Lembro bem que lá pelos idos de 1998, como trekker, era impossível ter acesso aos seriados Jornada nas Estrelas – A Nova Missão[i] e Jornada nas Estrelas – Voyager. Ah, as razões eram muitas, mas em tempos em que só era possível assistir aos pilotos de ambos os seriados em VHS lançados pela CIC Vídeo, nem o USA Network[ii] ou outro canal da televisão paga daquele momento tinha o interesse em trazer essas produções pra cá. Dessa forma, só nos restava acompanhar os desdobramentos dos seriados nas revistas e fanzines especializados, fora as convenções. E se não estivesse contente, dane-se, que engolisse muita reprise de Jornada nas Estrelas – A Nova Geração.

Não é preciso dizer muito sobre Deep Space Nine. Foi um seriado brilhante por atualizar o roteiro de Gene Roddenberry para uma trama mais densa e política no universo de Jornada nas Estrelas, sendo focada no dia-a-dia da Estação Espacial Nove. Sem esse spin-off da franquia trek, o que dava para fazer era tapar o buraco com Babylon 5, outro seriado de Ficção Científica e também numa estação espacial, exibido às tardes pelo Warner Channel. Tinha igualmente uma trama densa, roteiristas de peso e muito azar ao ser, na minha opinião, um seriado até hoje injustiçado.

Criação de Joseph Michael Straczynski, Babylon 5 é um entreposto espacial para manter a paz entre as diversas espécies alienígenas da galáxia. Se em Jornada nas Estrelas o Primeiro Contato com uma espécie alienígena, os Vulcanos, resultou em imenso sucesso diplomático, em Babylon 5 o primeiro contato dos humanos com os Minbari resultou numa guerra sangrenta que acabou de maneiras misteriosas. É, não vou soltar maiores spoilers sobre essa guerra, mas a coisa foi mais ou menos assim: depois de quase exterminar essa fracassada espécie humana, os Minbari simplesmente desistiram de terminar o trabalho, viraram as costas e falaram #partiu.

A partir de então se iniciou o projeto Babylon, a construção de uma estação espacial em território neutro cuja função seria de mediar e manter a paz entre os humanos e Minbari, como também fazer contatos com outras espécies. Parecendo realmente um projeto 100% humano, por questões políticas as quatro primeiras estações Babylon foram sabotadas, sendo a 5ª a única experiência de “sucesso” graças ao esforço mútuo dos humanos, Minbari, dos aristocráticos Centauri, dos religiosos Narn[iii] e especialmente dos poderosos Vorlon.

Orbitando o planeta Epsilon III, Babylon 5 é não só o único território neutro para todas essas espécies, como também fundamental nas questões políticas, diplomáticas e até mesmo militares. Eqüidistante dos planetas das espécies dominantes, Babylon 5 era facilmente acessada pelos portais do Hiperespaço, imensos construtos espalhados em toda a galáxia[iv] que alterava a relação entre o espaço-continuum e tornava possível as viagens interestelares. Justamente por ser longe da Terra, Minbar, Centauri Prime, Narn e Vorlon, os governos destes planetas perceberam a duras penas a importância desta estação espacial, crucial no bem-estar de toda a galáxia.

Apesar de Straczynski afirmar que já tinha o projeto em mãos desde 1989 quando levou a idéia para os estúdios de TV, as comparações com Jornada nas Estrelas – Deep Space Nine foram inevitáveis[v], perdendo em algumas brigas e ganhando em outras. Lançado poucas semanas depois de DS9 ir ao ar, Babylon 5 tinha desde o princípio temas centrais inspirados na formação de Psicólogo e Sociólogo do criador, trazendo temas e discussões bastante sérias para a televisão. Guerra, Religião, valores aparentemente universais e uma dimensão épica foram incorporados ao seriado com a ajuda de uma equipe de roteiristas bastante conhecidos, entre eles Peter David, Neil Gaiman, Kathryn Drennan, Larry DiTillio, D.C. Fontana, David Gerrold e Harlan Ellison, todos expoentes da literatura fantástica e, por incrível que pareça alguns bastante envolvidos no universo de Jornada nas Estrelas.

Quando lançou o pitch do seriado para os estúdios, por ser fã de Duna, A Fundação e O Senhor dos Anéis, Straczynski afirmou que achava que era chegada a hora de trazer para a televisão um seriado não só com profundidade épica, mas também com enredos complexos e intrincados distendidos ao longo de 4 ou 5 anos. Num momento em que a serialização[vi] dos seriados era fortemente desencorajada pelos estúdios, Straczynski dava um tiro no escuro e, querendo ou não, mudaria a cara dos seriados de Ficção Científica de até então. Com o imenso arco da guerra contra as Sombras, Straczynski[vii] mostrou que era possível trazer para a TV sci fi de qualidade, abrindo as portas para não apenas a serialização[viii] de Deep Space Nine como também para o hit de sucesso Battlestar Galactica.

