. Em primeiro lugar porque era o segundo dia de vida deste que vos escreve, um rapazinho já bonitão e sagaz naquela época. Mas, para aqueles cujo amor reside na franquia de George Lucas, 25 de maio de 1983 foi um Dia da Toalha para lá de especial.

A data, para sempre distinta no coração dos nerds (dos de verdade, não dos modistas) era também marcada pela estreia do último capítulo da história de Luke Skywalker. Sim, jovem, foi nesse dia em que debutou o elegante Star Wars: O Retorno de Jedi (Star Wars: The Return of the Jedi). Continuação direta dos anteriores, Retorno se passava aproximadamente um ano depois dos acontecimentos de O Império Contra-ataca.

Ou seja: temos o Han Solo capturado, o Luke ainda se desenvolvendo no treinamento com a Força e a Aliança Rebelde ainda se organizando para lançar o ataque definitivo ao Império. De cara, a película começa com a busca pela libertação do nosso cafajeste favorito, que foi entregue por Boba Fett a Jabba e servia como troféu para o criminoso. E uma das minhas coisas favoritas neste filme sempre foi ver Luke não só mais evoluído em seus talentos como Jedi como, também, a forma com que ele usa a Força (ele enforca os gamorreanos de Jabba e, nem por isso, é um cara malvadão). Ah é, e tem o sabre verde, muito mais elegante.

O sabre verde, aliás, foi utilizado por um motivo bem simples: no fundo do deserto de Tatooine, o sabre azul praticamente desaparecia. Um acidente de iluminação que nos deu a cor mais jeitosa para um sabre-de-luz.

lukesabreverde

Mas, enfim. Retorno estreou nos cinemas em 1983 e, como já era de se esperar, foi um grande sucesso. Ao redor do globo, o filme fez por volta de 475 milhões de dólares, o que é uma bela de uma fortuna. Oras, atualmente filmes considerados bem-sucedidos fazem isso. Imaginem há 30 anos…

O Retorno de Jedi foi escrito pelo próprio George Lucas e Lawrence Kasdan, um de seus maiores colabores em scripts e argumentos. Aliás, conta-se pela boca pequena que quem colaborou também (embora não tenha recebido crédito) foi David Peoples. “De onde eu conheço esse nome?”, você, se for um leitor elegante como esperamos, deve estar se perguntando. David Peoples, pequeno gafanhoto, é ninguém menos que um dos caras que refez o roteiro do seu, do meu, do nosso Blade Runner. Ah!, garoto!

A direção ficou por conta de Richard Marquand, embora ele fosse a terceira opção de direção. Quer saber quem quase ficou com o projeto? David Lynch, que estava bem na fita depois de ter sido indicado ao Oscar em 1980 por Homem Elefante (um filme com John Hurt, sinistríssimo). Só que, adivinhem, ele não quis. O que ele fez no lugar? Duna. Sim. Aquele Duna. O de 1984. É. Esse, mesmo. Depois dele, ofereceram o trampo para o David Cronenberg, mas ele não quis porque ia fazer The Dead Zone e Videodrome. Pois é. Belos projetos (só que não).

galera

A alta cúpula de Retorno de Jedi se reunia com frequência para discutir o rumo do filme. Um problemão que tiveram foi Harrison Ford, porque ele não tinha contrato para fazer duas sequências e, para complicar, com o recente sucesso que o primeiro Indiana Jones tinha feito, o cara estava a toda. O próprio Harrison Ford sugeriu que Han Solo morresse no filme, sacrificando-se para salvar seus amigos. Embora Kasdan até tivesse gostado da ideia (sugerindo que acontecesse logo no começo do filme para dar tensão de “quem mais vai morrer?”), o próprio Lucas refutou. É claro, o homem queria vender bonecos.

Outras coisas do script original mudaram: Yoda não deveria aparecer, mas a questão de Vader sendo pai de Luke deveria ser confirmada por uma terceira parte. Os ewoks iriam ser wookies e Obi-Wan Kenobi ia ressuscitar. Sem Han Solo, Luke se tornaria um herói solitário, muito ao estilo dos faroestes de influência italiana. O titio Georjão, contudo, resolveu ter um final mais feliz para que o merchandising (oh, sim, isso parece ser uma delícia) fosse ainda mais bem-sucedido. Até o nome do filme, que inicialmente seria A Vingança do Jedi, acabou mudando. Até aí, tudo bem. Faz tudo parte do processo criativo e colaborativo. Raramente um filme, por exemplo, começa de um jeito e vai até o final de modo inalterado.

Chega. Eu não vou ficar esmiuçando enredo. Todo mundo aí é bem grandinho e deve assistir por conta própria.

jabba

Então, o que tem em O Retorno de Jedi que conquistou tanta gente assim? É simples, assim como muitas outras fórmulas de sucesso. Star Wars fala sobre nossos próprios anseios, e qual melhor sublimação de desejos que o dever cumprido, a vitória e a volta para casa? Em O Retorno de Jedi, vemos a completude de Luke Skywalker como herói, como Jedi, como ser humano, e isso afeta-nos diretamente. Com ele, derrotamos o mal – não importa em qual forma – e agora estamos prontos a continuar com nossas vidas.

Embora a discussão de qual é o melhor filme seja sempre algo recorrente, com a disputa mais acirrada entre O Império Contra-ataca e O Retorno de Jedi, talvez valha a pena considerar quem são esses filmes. Eu, particularmente, prefiro Império, mas não consigo negar o impacto que Retorno possui, principalmente o começo, com a maturidade dos personagens. No entanto, embora Star Wars, o original (Uma Nova Esperança, já há alguns bons anos) seja ali independente, Império e Retorno são melhores vistos como uma coisa só. Faça uma experiência: coloque Império da metade para frente e assista até o final, depois coloque Retorno e veja até a metade. Parecem fazer parte de uma mesma coisa. E fazem, oras.

Retorno de quem?

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Capcioso, o título do filme é difícil de pegar em sua plenitude. Afinal, quem é o Jedi de que fala? Luke? Vader? Os Jedi como uma “classe”, digamos assim, retornando após o fim do Império? Luke retoma seu treinamento e ascende a uma posição mais madura como Jedi. Derrotando o imperador ao lado de seu pai, ele traz de volta a República e, assim sendo, há o caminho para o Retorno doS Jedi. Vader, um sith lord, recobra seu senso de justiça e, por amor ao filho, volta para o lado da Luz e torna-se, novamente, um Jedi.

Quer dizer, no fundo, no fundo, todas as respostas estão corretas. Só que é mais do que isso. O Retorno do título é não só a restauração da Ordem Jedi, o ressurgimento de Luke como um Jedi completo ou mesmo a bondade reencontrada de Vader. Como súmula da Jornada do Herói, evidentemente Star Wars possui o tema do retorno em todo o seu enredo. A necessidade da batalha para o retorno para casa, a aventura finalizada. O Retorno de Jedi é, também, um delicado lembrete para nós, espectadores, que logo deveremos sair – ao menos por um tempo – desse universo cativante para retornar às nossas vidas, moradas, profissões.

E, ao mesmo tempo, é um convite para que retornemos a essa história memorável que sempre conquistará os mais diversos públicos, num eterno movimento cíclico de partida e retorno. É nosso porto seguro e nosso escapismo. Um retrato da necessidade de imaginar e de aventurar-se aliado à volta para casa, à volta para aventura, eternamente solene e curiosamente imprescindível.

Marcus Vinicius Pilleggi, do compartimento de contrabando da Millenium Falcon

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