Um ensaio de ficção científica: o relato de uma trilheira solista usando todos seus recursos para sobreviver à um acidente em um lugar nada amigável

Bad Romance de Lady Gaga começa a tocar. Acordo, bêbada de sono. Detesto levantar cedo, sempre detestei. Acendo a luz vermelha pendurada no teto, pego a embalagem hermética de ovos e começo a preparar um omelete caprichado como café da manhã. Coloco água para ferver no fogareiro à carbureto e aproveito para rever o planejamento do dia. Desenrolo a tela-filme de oLED1 e fico analisando o tracklog2 do dia: daqui pra frente será somente com minhas próprias pernas. Também aproveito para dar uma olhada no contator Geyger pela tela. Verifico se foram carregados os aparelhos pela capa externa da barraca que também é uma célula solar: está uma lua linda hoje, achei que daria alguma carga de energia. A água ferve e preparo meu café com calma.

Saio da pequena barraca e vejo o bigdog3 dormindo tranquilamente. Ele é um quadrúpede cibernético projetado para carregar cargas por terrenos acidentados. Tem quem ache exagero o apego que tenho a este pequeno leviatã, mas ele já me levou à tantos lugares que perdi a conta. Instalei um módulo de reconhecimento de voz pois gosto de acorda-lo com um tapinha e um grito alegrie: “acorda, Pacheco!”. Então inicia-se o barulhinho gostoso do turbocompressor, ele se levanta para o checkup matinal, de acionar cada uma de suas quatro patas, como estivesse se espreguiçando. Guardo tudo à volta, desarmo a barraca, minha mais recente aquisição. Feita de um tecido que estica mas que não perde a isolação térmica por conta dos suas microfibras ocas, além de ser uma grande célula solar. A minha mochila está composta e este é um momento de difícil separação: já deixei toda a água que eu não vou levar entre vários outros equipamentos no lombo do cachorrão, e carreguei o tracklog da volta em solitário em sua inteligência artificial. Se ele tiver qualquer problema em seu caminho (uma cerca fechada, um rio intransponível, uma ponte caída) ele vai me mandar uma mensagem via satélite informando a parada; terei que voltar para resgatá-lo. Cavalgar sozinho não é permitido aos modelos civís como o meu, mas hackeei seu sistema operacional para liberar “alguns recursos extras”, que um dia podem vir a ser bem úteis. Desejo sorte ao meu bichinho e me despeço dele com um carinho. Dou a ordem de navegação pelo Simstim4 e ele prontamente vai em direção contrária a minha. Agora é comigo.

Ainda ouvindo ao longe as passadas do Pacheco faço o meu checkup matinal, minha parte predileta. Estou usando uma segunda pele encoberta de escamas, controlada por uma camada semiorgânica que eu gerencio pelo Simstim. Este dispositivo, aparente em minha nuca e com filamentos que passam por entre os fios do meu cabelo curto lêem minhas ondas cerebrais e por sua vez mandam comandos para o que quer que eu queira controlar, como a SnakeSkin, minha roupa de escamas. Todos os aparelhos controláveis pelo Simstim tem o seu tempo de aprendizado: você aprende a sentir a roupa, a interagir com a tela-filme (mouses e cursores há muio fazem parte do passado), aprende a ordenar a cavalgada do bigdog e por mais que tudo isso seja apenas carbono, silício, e policarbonato esta interface muda a forma como você vê o mundo: eu percebo as coisas ao meu redor como extensão de mim mesma, ainda que o aparelho apenas leia pensamentos, sem transmitir sensações de volta ao meu cérebro. Sinto que a roupa está quase me sufocando de calor, com suas escamas hermeticamente fechadas, e então eu desejo sentir frio; logo todas as escamas se abrem. O ar gelado entra pelas fissuras e é como cair num lago gelado: o Simstim lê meu pensamento e fecha rapidamente as escamas, fazendo aquele som agradável de plástico bolha. Encaixo a mochila nos arreios que envolvem meu corpo, olho para frente e dou o primeiro passo.

