Filhos do Éden

Sou um apoiador entusiasta da produção literária brasileira nos campos (diversos) da Ficção Científica e da Fantasia. Esse entusiasmo foi marcado ao final de 2012 e o início do ano de 2013 pela leitura de produções literárias nos dois campos supracitados (Ficção Científica e Fantasia) e, para meu gosto, por dois livros bons. Na Ficção Científica li “Favelost” de Fausto Fawcett, uma cyberorgia sci fi desvairada de qualidade nada duvidosa, mas inquietante e que resenhei para o Cabaré das Ideias, resenha que pode ser lida clicando aqui.  A obra de fantasia que li, agora no início de 2013, foi “Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida” de Eduardo Spohr, autor de  A Batalha do Apocalipse: da queda dos anjos ao crepúsculo do mundo, livro que também resenhei aqui para o Cabaré das Ideias, cuja resenha pode ser lida clicandoaqui. Como disse antes, sou um entusiasta da produção de autores nacionais, especialmente porque quanto mais publicações, maior a abertura para novos autores.

Eduardo Spohr não é mais um “marinheiro de primeira viagem” na produção de literatura de fantasia no país, agora com seu segundo livro, “Filhos do Éden”, ele supera a perigosa e mortal “primeira publicação”. E desde que foi publicada a “A Batalha do Apocalipse”, é possível observar um autor mais maduro e certo do que almeja em seu segundo livro, “Filhos do Éden”. Enquanto em “A Batalha do Apocalipse” podemos ler uma história produzida em cima da “paixão e vontade de  escrever”, com pouco cuidado na construção de cenários e uso da História e diversas culturas envolvidas nominalmente na trama, em “Filhos do Éden” temos uma história mais detidamente construída quanto à cenário e inserção sociocultural tão fundamentais pra consistência da trama, com um cuidado quase metódico em “não dispersar” a trama. Para os leitores e leitoras de “A Batalha do Apocalipse”, todos os elementos característicos do universo de fantasia de Spohr estão presentes: dramas angelicais, batalhas em torno do “destino da humanidade”, conflitos pessoais e de casta angelical, etc.

Eduardo Spohr

A sinopse de “Filhos do Éden”, de acordo com o site do autor, diz o seguinte:

“Há uma guerra no céu. O confronto civil entre o arcanjo Miguel e as tropas revolucionárias de seu irmão, Gabriel, devasta as sete camadas do paraíso. Com as legiões divididas, as fortalezas sitiadas, os generais estabeleceram um armistício na terra, uma trégua frágil e delicada, que pode desmoronar a qualquer instante.

Enquanto os querubins se enfrentam num embate de sangue e espadas, dois anjos são enviados ao mundo físico com a tarefa de resgatar Kaira, uma capitã dos exércitos rebeldes, desaparecida enquanto investigava uma suposta violação do tratado. A missão revelará as tramas de uma conspiração milenar, um plano que, se concluído, reverterá o equilíbrio de forças no céu e ameaçará toda a vida humana na terra.

Juntamente com Denyel, um ex-espião em busca de anistia, os celestiais partirão em uma jornada através de cidades, selvas e mares, enfrentarão demônios e deuses, numa trilha que os levará às ruínas da maior nação terrena anterior ao dilúvio – o reino perdido de Atlântida.”

O amadurecimento de Spohr como autor segue exatamente a maneira como lida com @s protagonistas da história, Kaira e Denyel, psicologicamente melhor construídos e com diálogos adequadamente mais consistentes. Spohr consegue neste livro distinguir melhor as personagens e caracteriza-las singularmente para o (a) leitor (a), diferentemente da forma como fez em “A Batalha do Apocalipse”. E até mesmo a caracterização “clichê” d@s personagens (que não vejo como fator negativo, ao contrário) ficou muito mais consistente. Por exemplo, Denyel é o típico “outsider” misterioso, canalha e charmoso, mas imbuído de forte heroísmo. Kaira é a personagem feminina que aprende, no transcorrer da trama, a ser forte e usar bem da sua força no conflito tanto com Denyel quanto com os algozes que os perseguem. Neste ponto, lembro do “pieguismo” de Spohr quando se trata de envolver a relação entre personagens masculinos e femininos, algo recorrente também em “A Batalha do Apocalipse”. Spohr, aparentemente, segue um padrão de caracterização de “filme sessão da tarde” para com Denyel e Kaira, assim como foi com “Ablon e Shamira” em “A Batalha do Apocalipse”. Não chega a ser um puritanismo nerd, mas beira isto. E, sinceramente, não consigo ver sentido. Durante a trama de “Filhos do Éden” a tensão sexual entre Denyel e Kaira é evidente para ambos, mas Spohr parece ter receio de deixar fluir “para a cama” e só permite um beijo na boca. É, isso mesmo. Os anjos de Spohr parecem Calvinistas quanto a seus desejos.

Se quanto a relação entre personagens principais temos essa tensão pouco resolvida que atribuo a pouca perícia do próprio autor em resolver, na caracterização de cenário e inserção sócio cultural da trama, Spohr se sai bem melhor. É interessante “viajar” pelas citações do autor a momentos históricos documentados (como o papel dos “anjos da morte” nas guerras humanas) e históricos não documentados (como os cenários e contextos das civilizações pré-diluvianas). Os cenários dão maior robustez à trama e a deixa, definitivamente, mais interessante, especialmente porque um “outsider”, Denyel, é o fio condutor da apresentação e dinamismo da trama. Ainda assim, acredito que Spohr poderia se permitir pesquisar mais a fundo alguns elementos relativos aos próprios “anjos”, personagens fundamentais à trama. Por exemplo, os Textos Apócrifos da Tanach poderiam ser muito úteis para situar melhor o cenário pré diluviano e mesmo quem foi quem nesse período “histórico” da trama de seu romance. É claro que ainda existe um forte teor de Cristianismo à trama, “herança” de “A Batalha do Apocalipse”, mas Spohr conseguiu diluir esse teor e possibilitou, com isto, uma abertura de seu universo literário.

De toda forma, recomendo a leitura de “Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida” a quem se interessa por literatura de fantasia, especialmente aquela produzida no Brasil. Para ler o primeiro Capítulo do livro clique aqui. E boa leitura!

Ben Hazrael, direto do Cabaré das Ideias para o Ao Sugo
Texto publicado sob autorização do autor

Leia também:

A Batalha do Apocalipse – Uma ficção (quase) religiosa em Ithildin

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

3 comentários »

  1. Ainda não li nenhum livro do Spohr, vou ver se arrumo tempo para ler “A batalha do apocalipse”, agora cade um texto sobre o “Espadachim de carvão”???? Um livro muito bom de fantasia no estilo RPG de ser.

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