Por várias questões de corte de orçamento e até mesmo problemas técnicos envolvendo formato, efeitos especiais e o desenvolvimento da trilha sonora, enquanto em Deep Space Nine nós tínhamos a nata da produção televisiva, seja em atores, diretores, roteiristas, compositores e artistas, para Babylon 5 parecia que sobrava a rebarba da televisão, ganhando comentários negativos até os dias de hoje. Além da péssima interpretação de alguns atores, até as famosas batalhas espaciais em CGI, inovadoras para o período, eram alvo de pirraça[ix] de telespectadores desatentos…

Injustiçada, Babylon 5 acabou entrando de maneira bem marginal no circuito cult televisivo, contudo, tenho notado que ainda é discutido entre os fãs fiéis daquela época que hoje conseguiram atualizar seus acervos particulares de VHS para DVDs. Apesar de ter rendido o spin-off Crusade, Babylon 5 não retornou mais à televisão, deixando saudades. Relevando[x] um ou outro episódio com roteiro realmente fraco e alguns detalhes da produção que infelizmente deixam o seriado datado[xi], desafio o leitor do Ao Sugo que, se assistir Babylon 5 inteiro, de cabo a rabo, não vá pelo menos reconhecer a grandiosidade da proposta de Straczynski. Deixo a elegante sugestão de se divertir com os embaixadores Centauri e Narn, os senhores Londo Mollari e G’Kar. Vale muito a pena.

Victor Hugo, candidato à vaga de Lennier

Notas:

[i] O que esse nome tem a ver com o original, Star Trek – Deep Space Nine? Não é preciso ser um exímio conhecedor da língua inglesa para saber que algo estava muito errado. Contudo, seria chover no molhado discutir a criatividade das pessoas que traduzem os nomes de filmes e seriados no Brasil, dando até um artigo à parte.

[ii] Que, como já comentado no artigo sobre o Sci Fi Saturday, era o detentor dos direitos de exibição de Jornada nas Estrelas na TV por assinatura. Sob controle da Globosat, já disse aqui como foram memoráveis as sessões de Ficção Científica do canal, pecando apenas pelas reprises infinitas da Série Clássica e da Nova Geração em tempos em que já tínhamos no exterior as temporadas restantes de TNG, além de DS9 e Voyager, já conhecidas na Argentina e que aqui só foram dar as caras em 1998~1999.

[iii] É simplesmente impossível escrever sobre Babylon 5 e deixar passar a relação entre os embaixadores Londo Mollari, de Centauri Prime e G’Kar, do Império Narn. Espécies que se odeiam há vários séculos por um histórico de dominação, escravização e guerras, estes personagens conseguem o feito impressionante (e isso é realmente impressionante) de reunir em si mesmos não só o alívio cômico do seriado, como também trazer algumas das questões mais sérias da trama, como o próprio desenvolvimento da Guerra das Sombras. Peter Jurasik interpreta o engalanado Londo, enquanto G’Kar fica brilhantemente nas mãos do já falecido e saudoso Andreas Katsulas, o romulano mais recorrente de Jornada nas Estrelas – A Nova Geração. Afirmo com grande certeza que Babylon 5 tem como imenso mérito a interpretação desses dois atores, não importando se o episódio é ruim, malfeito, etc. Vale a pena conferir.

[iv][iv] A idéia de Hiperespaço é velha e tem como universo mais famoso o de Star Wars. Contudo, até a guerra contra as Sombras, em Babylon 5 para se entrar no Hiperespaço era preciso usar um portal de entrada e um de saída. Esta mesma idéia de portais conectando o universo também é presente no anime Cowboy Bebop.

[v] Vale lembrar que ambos os seriados foram iniciados em 1993, devendo fazer um comentário importante aqui. Na grande maioria das vezes a primeira temporada de qualquer seriado representa um grande momento de experiência e testes: atores estão descobrindo os papéis, diretores o conceito, roteiristas buscam uma identidade para a produção, etc, etc, etc. Contudo, mesmo sendo trekker fervoroso e fã de carteirinha de Deep Space Nine, com exceção de alguns episódios bastante ruins, a primeira temporada de Babylon 5 apresentava uma proposta superior à DS9, seja na qualidade e complexidade das discussões teóricas, seja na apresentação do seriado.

[vi] Isso é bem simples de entender. Talvez por pura preguiça e descaso com os telespectadores, até o fim da década de 90 as emissoras preferiam comprar seriados cujos episódios fossem desconectados uns dos outros, facilitando a reprise e a transmissão: bastava colocar qualquer fita no player e pronto, a produção estava em syndication e catando audiência a esmo. A maior desvantagem deste formato era a impossibilidade de criar histórias complexas e desenvolver os personagens e ambientação. Babylon 5 e Deep Space Nine foram os primeiros a se prender firmemente em histórias e arcos longos, hoje quase que indispensável na televisão norte-americana.

