Jornada nas Estrelas II - A Ira de Khan

Senhoras e senhores, jedis, padawans, lordes Sith, gundarks e Hutts, bem vindos a mais uma sessão do Cineclube Sci Fi do Conselho Jedi Rio de Janeiro, desta vez com Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan! É com grande prazer que teço alguns comentários sobre o filme que vocês estão prestes a assistir.

Criada por Gene Roddenberry em 1966, Jornada nas Estrelas abriu o espaço para discutir a intrincada relação entre a vida humana e o desenvolvimento científico na televisão, ou seja, no mundo comum dos trabalhadores, das donas de casa, das crianças que chegavam da escola e queriam um pouco de entretenimento. Kirk, Spock, McCoy e a tripulação da Enterprise singravam pelo espaço em busca de novas vidas, novas civilizações, audaciosamente indo aonde ninguém jamais esteve… De fato! E tolos são aqueles que sempre ignoraram ou rebaixaram o seriado como “entretenimento infantil”.

Jornada nas Estrelas trouxe a vasta bagagem da Ficção Científica para nos ensinar a pensar na humanidade e nos nossos próprios problemas cotidianos de maneira absurdamente sofisticada, obrigado. Nunca se tratou de seres alienígenas ou efeitos especiais malfeitos, batalhas irreais, naves de papelão, fantasias de papel celofane ou planetas de isopor, mas sim em nos ensinar a estranhar nossos próprios problemas em busca da reflexão (ou seja, o que J.J. Abrahms aparentemente esqueceu ao dirigir os novos filmes da franquia… mas quanto a isso, deixemos pra lá).

A Ira de Khan

Na data estelar 3141.9 a tripulação da U.S.S. Enterprise encontra uma nave à deriva com vários seres humanos em animação suspensa. É com grande surpresa que Kirk e cia. se vêem às voltas com seres humanos aprimorados geneticamente, dentre eles os maiores ditadores da história da humanidade. Responsáveis pelas Guerras Genéticas que duraram entre 1992 e 1996, tais ditadores foram condenados a passarem o resto de suas vidas congelados no espaço, uma trupe morbidamente suspensa que tinha como líder Khan Noonian Singh (Ricardo Montalban).

Revividos, o grupo de Khan rapidamente categoriza a tripulação da Enterprise como “seres humanos inferiores”, tomando o comando da nave estelar mais poderosa de toda a Frota Estelar. É apenas com a astúcia e engajamento da tripulação de Kirk que a nave (e toda a humanidade, pois imaginem o que poderia ter acontecido…) é salva, com a cambada de Khan deixada misericordiosamente no verdejante planeta Ceti Alfa V para construírem sua própria sociedade.

Enredo bobo? Clichê? Talvez, se visto por uma criança de hoje em dia. Essa história conta a primeira aparição de Khan, no episódio A Semente do Espaço, exibido originalmente em 16 de fevereiro de 1967. 1967! Parem para pensar nas infindáveis discussões que temos nos dias de hoje sobre as vantagens e perigos das tecnologias de clonagem, engenharia genética e reprodução artificial e que, aham, já estavam sendo apresentadas em Jornada nas Estrelas ao final da década de 60 do século passado…

A Ira de Khan

Jornada nas Estrelas II (1982) reapresenta o memorável Khan, mais uma vez interpretado por Ricardo Montalban (mais famoso por aqui como Sr. Rourke de A Ilha da Fantasia), contando os desdobramentos da colonização de Ceti Alfa V. Ou assim era pra ser. O planeta irmão Ceti Alfa VI explodiu, alterando drasticamente a órbita do planeta verdejante e destruindo assim seu ecossistema. A turma de Khan ficou assim abandonada nas cruéis tempestades de areia e espécies hostis do planeta por 15 anos, muitos tendo morrido diante de tamanhas adversidades, inclusive a esposa do vilão (em tempo: como o próprio Montalban gosta de ressaltar e Nicholas Meyer endossa, aquele peito do Khan é do próprio Montalban, não é prótese não, trekkers mulheres…).

Não sabendo da explosão de Ceti Alfa VI, a nave U.S.S. Reliant conduz missão científica no planeta irmão, não sabendo quem veio para o jantar… Para a investigação o Capitão Clark Terrell e seu primeiro oficial, o Comandante Pavel Chekov, se teletransportam ao planeta, sendo rapidamente capturados por Khan. Com a ajuda de uma criatura capaz de controlar mentes Khan toma a U.S.S. Reliant, agora obcecado por vingança pela morte da esposa e parte de sua equipe.

A bordo Khan toma conhecimento do misterioso Projeto Gênesis, o mais sofisticado dispositivo de terraformação já inventado pelo homem, capaz de gerar vida a partir da não-vida, ou seja, alterando a estrutura molecular de um planeta inóspito para um ecossistema complexo com fauna e flora abundantes.

A Ira de Khan

Ok, já contei demais, devendo você fazer a lição de casa comparecendo à sessão do Cineclube Sci Fi (prometo que só falo sobre o final do filme se me pedirem nos comentários). Contudo, devo tecer alguns comentários e curiosidades sobre o filme que é considerado pela grande maioria dos trekkers como o melhor da franquia.

A Ira de Khan começa com um Almirante Kirk emocionalmente devastado, abandonado em meio a sua coleção de antiguidades e pensando no fim da vida (prestem atenção nos diálogos dele com o Dr. McCoy…). Velho e agora até mesmo obrigado a usar óculos, Kirk pela primeira vez pensa na própria vida como nunca fez antes, o que demonstra um incrível amadurecimento de um dos personagens mais famosos da cultura pop. Neste contexto, A Ira de Khan discute fantasticamente o mais belo paradoxo de todos, a mortalidade/fim diante da criação/começo, ou então a criação diante da mortalidade, como preferir. É impecável as correlações com as primeiras e últimas cenas, em especial a leitura do prológo deslocado para o final do filme.