Durante toda a caminhada, não posso deixar de pensar no bisa5. Estou fazendo esta viagem ouvindo no sintetizador os relatos que ele escreveu em sua época, quando as pessoas começaram a compartilhar coisas pela rede. Em alguns aspectos, nada era diferente de hoje: sair por aí, muito bem equipado para ir mais longe e com mais conforto. A diferença é que ele carregava uns 30 quilos a mais de equipamentos. Só de pensar que ele usava cartas topográficas de papel já me bate o desespero: que coragem confiar em um pedaço de papel! Mas a explicação veio logo depois e me pareceu óbvia: o receptor de GPS daquela época era um aparelho frágil, quase tão frágil quanto as primeiras lanternas com lâmpada de vidro. Hoje, eu carrego uma tela-filme de alta resolução e todos meus equipamentos são à prova d’água. Suportam os piores tratos como arranhões e pisadas sem um risquinho. E a energia vem diretamente das células solares e módulos cinéticos6 encaixados na minha mochila. Simstim, tela-filme, SnakeSkin, Heliver, Batnav e mais uma infinidade de equipamentos que podem me acompanhar sem dar um probleminha, enquanto houver luz do sol ou movimento. Já deixei o carregador cinético preso por uma cordinha num rio turbulento durante a noite e no dia seguinte todos meus aparelhos estavam à carga plena. Há muitos anos atrás os suíços não precisavam dar corda em seus relógios7, hoje não precisamos dar corda em mais nada. Aproveito para fazer uma checagem na caminhada do Pacheco num canto da tela-filme. Vejo que está correndo tudo bem, mas ele cruzou com duas pessoas no seu caminho, que o olharam com justificável surpresa como pude ver pelo vídeo gravado de suas câmeras. A previsão de chegada no quintal do simpático casal que se ofereceu para ficar com ele é de 5 horas em cavalgada lenta, 6.5km/h.

Depois de algumas poucas horas de caminhada estou entre prédios abandonados em ruas desertas e cobertas de vegetação. Encontro um canto confortável para uma pausa num antigo parque de diversões e alcanço em minhas costas um pacotinho de sorvete liofilizado8. Olho para o contator Geiger e vejo que ainda posso ficar por aqui mais uns dias sem grandes prejuízos para meu corpo. Guardo a tela de volta em meu backpack e percebo um esquilo olhando-me curioso. Que pequenino formidável, cinza de pêlos curtos e por mais que digam para não alimentar animais silvestres nem interagir com eles, não posso resistir à tentação. Claro que ao me aproximar ele recua um pouco, então eu avanço mais, e ele vai em direção à um beco. Não resisto; caminho em sua direção e… bam! Despenco na escuridão.

Meus olhos se abrem mas não vejo nada. Sinto uma dor lancinante ao respirar. Alguns segundos se passam e está tudo quieto à minha volta. Tateio ao meu redor e pareço estar sob chão firme. Choro sozinha às cegas. Minhas lágrimas são de ódio, muito mais que pela dor, por cometer tamanha estupidez. Como eu pude ser tão idiota ao ponto de não olhar por onde piso? Lembrei do bicho estúpido que não queria a minha compania e foi por isso que eu vim parar aqui. Inspiro o ar dolorido e faço força para não voltar a desmaiar pela dor. Mexo os dedos de meus pés para ter certeza de que estou inteira. É hora de agir. Pelo Simstim ligo a lanterna omnidirecional acoplada em meu boudrier, na altura dos ombros. Desconecto a mochila estanque modular com o apertar de um botão na minha lombar e ainda deitada desencaixo um estojo com uma cruz vermelha. Desenrolo a tela-filme e vejo uma exclamação dentro de um triângulo amarelo: não há sinal de GPS nem de rede satelital9, estou numa caverna sepulcral sem conexão nenhuma com o mundo lá fora. Seleciono o sinal em forma de cruz no canto superior e ele me exibe em três dimensões uma espécie de cubo de Rubrik com formas geométricas, cores e pictogramas, que eu giro por comandos de Simstim. Seleciono um pictograma que representa o torso, um outro que representa um martelo e finalmente três exclamações. Ele me aponta o resultado: triângulo vermelho, quadrado amarelo, círculo vermelho junto à um pictograma em forma de chama. Abro meu estojo hermético, cujos separadores agrupam pequenos comprimidos em forma cubíca, piramidal, esférica e cilíndrica, e cada uma dessas formas em cinco cores diferentes, num total de 20 modelos. Pego os três modelos indicados na tela, saco o fogareiro, um pouco de água e cozinho as pastilhas. Tomo devagar o chá amarronzado e amargo que se formou; me encolho de dor e enjôo. Alguns minutos mais tarde, anestesiada, posso pensar no que fazer: estou nem beco escuro, e iluminada pela minha lanterna ainda ligada vejo que vim rolando por uma passagem teto acima. Ao tentar ficar de pé percebo que machuquei feio o tornozelo na queda, comprovado por um baita rasgo no SnakeSkin a ser consertado com tecido elástico adesivo10.

