Livro Um – Água

Há muito tempo o nosso colaborador Paulo Sprovieri insistiu para que assistisse ao desenho animado “Avatar – The Last Airbender” ou “Avatar – A Lenda de Aang” como ficou conhecido por aqui. Com o lançamento do filme inspirado na animação, “The Last Airbender” ou “O Último Guerreiro do Ar”, a discussão voltou à tona. Apesar de o filme ser uma tragédia e uma “obra ímpar” do sofrível M. Night Shayamalan, eu ainda não sabia nem tinha referências para poder dizer algo a respeito.

Demorei 7 anos para conhecer A Lenda de Aang. Fã de alguns animes e mangás, sempre achei intragável assistir os refugos ou animações norte-americanas “inspiradas” nas japonesas, sempre resultando em misturebas de qualidade duvidosa. Se mesmo no Japão a percepção mercadológica e esvaziada dos traços arrojados e olhos grandes rendem milhões todos os anos em algumas produções da cultura pop, tanto pior é ver essa percepção encapsulada nos EUA ou mesmo no Brasil cuja lógica sempre foi diferente. Para piorar, a premissa desse desenho era de reunir no mesmo lugar filosofias e mitologias chinesa e japonesa aos olhos de americanos (aham, isso só deixou o meu preconceito mais maluco ainda, sendo estudioso de Japão).

Apesar de ter conhecido o filme antes da animação (deixando uma tatuagem nefasta e indelével em meu cérebro… o horror… o horror…), confesso que fiquei surpreso com o desenho animado. Criado por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko para o Nickelodeon, “Avatar – The Last Airbender” introduz uma ambientação alternativa que mescla elementos chineses e japoneses. O mundo é dividido em quatro nações, cada uma marcada pela capacidade de moldar um dos quatro elementos, a Água, Terra, Fogo e Ar.

Para manter o equilíbrio de poder entre os quatro povos existe a figura do Avatar, um ser de imenso poder que consegue moldar os quatro elementos conforme lhe convém. Inspirado no Dalai Lama, o Avatar é único e sempre a reencarnação de avatares anteriores oriundos das quatro nações, se sobrepondo à figura de qualquer rei ou governante como portador de sabedoria e justiça. Contudo, 100 anos atrás o último Avatar fugiu ainda adolescente com seu bisão voador com medo de assumir seu posto, se congelando dentro de um iceberg.

Durante a sua ausência o desequilíbrio se instaurou entre os quatro elementos e os quatro povos. A Nação do Fogo domou o metal e declarou uma guerra com as demais nações que já dura mais de um século. Da guerra, a Nação da Água foi separada em duas, a do Norte e a do Sul, a Nação da Terra se enclausurou nas montanhas centrais e a Nação do Ar foi completamente dizimada.

O último Avatar, Aang e seu bisão voador Appa foram encontrados no pólo sul por dois irmãos da Nação da Água, a moldadora da água Katara e seu irmão guerreiro Sokka. Acordado, Aang recusa assumir seu papel de Avatar, além de descobrir de maneira dolorosa que é o último de sua ordem, sendo Appa um dos últimos bisões voadores do mundo. Aang conta a todos que abandonou o seu treinamento de Avatar logo no começo, sendo ainda incapaz de moldar a Água, a Terra e o Fogo.

Ainda aprendiz, Katara diz ao grupo ser necessário partir rumo à Nação da Água do pólo norte, último reduto de mestres moldadores da água para treinar o jovem Avatar, formando então a comitiva errante de Aang, Appa, Katara e Sokka pelo mundo em guerra contra a Nação do Fogo.

O grupo é seguido de perto pelo príncipe da Nação do Fogo, Zuko, destituído de sua honra por desafiar seu pai na frente de seus súditos. Marcado com uma cicatriz que lhe cobre metade do rosto, Zuko só pode recuperar seu antigo status se capturar o Avatar, até então uma lenda. Cruel e de temperamento forte, Zuko é auxiliado pelo seu tio Iroh, traidor da Nação do Fogo por ter abandonado a frente de batalha contra a Nação da Terra.

Estes eventos são narrados na primeira temporada ou “Livro Um – Água”, que introduz os personagens e demarca a trajetória de Aang rumo à Nação da Água. Diferente de uma animação japonesa em cujos personagens crianças provavelmente apareceriam de maneira mais adulta, durante o Livro Um Aang se percebe como uma criança em meio aos amigos, aprendendo aos poucos o peso de suas responsabilidades ao ter que socorrer povoados assolados pela guerra que vai encontrando no caminho.

Por ser uma animação da Nickelodeon eu esperava encontrar (assim como acontece na Disney) crianças enquanto “crianças” que devem brincar, distintas dos adultos e afastadas das responsabilidades. Contudo, os criadores DiMartino e Konietzko souberam conciliar as diferenças de perspectiva e transformar esse estilo de animação tipicamente norte-americano na variável mais importante do enredo, deixando Avatar como algo único e épico.