A primeira cena apresenta a alferes vulcana Saavik enfrentando o tão falado Teste Kobayashi Maru, um teste sem solução cujo único objetivo é analisar as reações dos membros da Frota Estelar diante da morte inevitável. Como o único membro de toda a Frota a ter passado no teste, nosso Almirante Kirk revela ter forjado as condições do exame, mais uma vez “trapaceando” a morte, algo que sempre fez em todo o seriado. Como brinca Allan Asherman no livro Star Trek – Compendium, no seriado temos um Kirk com alguma carta mirabolante na manga, volta e meia blefando para lidar com situações difíceis, sempre trapaceando em busca do sucesso da missão… agora impossível quando nosso caro Kirk se olha para o espelho e se percebe velho. Ninguém vive para sempre, não é o que dizem?

A Ira de Khan

O filme foi brilhantemente produzido por Harve Bennett e dirigido mais brilhantemente ainda por Nicholas Meyer, com ambos levando para a telona uma incrível complexidade shakespeariana nos diálogos mais memoráveis de todos os tempos. Para quem não sabe, Ricardo Montalban (nosso Khan) e William Shatner (nosso estimado James Kirk) não atuaram juntos em nenhum momento do filme, com cenas absurdamente densas que eram feitas com a ajuda de uma assistente da direção que lia o roteiro durante as filmagens.

Outra curiosidade do filme é que para diminuir os custos da produção, Bennett sugeriu que fizessem apenas um cenário da Ponte de Comando para a Enterprise e a Reliant, que seria filmado com iluminação variada para marcar a diferença entre as naves. Segundo Bennett, 65% do filme foi filmado naquele cenário, o que permitiu realizar um filme “mais barato” (US$ 11 milhões, faturando mais de US$ 90 milhões). É por isso também que Montalban e Shatner não se encontravam durante as gravações de suas falas.

A nave U.S.S. Reliant em si foi um “erro de produção”: o design diferenciado da nave – porém que ainda denota fazer parte da Frota Estelar – só foi possível porque Harve Bennett abriu a planta da nave de cabeça pra baixo, em Londres. A modelagem em si foi realizada por injeção de plástico à vácuo, deixando o modelo mais leve e mais simples que a Enterprise, esta cuja maquete tinha 1,80m de comprimento!

A Ira de Khan

Meyer não conhecia muito bem Jornada nas Estrelas, dando um toque pessoal na elaboração do roteiro. Imaginando que Jornada nas Estrelas fosse como as aventuras marítimas do Capitão Horatio Hornblower (das aventuras literárias escritas por C.S. Forester, como The Happy Return, de 1937), Meyer atribuiu à Frota Estelar uma estética e um código naval, padrão que tem sido respeitado por todas as produções da franquia até os dias de hoje. Uma de suas principais contribuições foi a inesquecível batalha na Nebulosa de Mutara, cuja estética é semelhante a uma batalha de submarinos do período da Segunda Guerra Mundial. Para substituir a noção de uma batalha tridimensional e em que ambos os adversários estão em pés de igualdade bélica, Meyer sugeriu que dentro da nebulosa os sensores e escudos das naves seriam inúteis, recriando ao seu modo o mesmo gostinho do episódio da Série Clássica O Equilíbrio do Terror, de 1966.

Os efeitos especiais (aham, inclusive a sequência na Nebulosa de Mutara) ficaram nas mãos da Industrial Light & Magic, tendo como staff parte do pessoal envolvido em Star Wars – O Império Contra-Ataca. A nebulosa em si é resultado das filmagens de mistura de líquidos e gases em expansão sob diferentes iluminações. Sobre a qualidade visual do filme pouco há o que ser dito para além daquilo que já sabemos: obra primorosa, considerada pela própria ILM como um dos seus filmes mais representativos. Por fim, seria injusto se deixasse de lado a trilha sonora, composta por James Horner (Titanic, Coração Valente, Apolo 13, Avatar) e que concilia trechos do tema da Série Clássica de Alexander Courage. Seguindo uma linha alternativa à proposta por Jerry Goldsmith do filme anterior, Horner cria um tema para o Projeto Gênesis que virou símbolo do filme.

Jornada nas Estrelas II – A Ira de Khan alterou para sempre a história de Jornada nas Estrelas no cinema. Como diz Keith DeCandido, famoso escritor dos livros e episódios envolvendo os klingons na franquia, todos os filmes de Jornada nas Estrelas que vieram depois de “Khan” usam essa película como referência, seja para se aproximar ou para se afastar da proposta de Bennett/Meyer. Dentre eles, devo citar o novo filme de J.J. Abrahms, que promete resgatar (assim como tentaram em Star Trek – Nemesis) o espírito de A Ira de Khan. De Khan muito tentou se reproduzir, na estética, na linguagem visual e em especial na qualidade do roteiro. Sem mais! Senhoras e senhores, hoje vocês estão prestes a assistir a um dos melhores filmes de suas vidas.

Comandante Victor Hugo, da USS Ao Sugo diretamente para o CJRJ

Conheça os nossos artigos exclusivos sobre Jornada nas Estrelas aqui no Ao Sugo.

Leia agora mesmo o artigo anterior do Cineclube Sci Fi do CJRJ sobre Blade Runner – O Caçador de Andróides.

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

Deixe um comentário elegante

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s