Uma das coisas que mais me intriga ainda é o tal do Steampunk, subgênero da Ficção Científica que vem a cada dia que passa conquistando mais e mais fãs pelo mundo todo. Talvez você nunca tenha ouvido algo com esse rótulo, mas certamente o conhece: basta nos imaginarmos no passado, mais precisamente no século XIX e em meio à Revolução Industrial, porém com um incrível avanço da tecnologia do vapor e das rodas dentadas.

Se hoje viajamos os quatro continentes de avião e podemos ler esses artigos malucos na internet, bem, isso tudo já poderia ser possível com dirigíveis, navios-fortaleza à vapor e computadores mecânicos e analógicos… Isso já apareceu em filmes, seriados de tv, pipocou em fotos e memes da internet e já causou muita estranheza ao ver pessoas trajadas hoje com roupas daquela época, com geringonças mais do que malucas movidas à vapor. Para entender o Steampunk, precisamos relembrar algumas características da entrada “punk” na Ficção Científica. Vamos lá.

Se o Cyberpunk é uma leitura distópica de um futuro próximo – ou “urgente”, como diria o escritor do hit biopunk Windup Girl, Paolo Bacigalupi, cuja vida humana se vê entremeada pelo uso desenfreado da tecnologia versus a dissolução das fronteiras entre o homem e o ciborgue ou o cibernético, no Steampunk a coisa muda de figura. Agora, em vez de olharmos para o futuro próximo e degradado, vamos voltar nossos olhos para o passado.

O Steampunk é um movimento literário dentro da Ficção Científica (e que já se espraiou faz um tempão para fora dela) que propõe uma leitura retroativa, ou melhor, retro-futurística do passado, com a aplicação anacrônica da tecnologia para aquele período. Mas é um período bastante específico, o da Revolução Industrial, o da chegada do vapor, o da chegada das engrenagens. Mas calma lá: não é apenas a leitura retroativa e ultra “cientificizada” do passado victoriano, mas também com a incorporação de elementos do movimento Cyberpunk da década de 1980.

O termo Steampunk foi cunhado na década de 1980 pelo escritor californiano K.W. Jeter (Infernal Devices), ideia que de certa forma é até mesmo uma resposta ao próprio Cyberpunk. Como iniciativa que buscava o afastamento deste movimento literário punk da Ficção Científica e, justamente, para criar uma identidade própria, surgia o mundo idealizado e futurista do vapor. Como diz uma das maiores escritoras do movimento, Cherie Priest, o Steampunk “é o que teria acontecido no passado britânico, victoriano, se o futuro tivesse chegado antes”.

Dessa forma, se imputa a nossa lógica de pensar a tecnologia hoje em um mundo em que tal recurso era apenas matéria dos sonhos. Em The Difference Engine, um dos títulos clássicos e mais emblemáticos do Steampunk (escrito, aliás, por dois dos fundadores do Cyberpunk, William Gibson e Bruce Sterling), temos o desenvolvimento do primeiro computador de Babbage, um computador, aliás, parecido com os nossos de hoje em dia.

Nessa leitura retroativa existe o espaço para as aeronaves, algo que só seria inventado 100, 50 anos depois, além de utensílios domésticos fantásticos e até mesmo máquinas de guerra inexistentes para a época. Quem aqui se lembra do formidável Nautilus de Vinte Mil Léguas Submarinas? Quem aqui se lembra da Máquina do Tempo de H.G. Wells?

O interessante do Steampunk não é pensar apenas na brincadeira que é em imaginar máquinas de hoje sob uma lógica do vapor e da roda dentada, mas sim em tentar compreender e especular sobre como seria o comportamento humano diante deste novo tipo de relação. Eis o negócio interessante e não essa palhaçada cosplaysteampunk que alguns fazem hoje em dia, fazendo-o sem saber os porquês.

O Steampunk surge então como reação não só ao Cyberpunk (o futuro próximo, distópico e vazio), mas também ao que estava sendo produzido na Ficção Científica mais viajante ou etérea de até então. Olhar para o passado com os olhos da Ficção Científica era também uma rebelião ou transgressão no melhor estilo punk de até então.

Ao contrário do Movimento Cyberpunk que sofreu um baque ou recrudescimento nos últimos tempos, o Steampunk vai muito bem, obrigado, hoje comemorando mais de 20 anos. Verdade seja dita, as previsões (ou diretrizes, já que a Ficção Científica da década de 1980 em diante não prevê mais o futuro, mas o inventa) da literatura Cyberpunk foram tão acuradas que hoje vivemos a realidade tão preconizada por Gibson e companhia. Como escrever ou produzir literatura Cyberpunk em um mundo que já é “cyber“?

Se o Cyberpunk preconizava o livre acesso à informação para todos (lembrem-se dos phreaks e dos hackers), em um mundo cujo indivíduo é conectado ao mundo e, com isso, oferece uma resistência e transgressão e bla bla bla… bem, esse é o nosso mundo hoje!