Feito o remendo, é hora de explorar o local. Não há como subir de volta, pois não há escadas ou pontos de apoio. À minha frente desce um túnel íngreme levando ainda mais para baixo. É o único caminho, mas não vou me arriscar de novo, já basta o primeiro susto. Tiro da mochila três esferas de borracha de silicone de 4 centímetros de largura, os Batnavs: são radares que mapeiam o ambiente onde se encontram e passam os resultados para a tela via wifi11. Miro à frente e atiro a primeira esfera o mais longe que eu posso, olho para a tela-filme ainda largada no chão e observo se formar um mapa tridimensional da gruta de concreto na qual me encontro. Aparentemente nenhuma outra surpresa me espera abaixo. A esfera parou alguns metros à minha frente e quando alcança-la o processo se repetirá: em pouco tempo terei mapeado o ambiente por onde estou agora. Se alguma parede for muito fina, como madeira ou gesso verei na tela-filme uma possível entrada. Ou melhor: saída.

Já fazem algumas horas que estou caminhando neste que parece ser um antigo sistema de escoamento de água, provavelmente da antiga usina. O contador Geiger só aumenta e não posso ficar muito mais tempo aqui: tenho poucas horas até que a radiação comece a me fazer mal. Ouvi dizer que o urânio que vazou da usina há quase 600 anos derreteu tudo à volta do reator e veio parar aqui embaixo12. Preciso desesperadamente achar uma saída. Minha perna direita está falha e se não fosse o poder do fortíssimo analgésico eu não estaria de pé. Nada de sinal de satélite até agora; minha situação não é nada boa. Eu não quero morrer numa caverna de concreto sozinha, longe de tudo. Não foi para isso que eu vim. Mas se eu me enfiei aqui sozinha, tenho que sair sozinha. A única saída é para cima, mas assim como de onde vim, não há escadas tão pouco pontos de apoio para escalar. Sento para pensar em algo. Olho cuidadosamente o modelo tridimensional mapeado pela esfera de Batnav, em vários ângulos diferentes. O que é este lugar? Ele está inserido em qual contexto desta construção? Há pequenos orífios em alguns cantos… o que serão eles? Só há um jeito de saber.

