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Publicado originalmente em “Revista Cliché, Agosto de 2012”

Universos, mundos, eras, mitos e lendas. Imagens. O homem sempre contou histórias. Por pinturas, canções, contos, das mais variadas maneiras e estilos diferentes. A arte de fantasiar vem desde sempre permitindo que o homem não só responda às suas mais variadas questões como, também, permite que se rompa os limites da razão e dê-se espaço ao imaginário.

A filosofia já se preocupa com isso já há mais de três mil anos, já que reflete e tenta entender o processo do intelecto. Como sugere a filosofia empiricista britânica, tenha-se a lei da gravidade, por exemplo: sua ideia não é raciocinar sobre seus efeitos, mas, sim, experimentá-los. De toda uma colagem de eventos e outras experiências que se resumem a uma simples e verdadeira imagem representativa e cognitiva: uma maçã caindo.

Contar histórias, portanto, exige que se apreenda o mundo; não necessariamente que se saiba explicá-lo – ou mesmo entendê-lo – mas saboreá-lo. Não é aí uma questão de saber como escrever ou como contar uma história, e sim reconhecer que todos têm essa capacidade de apreensão e significação do mundo.

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Os contos ou os mundos das histórias diversas, modificados ou não, remetem, ainda que de relance ou sombriamente, o universo em que o homem está inserido. No caso de uma representação fiel e realista, tem-se uma narrativa de Não-ficção. Não somente em termos literários, mas em qualquer forma de arte. A Ficção, todavia, norteia-se por uma narrativa que não só descreve o mundo como o casa com outras impressões com base neste mesmo mundo. Nela o homem dobra a realidade a seu prazer. É onde ele encontra o mito, e imprimem-se imagens em uma história que reverbera notas individuais sobre problemas reais.

Antigamente, fantasiava-se pelo encanto de fazer, de explicar. A Fantasia cria, como mágica, imagens diferentes e fusões dos mais variados matizes, sempre com a intenção de elevar o exercício intelectual a um patamar que muitas vezes não fora antes imaginado. Contudo, foi no final do século 19 que o homem conseguiu explicar a realidade de uma forma nunca antes vista: a Ciência. A crença e a fé foram suplantadas pela análise e o método; e o homem viu como possível entender não só o seu, como outros mundos.

A Ficção Científica utilizava a Ciência para tentar explicar o imaginário que, em não poucas vezes, a Fantasia povoava. De olho no futuro, era este modo particular de narrar que estimulava não só a imaginação, como também o racionalismo lógico da mente humana. Por suas obras, teorizava-se e lançavam-se homens à Lua mais de 80 anos antes de efetivamente fazê-lo. A ficção científica tornou-se um guia de conquista da humanidade. Diferentemente da Fantasia, a Ficção Científica é um gênero do devir, do vir a ser.

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Enquanto oráculo do futuro e bastião do desenvolvimento humano, a Ficção Científica narra sobre esse devir que é, em verdade, mais próximo da realidade do que se imagina. É como se fosse uma leitura do fato ao olhar o negativo de um filme fotográfico. Quando Gene Roddenberry apresenta, em Jornada nas Estrelas, um futuro cristalino, sem pobreza, sem preconceitos, sem fome e sem miséria, ele na verdade fala sobre nós, sobre os relacionamentos humanos e suas deformidades, seus problemas.

Ao contrário desse futuro cristalino em que o desenvolvimento científico e humano andam de mãos dadas, nas décadas de 60 e 70 os escritores de Ficção Científica se deram conta do crescente descompasso entre estas duas dimensões. Em troca de que o homem estaria “evoluindo” ou “progredindo” tanto, se com esta mesma Ciência destrói-se o planeta e se gera outros tantos problemas sociais? De fato, tais autores, muitos deles profetas do vir a ser, abandonavam a realidade dourada da Ficção Científica para dar conta dos problemas crescentes. A realidade era muito mais suja do que se pensava.