Hoje temos internet que é virtualmente acessível para todos, pessoas conectadas e “online” o tempo todo, iPhones, iPods, iPads e tablets que acompanham e informam a vida das pessoas desde quando elas literalmente acordam (quem aqui não deixa uma dessas geringonças perto da cama como despertador, depois como ferramenta para checar emails e afins?).

Próteses cibernéticas já não assustam tanto quanto assustavam no passado (embora isso tudo ainda ME assuste horrivelmente)… hoje esperamos ansiosos pelas novas invenções do Google e afins, tradutores universais, localizadores, etc… Como encontrar a crise existencial e transgressora punk dentro desse contexto de homogeneidade da cultura tecnológica?

Se enganam aqueles que acham que o espírito niilista Cyberpunk morreu. A cada dia que passa o Steampunk ganha novos e novos adeptos, não só no mundo da literatura de Ficção Científica, mas também como um movimento de “contra-cultura” (seja lá o que for isso) crescente que não só transgride, mas também dialoga com o mainstream.

Justamente por conta da frieza, da esterilidade e da “chatice” do viver Cyber que é o presente, os fãs do gênero do Vapor se voltam para o passado, se embasando não no papo furado do “resgate”, mas sim no da invenção de um passado simplesmente… mais divertido. E compreensível.

É dessa forma que o espírito punk, niilista, vem sendo recuperado e retroalimentado (é claro, de maneira diferente ao que vivenciamos na década de 1980), criando para os que não entendem nada de Ficção Científica um incrível paradoxo. Como é possível a emergência de um novo modo de vida (isso, “modo de vida“, já que deixou de ser um “estilo literário” faz tempo) cujas lentes se voltam para o passado, visto que estamos num dos melhores momentos tecnológicos da história da Humanidade?

Para alguns fãs do Steampunk, esta imersão maciça e violenta no mundo tecnológico de hoje em dia passa a ser algo apenas incorporado, absorvido, mas não plenamente compreendido. Cria-se assim um gap ou uma falha na experiência dessas pessoas em relação à tecnologia. E aí, meu caro filho cibernético, que voltemos então ao passado, cuja ideia de tecnologia e Ciência nós temos mais controle!

Mas calma lá, não que temos “mais controle” porque compreendemos plenamente como era a vida naqueles tempos, mas sim porque ainda estamos inventando a vida como era naqueles tempos, um jogo contínuo de bricolagens, idealizações e reinvenções. Por incrível que pareça, muitas pessoas hoje em dia acabam percebendo o universo da Revolução Industrial pela ótica Steampunk, mostrando que esse modo de vida já saiu das fronteiras muito bem demarcadas da Ficção Científica

Assim, não tenho lá tanta certeza se é o Steampunk que foi absorvido pela “cultura” contemporânea, pela lógica de mercado, como quiserem chamar… às vezes suspeito que é o Steampunk que está absorvendo o mainstream

Ok, nessa altura do campeonato eu imagino que você quer saber o que procurar, sobre onde começar no Steampunk. Sim, sim, não estou falando para você entrar no movimento e começar a se vestir com gadgets victorianos-futurísticos, mas pelo menos procurar maiores informações sobre tudo isso… vai acabar percebendo que é muito interessante.

Primeiramente, não posso deixar de citar a literatura de Ficção Científica, onde tudo começou. Seria muito interessante se você procurasse por três livros importantes, considerados “fundadores” da coisa coisa, sendo eles The Anubis Gates de Tim Powers, Infernal Devices do próprio K.J. Jeter e The Difference Engine, da dupla dinâmica Sterling/Gibson. Pretendo discutir estes livros separadamente aqui no Ao Sugo, conforme pedir a demanda.

Produção crescente, hoje temos Cherie Priest com contos curtos e a famosa série Clockwork Century Universe. Priest tem o (péssimo) hábito de misturar Steampunk com… zumbis… resultado que provou ser um hit dado o sucesso de seu primeiro livro Steampunk, Boneshaker. Já o escritor Scott Westerfeld abrilhantou a literatura Steampunk com a trilogia Leviathan, cuja ambientação se passa em plena Primeira Guerra Mundial. Está na minha To-read list do Goodreads, certamente.

Sobre filmes e seriados, também três idéias aqui… Antes de mais nada, muito foi visto do Steampunk no seriado televisivo super curto The Wild Wild West e no filme mais recente de mesmo nome, traduzido bizonhamente para o português como “As Loucas Aventuras de James West“. O interessante dessas produções é que mostram como o gênero saiu da Inglaterra victoriana e chegou no Velho Oeste americano, movimento que é transposto inclusive para outros países, dentre eles, o Brasil de tempos idos de Dom Pedro II. Vale a pena também procurar o filme Brazil (1985) ou mesmo a nova série Warehouse 13 que, apesar de ser toda moderninha, é ancorada em mistérios envolvendo o mundo Steampunk.