Aang conhece as dores da guerra e percebe que, por ser um Avatar incompleto e também o último de sua ordem, é uma criança que carrega um fardo de tamanho imenso. Todos os seus amigos e mestres morreram anos atrás, além de ter deixado todo um mundo que agora está irreconhecível após tanto tempo de guerra. Apesar de estar sempre acompanhado de Katara, Sokka e Appa, Aang carrega consigo uma grande culpa por ter deixado os seus amigos e o mundo no passado ao se congelar no fundo do oceano, ressentimento que o assombra na grande maioria dos episódios.

Em outras palavras, Aang não é obrigado simplesmente a se tornar um adulto de maneira mais rápida, mas sim em um adulto que deve salvar o mundo por conta de sua própria irresponsabilidade quando adolescente. Aang adiciona outros tons à jornada do herói e confere à narrativa uma tridimensionalidade épica bastante diferente da de Frodo Bolseiro.

Frodo nada tinha a ver com o Um Anel e os problemas da Terra-Média, “jogado” em sua mão por mera brincadeira do destino e que agora o impelia a salvar o mundo. Já Aang deve salvar o mundo que ele mesmo “destruiu” por conta de sua ausência… apesar de ser o único capaz de confrontar a Nação do Fogo e restabelecer o equilíbrio entre os quatro povos, jamais poderá trazer de volta à vida todos os que morreram nessa guerra sem sentido.

Tal qual um mangá ou anime japonês, Avatar tem começo, meio e fim, divididos em três livros, Água, Terra e Fogo. Essa delimitação a priori da animação garantiu uma solidez incontestável dos roteiros, sendo visível em cada episódio a evolução e crescimento dos personagens lidando com assuntos mundanos – e humanos – como a morte, a guerra, a descoberta do amor, da amizade e da esperança.

O primeiro livro funciona, tal qual qualquer primeira temporada de qualquer seriado, como uma área de testes para o desenvolvimento de personagens e narrativas. No Livro Um Aang coloca em conflito a sua visão de mundo enquanto criança que não quer ser o Avatar, quadro que com o passar do tempo vai se invertendo. Os personagens evoluem de maneira sem precedentes, culminando em um episódio final duplo fantástico incrivelmente adulto. Mesclando lendas chinesas e usando de uma licença poética impressionante até mesmo na colorização e traço da animação, o final do Livro Um marca por fim a chegada de um dos melhores desenhos da atualidade.

Vários de seus episódios foram dirigidos por Dave Filoni, diretor já conhecido de Star Wars Clone Wars, além de ter um elenco recorrente bastante impressionante como Mark Hamill, George Takei, René Auberjonois e James Hong. A produção contou com uma consultoria chinesa em todos os episódios, desde o uso de ideogramas, a compreensão de lendas e história chinesa como até mesmo na reprodução dos movimentos de artes marciais, distintos para os quatro povos. Nota-se aqui um comprometimento e primor da produção com a pesquisa que fundamenta A Lenda de Aang.

Uma característica da animação é o empréstimo de elementos de animes e estética japonesa. Movimentos exagerados, expressões faciais e outros marcadores estão em todos os quadros, sendo motivo de confusão entre telespectadores desavisados que acabam  imaginando que Avatar é uma produção japonesa. Outros pontos como a reprodução dos efeitos de lentes das câmeras quando iluminam o Sol ou até mesmo a troca abrupta da coloração para determinados contextos também ficam impressos quadro a quadro, dando um tom de lirismo bastante particular e não encontrado em outras animações americanas mais tradicionais.

O Livro Um foi adaptado em filme nas mãos de M. Night Shayamalan, sendo, até arrisco dizer, em uma produção “comum” e sem finais surpreendentes ou malucos tão comuns do diretor. Da minha crítica, nem entrarei na questão das atuações, para alguns visivelmente fracas e aquém da animação.

O problema do filme é que, além do roteiro ser compacto e não compreender de maneira adequada as nuances da animação, conta com uma figuração bastante avessa ao próprio desenho animado. No filme Aang é uma criança caucasiana, a Nação do Fogo é formada por indianos, a Nação da Terra formada por algo entre África e Oriente Médio e a Nação do Água é também formada por caucasianos do extremo norte… os esquimós ou algo do gênero.

Em entrevista o diretor disse ter reconhecido em Avatar uma dimensão “universal” desprendida de qualquer povo, religião ou mitologia, até que via em sua filha os traços e atitudes de KataraShayamalan disse ter encontrado em Avatar uma maneira de falarmos sobre o nosso mundo e a dimensão plural ou “multiétnica” que vive(ría)mos nos dias de hoje. Eu até diria tudo bem, se a premissa da animação NÃO estivesse baseada na China e Japão, se a animação NÃO se baseasse em templos, castelos e santuários chineses e japoneses ou se a animação NÃO insistisse tanto no uso de ideogramas e mitologias, filosofias e doutrinas chinesas e japonesas, budistas, taoistas ou xintoístas.