Seguro o Batnav com punho cerrado, vou à um canto indicado no mapa e rezo: “bolinha, não me decepcione”. Atiro-a pelo encanamento e então ouço o barulho afunilado dela rolando dentro do encanamento, e logo em seguida uma imagem vai se formando na tela: mostra-me alguns metros de tubulação e… um espaço completamente aberto, indecifrável pela esfera borrachuda. O sonar tem alcance de 100 metros omnidirecional, e se nada aparece no mapeamento e há comunicação com o dispositivo, eu posso concluir que o outro lado é onde eu gostaria de estar: lá fora. Considero minha esfera perdida, mas meu maior problema agora é tempo: caminho com passos falhos em direção à um dos túneis acima de minha cabeça e atiro com força mais uma esfera de mapeamento: forma-se na tela a imagem de um túnel com um ângulo em torno de 45 graus e uma saída 30 metros acima. Não muitos metros, mas intransponíveis de onde estou. Recupero a segunda esfera. Penso em tudo o que tenho à mão. O contador Geiger continua em ritmo acelerado. Sozinha, com poucas horas de vida, cansada, dolorida e enfurecida. Se pudesse ligar para fora, o meu resgate iria demorar muito mais tempo para chegar aqui do que o tempo que tenho disponível. Penso em tanta coisa que vivi. De quem estava comigo, das risadas, dos lugares em que estive, das coisas simples da vida. Me perguntam como que eu me acostumo à vida na metrópole depois de passar tanto tempo fora sozinha. Ora, e não há nada mais gostoso que uma cama macia e limpinha? Aqui fora eu posso compreender como a nossa vida cosmopolita é artificial e regada de privilégios: luz, conectividade, transporte. Coisas que temos à nossa mão de forma tão fácil e nem percebemos a importância delas. O objetivo nunca foi me tornar uma eremita, e sim de compreender como é o mundo em seu estado natural, usando a tecnologia como ponto de apoio, não de refúgio. Em todas as vezes em que saí para explorar havia um elemento comum, algo que sempre estava presente. Algo que sempre foi mais do que aparenta. E ele é minha esperança para fora daqui. Da minha mochila saco uma antena satelital reserva. É um dispositivo simples, parecido com uma caneta. De olho na tela entro nas configurações avançadas e ativo o backup. O símbolo triangular indicando “sem sinal” continua aparecendo no canto superior. Volto ao encanamento por onde joguei a primeira esfera: repenso todo o meu plano e empurro a antena com força para fora. Olho na tela. Ainda há conexão sem fio da tela com a antena secundária. Segundos de tensão. O triangulo amarelo se transforma numa gangorra. Mais alguns segundos de torcida. Plim, a conexão com o satélite foi estabelecida! Dou um berro, pulo de alegria, e caio no chão num misto de dor e felicidade.

A quilômetros de distância no quintal de um belo chalé de madeira um montinho coberto por uma lona azul começa se mexer. Um chocoalhão derruba a lona e surge um quadrúpede cibernético, em que se lê nas laterias PCHKO. O animal sintético sai em disparada, numa velocidade muito maior do que a permitida para um bigdog doméstico, especialmente não tripulado. Apesar de proibido, essa contravenção se mostrava a salvação de uma vida. E tudo o que eu posso fazer agora é acompanhar pela tela de LED orgânico a visão das câmeras do Pacheco em disparada pela estrada de terra.

Em poucas horas que mais dias de inverno ouço passos no teto, indicando que o Pacheco chegou. Não há tempo para perder: conecto-me via Simstim ao Heliver enquanto carrego na tela seus controles e cameras. Começam a entrar em ação os três transdutores do minúsculo helicóptero que carrego para tarefas remotas13. Instalar uma corda num morro acima para uma ascenção é uma de suas principais funções, pois ele é provido de uma pinça também controlável pelo Simstim. Numa manobra cirúrgica retiro o rolo de corda do lombo do Pacheco, e jogo-a pela entrada quadrada do ambiente em que me encontro, que ao olhar por fora parece um sistema de ventilação de metrô. Escuto a corda se esborrachando no chão aqui embaixo. Sem tirar olho da tela e com delicadeza no Simstim, direciono o Heliver túnel abaixo, com suas potentes luzes LED iluminando o caminho. É um túnel diagonal provavelmente da mesma altura de onde caí e agora posso ter uma boa idéia da gravidade de minha queda. Escuto o barulho do pequeno dispositivo entrar na minha catacumba e iluminar tudo em volta numa manobra em espiral, com seu característico som grave. Seria um belo passeio se não fosse tamanha urgência. Ver o contador Geiger agora é desnecessário. O helicóptero do tamanho de um gato pousa com segurança ao meu lado e corro desembrulhar o rolo de cordim de carbofiber14. Amarro uma ponta da corda no meu bouldrier, a outra à pinça do Heliver. De volta à tela piloto manobro o pequeno robô aéreo de volta pelo túnel diagonal, sentindo o peso da fina corda pela adição de mais de potência às microturbinas. Do lado de fora a operação vai ser um pouco mais trabalhosa, pois nunca vi ninguém usando um bigdog para rebocar uma carga, especialmente uma pessoa. Com sorte acho um bom ponto de apoio na carenagem do Pacheco e com muito cuidado prendo a ponta da corda nele. Pouso o pequeno robô no lombro do cachorrão.