Caso você não tenha nenhum put* no bolso, também pode checar agora mesmo a famosa Steampunk Magazine, proposta bastante interessante em PDF que tem como meta “manter o Steampunk offline”, como algo palpável e desprendido do ciberespaço (apesar de continuar sendo… virtual… okey…). A revista em si tem contos, explica tudo bonitinho e é super elegante. Outra pedida é o App para iPhone/iPod/iPad chamado Steampunk Tales que, apesar de já estar na quarta edição, tem o número 1 disponível de graça com 4 contos. E por fim, ufa, corra atrás de Flash Gold, de Lindsay Buroker, livro Steampunk atualmente gratuito na Amazon (em ebook) que conta a história da inventora Kali McAllister no Canadá victoriano.

Após reunir uma imensa coletânea de livros relacionados ao Steampunk, passei pela incrível dificuldade em escolher qual ler primeiro. Diferentemente do Cyberpunk ou até mesmo do Biopunk (no livro de Bacigalupi), cujo imaginário não é assim tão difícil de criar e visualizar (óbvio, é sobre o nosso cotidiano hoje!), com o Steampunk a coisa fica mais complicada. Explico.

Aqui no Brasil não tivemos um passado absurdamente atrelado com a história inglesa victoriana, período em que geralmente se passam as histórias do Steampunk, apesar do movimento já ser bastante forte por aqui, com Conselho Steampunk e tudo mais. Ainda mais eu na minha geração (pera lá, ainda mais você também). E apesar de ter assistido muitos filmes para compor um quadro mental da estética da época, ainda assim é difícil. Como o Steampunk é uma releitura de um passado nosso que de fato existiu, é preciso caçar referências históricas e até mesmo visuais do período para ter uma compreensão mais completa da coisa toda.

A parte da História ok. Mas se faltam referências visuais, então pronto, é só assistir uma das melhores animações já feitas, Steamboy (スチームボーイ). Se tem algum lugar que consegue produzir o melhor já realizado no mundo da animação é o Japão; se tem algum lugar onde se discute com incrível perícia e conhecimento o estatuto da humanidade vs. tecnologia, também é o Japão; e se tem um diretor capaz de unir tudo isso em uma história envolvente, é Katsuhiro Otomo. Continua

Victor Hugo, hoje Steampunk

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

9 comentários »

  1. SHOW! O The Wild Wild West (ou, As Aventuras de Jammes West, como era anunciando na Record, aqui no Brasil) foi o primeiro que me passou pela cabeça. Inclusive o filme do Will Smith como vc mesmo salientou. Parabéns…a materia tá muito massa!

    • Opa Alex,

      Muitíssimo obrigado! São várias coisas legais para ver, inclusive o recente Steamboy (na próxima sexta sai um artigo sobre ele). A ideia era escrever um artigo informativo, porque boa parte dos meus amigos 1) não sabiam nada a respeito ou 2) conheciam, mas não como Steampunk.

      Fui pesquisar, ler livros e talz para escrever o artigo e acabei percebendo que o negócio é gigante demais pra passar despercebido… Por isso o texto.

      Mais uma vez, obrigado!
      Abração,

      Victor Hugo

  2. Muito interessante! Um amigo quer montar um grupo estilo Mary Shelley de escrita e eu sugeri o tema steampunk, esse texto vai ser uma mão na roda! (pun intended)

  3. Mais um post delicioso e nutritivo. Muito já se viu do steampunk no cinema (de forma sensacional e também de forma troncha, mas tá valendo) e é mesmo muito vasto esse universo, só com os títulos e autores mencionados tenho coisa pra ler por anos. É realmente mais divertido e curioso imaginar essa mescla no passado, que prever quão grande e estéril pode ser o futuro. Parabéns!

  4. Muito legal o texto, bem explicado a definição de Steampunk e ainda com boas referencias de filmes e livros. Recentemente fiz uma pequena pesquisa sobre alguns filmes Steampunk e encontrei algumas referencias (além dos já citados acima): De volta para o futuro parte 3; Atlantis o Reino perdido; O castelo animado(é meio fantasia com steampunk); A liga extraordinária (apesar de achar o filme ruim).
    Senti falta de falar sobre RPG (não sei se existe referencia na parte de jogos), é importante falar sobre Castelo Falkenstein e do D&D – Reinos de ferro.
    Esse último estou finalizando a leitura, e tem vários elementos do Steampunk com fantasia medieval, nesse caso a magia é um elemento que contribui para o desenvolvimento tecnológico, uma mistura muito legal e interessante que tem como pano de fundo um contexto que lembram as grandes guerras. O que faltam agora são jogadores.

    Abraços

    • Olha que ironia do destino… meu primeiro contato com o Steampunk foi com.. Castelo Falkenstein! Obrigado por suas impressões sobre este texto, tendo sido muito divertido quando escrevi. Atualmente estou lendo Vaporpunk, uma produção luso-brasileira Steampunk também muito legal… quem sabe vira review também! Legal saber que tem gente por aqui que curte o gênero…

      Abraços,
      Victor Hugo

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