Desta Ficção Científica contestadora surgiu o Cyberpunk, uma reflexão distópicas da humanidade que buscava justamente compreender esse descompasso entre o desenvolvimento científico tecnológico e a utopia do “desenvolvimento humano”. A base deste “movimento” estaria fundamentada, portanto, não na utopia propiciada pelo avanço tecnológico, mas sim numa distopia, uma visão degenerada do futuro em que a humanidade estaria colhendo os frutos – e, por que não, dejetos – de todo este progresso científico e industrial que ela mesma criou.

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Em 1983, o termo “cyberpunk” seria criado por Bruce Bethke e popularizado por Gardner Dozois para identificar este novo ramo da Ficção Científica que encarava o futuro da humanidade de modo extremamente pessimista, com grandes cidades super povoadas, poluição de todos os tipos, doenças diferentes, drogas diferentes – mais poderosas e amplamente distribuídas – um mundo em que a ciência e tecnologia de ponta seriam capazes de fazer verdadeiros milagres, como a realidade virtual plena, a Inteligência Artificial, entre outros, ao mesmo tempo em que seria uma lâmina de dois gumes, já que produziria novos tipos de viciados, tecnautas presos ao ciberespaço e à imaterialidade do mundo virtual.

O novo tipo de pensamento impregnou as mais variadas formas de expressão artística, ultrapassando assim os limites da forma escrita. Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968), de Phillip K. Dick, abriu as portas para o “movimento” como uma leitura prototípica da nova ideologia, porém foi Neuromancer, de William Gibson (1984), que deu o tom deste grupo de escritores, retratado belamente por Bruce Sterling, na antologia Mirrorshades – The Cyberpunk Anthology (1986), um manifesto do que viria a ser um dos subgêneros mais importantes – e impactantes – da Ficção Científica. A ideia pegou e chegou na arquitetura do Sony Center de Berlim, na cibercultura de Paul Virilio ou Jean Baudrillard, na música de Sigue Sigue Sputnik, Atari, etc., tendo no filme Blade Runner (1982), de Ridley Scott, um reflexo de uma tendência que muitos adotariam como símbolo do Pós-Modernismo em várias escolas artísticas, sociológicas, etc.

Ao contrário do futuro, o Steampunk se ancora numa leitura retroativa da sociedade humana versus desenvolvimento científico/tecnológico. De certa forma um desdobramento do cyberpunk, os adeptos do Steampunk têm como aposta a tecnologia a vapor como promessa do futuro da humanidade, muitas vezes inspirados pela estética da Inglaterra Victoriana, resgatada como um período de com trens supervelozes movidos a vapor, máquinas e mecanismos mirabolantes com infinitas rodas dentadas (o que criou, inclusive, o gênero Clockpunk), computadores analógicos, dirigíveis modernos e outras geringonças mecânicas.

O outro mundo de sempre

Cunhado pelo escritor de Ficção Científica K. W. Jeter, o Steampunk brinca com o pastiche ou bricolage em um nível diferente: não se trata da mera colagem de elementos em contextos diferentes, mas distende lógicas inteiras em um espaço e tempo diferentes, transpondo muito do nosso próprio entendimento do mundo contemporâneo para um período em que isso não necessariamente existia. Como exemplos mais curiosos, temos os dirigíveis que permitem às pessoas do passado victoriano pensarem nos deslocamentos da mesma forma como o fazemos hoje com os aviões, assim como os computadores analógicos a vapor, que introduzem a nossa lógica de pensamento “informático” em uma época em que isso tudo não passava apenas de um sonho.

Seguindo estas correntes “retrofuturísticas”, ainda tem-se o Teslapunk (cujos princípios se norteiam pelo uso irrefreado da magia da recém-descoberta energia elétrica), o Dieselpunk ou Decopunk, como uma transposição pós-modernista de uma distopia para os anos 1940 e 50 (pensando aqui no contexto das duas Grandes Guerras, a chegada do avião, da literatura barata pulp, etc.) e por fim o Atompunk, cujo esforço de transposição pós-modernista tem como horizonte os avanços da Era Nuclear.