Como exemplo, os que conhecem a animação reconhecem elementos indissociáveis dos monges Shaolin na Nação do Fogo, entre outras particularidades que mesclam deliberadamente vários elementos e doutrinas para a composição de algo… único, porém ainda preso em algum lugar entre China e Japão. Como temos essas impressões e estereótipos tão fortemente marcados em nossas mentes, no filme tudo acaba ficando inverossímil ao vermos indianos de olhos amendoados interpretando papéis de personagens que na animação estão marcadamente feitos com olhos puxados, um caucasiano interpretando um Avatar que na animação também tem olhos puxados e fala chinês, etc.

Feitas as ressalvas, um fato que merece todo o meu carinho é sobre a concepção de arte, o figurino e a elaboração dos cenários do filme “O Último Guerreiro do Ar” (eita tradução terrível… realmente, os que traduzem os nomes de filmes para o português vivem em uma realidade paralela), que inseriram uma profundidade maior nos personagens. Como exemplo, vemos os trajes da Nação da Água, costurados com um padrão de tecido na forma de ondas, porém que só é perceptível se aproximamos a cena com zoom. Me pergunto se sai uma continuação…

Avatar – The Last Airbender é uma animação excelente, sendo o Livro Um – Água o primeiro ato de uma saga épica bastante interessante dentro das produções atuais. Vale lembrar que a animação não tem nada a ver com o filme, ufa. Volto em breve para falar do Livro Dois – Terra, adiantando desde já que é uma temporada infinitamente superior ao primeiro Ato. Preparem-se porque a casa vai cair.

 Victor Hugo – Monge do Ar

3 comentários »

  1. haha Quando vi no facebook que vocês fariam uma postagem sobre Avatar, fiquei animado.
    Há uns 4 anos atrás eu assistia a animação na TV, mas pelas circunstancias, apesar de ter gostado da história, sempre foi algo vago pra mim. Então, mês passado decidi assistir tudo novamente pelo PC… e me apaixonei!

    É realmente inacreditável ver o quanto essa animação americana tem qualidade! A história é rica em cultura japonesa e chinesa, assim como você disse, mas eu também fiquei atônito com o aprofundamento, caracterização e desenvolvimento dos personagens (a partir do segundo livro principalmente), as situações que eles vivem e como cada personagem reage, etc. Os momentos humorísticos me pegaram desprevenido, admito; às vezes eu gargalhava sem dó. Os movimentos dos dobradores também deve ser destacado, inclusive eu fiz uma pesquisa para reparar melhor e é incrível!

    Enfim, no final eu só embromei e confirmei o que você disse. Mas Avatar – A Lenda de Aang é, com certeza, uma animação imperdível!
    Ao terminar de assistir fiquei com uma ressaca por uns dois dias. Agora tem uma tal de Avatar – A Lenda de Korra, que até está passando na Nick aqui no Brasil, mas ainda não tive coragem de assistir (apesar de já ouvir comentários muito bons).

    Assista o livro dois com alegria, pois, se o um é bom, o dois é magnífico! Uma personagem bastante peculiar entra e a história embala.
    Esperarei ansioso a próxima postagem sobre Avatar!

    • Olá Herick,

      Concordo com tudo o que disse… eu acho que o Livro Dois é infinitamente superior ao Livro Um… E o Livro rês então… show… logo mais eu publico os artigos por aqui.

      Agora… sobre A Lenda de Korra… Demorou uns dois ou três episódios para eu me acostumar (porque a premissa é diferente), mas com uma única temporada eles já conseguiram superar as três de A Lenda de Aang! O final super épico me deixou grudado no sofá por um longo tempo, de tão maluco que fiquei. Vale a pena sim, de quebra a melhor trilha sonora da televisão na atualidade. Espero ansioso pelas próximas temporadas…

      Abração, continue conosco!

      Victor Hugo

  2. Avatar se tornou meu desenho favorito desde o primeiro episódio que vi, por acaso, na casa de um amigo. Era “A Bandida Cega”, o momento em que Toph é apresentada e inserida no grupo. Ela só não é minha personagem favorita porque ninguém supera o Iroh, que reúne sabedoria advinda dos sofrimentos que lhe foram impingidos ao longo da vida, da perda do filho ao exílio; bom humor mesmo quando todos ao redor estão desesperados; e, principalmente, desprendimento àquilo que geralmente achamos ser essenciais a nossas vidas.

    O filme realmente é uma ofensa. A cena em que o Aang entra em Estado Avatar, no final, é tudo que impede a produção de ser 100% descartável – embora eu me sinta tentado a atirar pela janela o blu-ray que comprei quando lembro dos dobradores de fogo indianos.

    Como você disse, a premissa para “A Lenda de Korra” é bem diferente, dos traços e cores dos desenhos ao próprio enredo; mas, por mais que tenha ficado fascinado pela humanidade da Korra e pela reviravolta em relação ao Tarlok, dificilmente conseguirei gostar mais da Korra que do Aang.

    Ainda ando assistindo, esporadicamente, um episódio ou outro. Ficarei de olho aqui para ver a próxima postagem! [ ]’s

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