De volta à visão das cameras do Pacheco, indico-lhe via Simstim para andar em marcha a ré e a corda aqui em baixo retesa. Verifico se está tudo bem preso e me posiciono de modo não perder a tela de vista quando estiver pendurada, além de amarra-la ao bouldrier por segurança. Meu corpo começa a ser guinchado para cima lentamente enquanto o Pacheco começa a fazer força de ré. Quem nunca viu um bigdog poderia confundi-lo facilmente com qualquer animal, e lá estava ele, bufando as turbinas para me subir de volta, para me salvar a vida. Ainda que ele não seja consciente, que não tenha vontade própria, sentimentos e dores, que seja apenas carbono e circuitos de estado sólido, quem seria eu sem ele? Me levou tão longe, esteve comigo em todas estas viagens espetaculares, e neste momento em que está a salvar a minha vida este equino mecânico conquista em mim algo mais. É uma ferramenta que nunca me deixaria para trás; não se cansaria, não dormiria, não me questionaria. Talvez eu seja mesmo a dra. Susan Calvin15 como meu pai me apelidara.

É um momento delicado, suspensa no ar tocando o teto, hora de entrar pelo túnel. Diminuo a velocidade do Pacheco lá em cima, passo pela quina e agora estou dentro de um enorme escorregador de concreto sendo arrastada, arrepiando com o barulho agudo das escamas do SnakeSkin sendo lixadas. Mais potência no turbocompressor do Pacheco e meu reboque aumenta a velocidade. O efeito do analgésico agora é mínimo e grito sentindo uma dor cruciante a qual não posso ceder porque não posso desmaiar agora. Largo a tela que continua presa por uma cordinha, e foco em desejar “mais força, Pacheco, me tira daqui. Mais velocidade, arqueie mais essas patas”. Do lado de fora, um cheiro de material sintético queimado começa a impregnar o ar. Normalmente esta operação não seria nenhum trabalho para uma máquina projetada para ter 20 vezes a força do cavalo mais forte que já existiu, mas o fino cabo de carbofiber encontrava uma fenda que faz o arrasto do cabo ser mais difícil. Em minutos que pareceram séculos, finalmente percebo a luz do lado de fora. A dor é ofuscada pela alegria. O contador Geiger começa a apitar freneticamente situação crítica ao mesmo tempo que mostra o nível de radiação decrescendo exponencialmente. Sinto no ar o cheiro de robô acima do limite. Dou o sinal de parar ao bigdog amarelo e me jogo deitada em chão firme. Não sei se pela dor que sinto ou pela radiação que tomei, meu café da manhã é expelido, uma cena nada agradável. Indico o Pacheco para perto de mim. Agarro a uma de suas patas, me arrasto para seu lombo, onde o Heliver já está guardadinho. Solto o cabo que me prende, e também o lado preso ao Pacheco; com dificuldade exibo na tela-filme o tracklog de emergência, arrasto para o pictograma do quadrúpede: respondo AGORA à mensagem de agendamento. O Pacheco começa a andar e tudo o que eu preciso são de 5 segundos: ele está indo na direção correta. Um beijo de agradecimento no chassi de carbono. Eu apago como uma lâmpada que se queimou.

É uma parede clara, uma música calma e um travesseiro confortável. E a sensação de um corpo pesado, sem controle térmico, mas com o toque gostoso de um cobertor de fleece. Ao virar minha cabeça vejo uma câmera que a esta altura já deve ter reconhecido que acordei e chamou uma consultora.

— Olá, você acordou. Vou chamar sua visita.

— Que visita? Isso aqui é um hospital, certo?

— É um hospital sim. Vou chamar sua visita.

— Quem é!?

— Polícia. Eles acharam muito estranho como que poderia um bigdog trazer sozinho uma pessoa inconsciente até a porta do hospital. Aliás, seu cachorrão foi rebocado.

— Para onde!?

A enfermeira-consultora deu de ombros. Entra na sala um homem esguio, vestido como um burocrata.

— Olá. Preciso de algumas explicações. Porque o seu bigdog, de uso civil, estava em modo autônomo?

Detesto burocratas, os trato com todo o desdém possível.

— Bem, eu estou aqui viva, isso não é uma boa justificativa? Talvez ele tenha as três leis de Asimov16 embutidas no sistema operacional dele…

— O seu robô foi apreendido, teve a inteligência artificial formatada e eu preciso saber o que aconteceu com você. Se quer ver seu veículo novamente, conte a história completa.