Todos pensamentos relêem a própria realidade, e é por isso que é importante entender que a Ficção Científica (a boa Ficção Científica) transfigura-se numa forma de Fantasia para discutir problemas que o homem enfrenta diariamente, mas que raramente tem tempo – ou vontade – de considerar. Por exemplo, Paul Virilio, autor apocalíptico em relação à indústria cultural, toca em seus ensaios que compõe seu livro A Bomba Informática nos aspectos da cibernética. Ele denomina a ciência atual como tecnociência, que seria a ciência sem seu significado romântico de descoberta. Na tecnociência, além do desenvolvimento informacional, tem-se um “avanço regressivo”, no sentido de agora explorar a interioridade do limitado mundo e do próprio ser humano. Virilio fala da decadência da astrofísica, dando lugar à imanência da biofísica, mapeamento genético e humanidade transgênica. Essa transgênese não deixa de ser, em certo modo, uma espécie de cibernética, já que a otimização dos genes humanos pode até ser considerada um pequeno passo na direção dos “homens-biônicos”, por não serem, em essência, “naturais”, mas sim modificados para serem melhores, mais fortes, inteligentes e rápidos.

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O medo apocalíptico é que a comparação entre o humano e a máquina atinja um nível preocupante; o fato de existirem em desenvolvimento máquinas que demonstram emoções é, em verdade, um tanto perturbador. Cientistas já conseguiram e conseguem desenvolver inteligências artificiais capazes de criar outras inteligências artificiais de forma totalmente autônoma, sem a intervenção humana. No pensamento apocalíptico, não tardaria tanto assim para chegarmos aos Replicantes de Blade Runner; e o pior, atingir um nível de tecnologia na criação destes Replicantes ao ponto de fornecer-lhes memórias (como o próprio Philip K. Dick discute e demonstra em sua obra) chegando ao extremo de as próprias máquinas não perceberem que são máquinas.

A Ficção Científica classifica-se, em termos, como uma espécie de humanismo, ainda mais se considerarmos um filósofo como Peter Sloterdijk, que caracteriza o humanismo como o estabelecimento da amizade por meio da escrita; os livros seriam como cartas longas, dirigidas a destinatários distantes ou não especificados; essas cartas (leia-se, os livros) geram uma sociabilidade humana literária, de amor à leitura e ao saber, desse modo humanizando o ser humano, em contrapartida à bestialização e brutalização trazidas pelos espetáculos de digladiação e morte. O humanismo vinha na tentativa de domesticar, amansar, desbrutalizar o homem. De forma semelhante, os desdobramentos da Ficção Científica vêm como um alerta, um semáforo em luz amarela que implica na redução da velocidade e reflexão.

O que isto tudo quer dizer é que estes pensamentos são, em si mesmos, maneiras de entender e discutir a própria realidade: seja ela envolta por vapores e rodas dentadas, neons e carros voadores ou implantes cibernéticos. Apesar de muitas vezes serem entendidas como sociedades alternativas, são nada menos que um espelho do real, a face grotesca de um rato sociológico que, antes de qualquer reflexão, está pronto a chafurdar no queijo de sua própria armadilha.

Por Victor Hugo Kebbe e Marcus Vinícius Pilleggi

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

1 comentário »

  1. Após uma leitura rápida (vou reler assim que sair do trabalho) posso dizer que é muito bom ver artigos bem escritos e com bases bem sólidas sobre assuntos que tanto gostamos.

    A todo momento, durante a leitura, me lembrava da obra do Julio Verne, pois atualmente, seria algo com o espírito Steampunk (ou teslapunk, ou sei lá), mas que na época da escrita era ficção visionária do mundo, engraçado a forma como obras desse tipo se transformam durante o período histórico.
    Também me lembrei do clássico “Admirável mundo novo” e 1984 que apresentando uma distopia ficcional ajuda a discutir muito questões que vivemos e que foram visualizadas nesses livros.

    Ficção tem um papel fundamental na discussão do novo mundo, de um outro mundo.

    Valeu pelo texto, você poderiam disponibilizar a bibliografia utilizada, além dos já citados?

    Abraços

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