[vii] Outra informação importante é que Straczynski escreveu 89 dos 110 episódios do seriado, tendo, portanto, um controle mais expressivo sobre a sua criação, além de ter redigido os roteiros de todos os filmes e criado as idéias principais de 9 dos livros lançados. Isso já era comentado em 1997, mostrando que, apesar dos problemas de orçamento, alteração de emissoras e tudo mais, o autor manteve fiel a proposta do seriado de cabo a rabo, o que hoje é quase impossível. Basta lembrar LOST para ver como a alteração dos roteiristas pode ferrar com todo um seriado.

[viii] Não sejamos injustos também com DS9, sendo que as duas séries foram contemporâneas. A idéia de “quem foi o primeiro” é bastante fraca para pensar e B5 e DS9, briga que durou por anos e que tem ecos até os dias de hoje. A verdade é que a idéia da serialização parecia surgir para todo mundo como um desdobramento lógico da produção televisiva do período, até que era parte integrante da proposta de Michael Piller e Rick Berman quando criaram DS9 justamente por saberem das dificuldades de desenvolvimento da ambientação quando estiveram envolvidos com a Nova Geração.

[ix] Babylon 5 não apenas ganhou prêmios de peso como o Hugo Awards por episódios, como revolucionou o mundo televisivo. Foi o primeiro seriado feito no formato Widescreen, o primeiro que incorporou o feedback da internet na produção, além de usar e abusar dos efeitos em CGI que na época ainda tinham bastante resistência, o que, hoje em dia é carne de vaca.

[x] Os nerds que me perdoem, mas se são capazes de relevar os efeitos porquíssimos da sagrada Série Clássica de Jornada nas Estrelas, Star Wars e tantos outros símbolos poderosos do mundo nerd de hoje, relevar B5 é o menor dos “problemas”. Depreciar B5 por conta da qualidade da produção em si é uma desculpa ranzinza de gente que não tem mais nada pra fazer.

[xi] E talvez um dos grandes trunfos de todos os seriados de Jornada nas Estrelas, produzidos de tal forma que até hoje suas histórias e discussões podem ser tratadas como “atemporais”.

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

7 comentários »

  1. Eu tinha deixado um monte de comentários nesta postagem semanas atrás… rsrs Vamos ver se eu lembro de tudo.

    Acho que B5 fez um serviço imenso à ficção científica televisa, pois ela quebrou o padrão de Jornada nas Estrelas e sua hegemonia. Nunca entendi porque falavam tão mal de B5 sendo que seu enredo era bem amarrado, com personagens fortes e com uma inovadora maneira de mostrar o espaço.

    Mesmo com algumas atuações questionáveis – o Dr. Franklin para mim foi um dos piores – acho a série divertida, bem feita, com ação e com um ótimo enredo, que mostra a sociedade humana do futuro como ela é de verdade: egoísta, gananciosa, que joga com o inimigo e perde muitas vezes. Mostrava a politicagem, as pecuinhas, tudo o que a gente vê aqui na Terra, mas que ficaram relegadas no universo trekker pela visão perfeita de mundo no futuro.

    Eu achava as relações dos personagens muito interressantes. Garibaldi se tornando um vilão do dia pra noite. Londo sendo um cretino arrogante num momento e depois ajudando G’Kar. Lyta Alexander, acho que a mais injustiçada da série, pois foi modificada por Vorlons, se viu desamparada várias vezes sem o suporte daqueles que sempre ajudava e quando tentou lutar por um lar para os telepatas, teve que ser exilada. Ou seja, é um universo rico demais e as pessoas criticaram sem ao menos entender o que se passava.

    Eu tenho todos os episódios no computador, estou sempre assistindo e matando a saudade. Abraço!😀

  2. Eu sou fã de ficção científica desde há muito tempo atrás, e adorava Babylon 5, aliás, quase todos filmes, seriados, livros, quadrinhos etc. Só queria acrescentar aqui um episódio (ou filme) de Babylon 5, no qual a estação é destruída (demolida). Não sei explicar, é como se tivessem explodido a minha casa, é como se tivesse perdido um amigo, é a mesma sensação que tenho quando acabo de ler um bom livro.

    • Eduardo,

      Obrigado pela visita. Lembro-me desse momento trágico e sempre me retornava à mente a destruição da USS Enterprise nos filmes de Jornada… realmente, é como se tivesse perdido um amigo. Era uma boa história…

      Abração,

      Victor Hugo

    • Além da sensação de perda, bateu uma tristeza, igual quando em Star Wars os clones recebem a ordem especial 66 e os jedis começam a ser assassiandos sistematicamente. Mas fico com uma dúvida, por que o Sheldon do The Big Theory implica com Babylon 5?

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