Depois do meu resumo, o burocrata esguio me olha sem dizer uma palavra. Limpa as lentes do óculos. Recoloca-o quebrando o silêncio:

— Constructo17, como você bem sabe, é o congelamento do estado de um software de uma inteligência artificial, tanto de sua lógica quanto de suas variáveis. Sistemas computacionais complexos acumulam variáveis de experiência durante seu funcionamento, e toda essa consciência pode ser copiada em um dispositivo de armazenamento massivo para uso futuro ou para replicar este estado de consciência em outros aparelhos com as mesmas características de hardware. Enfim, você tem um constructo do P-C-H-K-O, não tem?

— Sim, tenho, bem escondido e várias cópias. Já disse que o nome dele é Pacheco.

— Ótimo. Sua incursão à Prypiat despertou bastante interese. Uma visita clandestina com um bigdog hackeado será bem mal visto aos olhos do…

Esse papinho me irritou profundamente, não economizo no tom de voz:

— Chega desta conversa de Gestapo!!! As pessoas tem o direito de saber que aquele lugar ainda não está habitável. Eu não vou abrir mão de…

— Não vim acusar você de nada. O seu veículo foi recuperado do pátio de polícia e enquanto conversamos o P, C, H, K, O está no laboratório sofrendo os upgrades necessários para sua próxima viagem.

— Que viagem? Quem diabos é você?

— Só precisava ter certeza de que você é quem eu li a respeito e que tem o constructo do veículo, mas não podia perguntar isso por meios digitais. Tenha-o em mãos quando nos vermos novamente. Neste cartão de dados tem todos os detalhes que você precisa saber.

O homem misterioso foi embora sem dizer mais nada e no micro-display do cartão dizia: “Cientistas desaparecidos no recém-descoberto maior complexo de cavernas do mundo aguarda resgate”. Minha perna já não dói mais.

Por Lex Blagus, cedido especialmente para o Ao Sugo

Leia a versão original no blog Blogus

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Notas:
1: As próxima geração de telas será de LED orgânico, passível de ser fabricado em películas flexíveis, como visto no filme Planeta Vermelho (Red Planet, 2000)
2: Tracklog é um plano vetorial usado em softwares de GPS
3Big Dog é o mirabolante projeto de um cargueiro quadrúpede militar encomendado pela DARPA àBoston Dynamics
4: Simstim é um aparelho ficcional apresentado na triologia Sprawl de Willian Gibson que permite a troca de sensações do sistema nervoso entre pessoas
5: A primeira versão deste conto era o relato da bisneta do autor comparando as tecnologias de seu presente e do passado
6Carregador cinético é um produto que já existe
7: O primeiro relógio automático foi inventado em 1770 por um suíço
8Liofilização é uma técnica de desidratação por sublimação que mantém 99% das características nutricionais por muitos anos sem o uso de conservantes ou produtos químicos. Existem muitos fabricantes de comida liofilizada, inclusive no Brasil, cujo cardápio inclui sorvete
9: Os telefones satelitais atuais tem planos de voz e dados
10: Evolução do famoso silvertape
11Mapeadores de caverna já são uma realidade
12: O conto se passa em Chernobyl
13Helicams são pequenos helicópteros pilotados por controle remoto com uma câmera embutida usados em cinema/televisão
14Nano fibra de carbono mais forte que Kevlar
15Dra. Susan Calvin é a personagem de vários contos sobre robôs de Isaac Asimov. A robô-psicóloga é conhecida por ter mais compaixão pelos robôs do que pelos humanos
16: As Três Leis da Robótica são leis que foram elaboradas pelo escritor Isaac Asimov em seu livro de ficção I, Robot (“Eu, Robô”) que dirigem o comportamento dos robôs. São elas:

1ª Lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal
2ª Lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei
3ª Lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e/ou a Segunda Lei

17: Constructo de ROM é um termo emprestado do romance Neuromancer de Willian Gibson que contém a memória de um personagem da trama, o Linha Plana

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

3 comentários »

  1. Há uma nota não escrita no texto, que Futuro do Futuro é uma música de Everything but the girl (lembra-se do famoso dance Missing?) usada no filme (de ficção científica, claro) 13th Floor.

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