Não há dúvida alguma de que Ghost in the Shell (攻殻機動隊 Kōkaku Kidōtai no original) já faz parte do que convencionamos chamar de Cyberpunk nas últimas décadas, com vários elementos deste movimento que tornam essa película memorável para qualquer ser pensante. Bom, na verdade, memorável para aqueles que gostam de pensar bastante.

Como já comentei em outra oportunidade aqui no Ao Sugo (aliás, artigo obrigatório se você quer continuar lendo este aqui), Ghost in the Shell chegou ao mundo pelo traço extremamente habilidoso do mangaka Shirow Masamune em 1989, narrando as atividades da Seção Especial 9 contra crimes tecnológicos… aham, tudo o que as atuais agências federais de policiamento e investigação gostariam de ser e não conseguem nem por mágica. E nisso Ghost in the Shell se diferencia um pouco da premissa original “punk” do Cyberpunk.

Se o Movimento Cyberpunk preconiza a emergência de um indivíduo conectado e dotado de novos poderes (“informação livre para todos”, a meta ou mote que justificaria o phreaking a partir da década de 1960 e principalmente o hackerismo a partir da década de 1980 para frente), geralmente retratado em livros que mostram esse pequeno sujeito “no ciberespaço”, Ghost in the Shell mostra o outro lado da moeda, uma grande agência, governamental, versus este indivíduo hacker/criminoso.

Contudo, todos os elementos Cyberpunk estão lá, especialmente nos dois primeiros filmes dirigidos por Mamoru Oshii (1995 e 2004). Futuro próximo e distópico, 2029, a crise existencial do Homem e sua nova relação com a Máquina, o universo do cibernético e do ciborgue e, nesse bojo, a necessidade do repensar sobre o estatuto da Humanidade… O pacote está completo e, ao contrário da literatura Cyberpunk dormente ocidental, ainda vem sendo produzida com muito primor no Japão, obrigado.

Com o lançamento do filme Ghost in the Shell – Innocence (2004) a coisa mudou um pouco de figura. Primeiro porque não é um filme, mas uma obra de arte digna de um pedestal astronômico, não apenas pelo enredo brilhante (e espinhoso) que vai muito além da proposição do primeiro filme, como também na arte áudio-visual. A trilha sonora de Kenji Kawai adquire novas dimensões, sem perder sua característica bucólica da película antecessora e a arte, a arte… Ahhh, meu caro filhinho ciborgue… A arte é algo à parte. É, na minha humilde opinião, o melhor trabalho de união de animação 2D com CGI (imagens criadas por computação gráfica) já feito. Mentira, um deles.

Ghost in the Shell 2.0 chegou para apavorar todos os fãs e apreciadores do mundo do cinema, lançado no Japão para comemorar o lançamento da animação The Sky Crawlers em 2008 (fiquem tranqüilos que essa animação também será resenhada para o Ao Sugo futuramente). Se o filme já teve a incrível capacidade de inspirar obras de peso por aqui (como a trilogia Matrix), nesta versão “atualizada” Ghost in the Shell 2.0 entra também para o tal pedestal astronômico que falei. O meu DVD, comprado no Japão em 2010 está guardado no cofre junto com o braço da Cyberdyne. Mas o que tem de interessante?

Primeiramente, é louvável o trabalho de restauro que foi feito no primeiro filme da equipe da Major Motoko Kusanagi. Disponível em DVD e em BluRay, todo o negativo original foi restaurado, com a tecnologia de eliminação de sujeiras de película e tudo mais o que temos direito, não só aproximando o primeiro filme de Innocence, mas também fazendo parecer que foi feito… ontem!

Apesar de fã ardoroso do BluRay e da sua qualidade gráfica (já que o maldito disquinho não comprime o áudio e nem o vídeo como assim faz o sacana do DVD), a versão em DVD de Ghost in the Shell 2.0 é sublime. Eu não tenho nem outra palavra que melhor define a produção. Sublime. As cenas estáticas e contemplativas de Hong Kong se transformaram literalmente em quadros, pranchas lindas que dá pra ter na televisão da sala.

Já todas as imagens em CGI da primeira versão, antes aquelas imagens esverdeadas de quando ainda estávamos engatinhando na animação por computador, foram substituídas. Foram todas refeitas com a mais nova tecnologia de computação gráfica existente, deixando agora o primeiro filme mais próximo de Innocence (já que o pulo ou salto tinha sido realmente grande de um filme para o outro). Estas cenas também são fantásticas que, quando congeladas pela magia do botão Pause, se transformam em outras telas fantásticas para a tela da sua TV.

A surpresa da edição 2.0 está na trilha de áudio, agora em Dolby EX/DTS e em 6.1 canais. Fazer isso não é fácil, pois a trilha sonora original deve ser “extraída” do original e, quando a edição de áudio é feita para encaixar tudo em 7 canais, a coisa fica embolada, principalmente nas cenas em que temos muitos personagens falando ao mesmo tempo. Além disso, temos a questão da trilha sonora primorosa de Kenji Kawai que não estava adequada para a nova edição. E agora, José?

Mais recente do que a remasterização e restauração de Akira para 5.1 canais (isso em 2004), a produção de Ghost in the Shell 2.0 simplesmente chutou a barraca: várias cenas de diálogos foram regravadas e editadas por Randy Thom (da Skywalker Sound), chamando novamente vários membros do elenco para relerem suas falas. E o mais legal é com a trilha sonora de Kawai, agora REGRAVADA. Regravada, seu maluco! Você tem noção do que é isso? Já afastado das produções mais recentes relacionadas a GITS, Kawai retorna em grande estilo com seu coral para arrasar na nova produção. Primoroso.

Infelizmente Ghost in the Shell 2.0 não foi lançado no Brasil, óbvio. Essas coisas só chegam aqui quando se tira 1 no dado de 20 faces ou quando alguma pequena distribuidora tem um insight genial, como a Flashstar que trouxe a primeira versão para cá. Reze aí, torça os dedos, faça uma petição online, deixe 1900 comentários aqui pedindo o filme, pois é o único jeito. Se Ghost in the Shell na primeira edição já era excepcional, imagina agora.

Victor Hugo, no ciberespaço

Veja também:

Artigo sobre o filme Ghost in the Shell

Trilha sonora de Ghost in the Shell – Innocence

William Gibson falando sobre Neuromancer

2 comentários »

  1. Pra ser franco, soube dessa suposta* (*ainda não tive a oportunidade de me deleitar com essa obra de arte) por marketing do novo filme e juntamente ao fato de que essa foi uma das inspirações de uma trilogia que amo – Matrix -, seu artigo me deixou ainda mais determinado a correr atrás dessa saga que parece ter extrema qualidade.

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