A pergunta que intitula esse post foi feita pelo Conde Dooku, antigo Cavaleiro Jedi – discípulo de Mestre Yoda e mestre de Qui-Gon-Jinn, que se tornou, após a amarga sensação de corrupção que assolava a República, um Lord Sith, discípulo de Darth Sidious – a Obi Wan Kenobi em Star Wars – Episódio II: O Ataque dos Clones. Talvez esta pergunta tenha muito a dizer sobre a Queda da Antiga República pelas mãos dos Sith

We are an Empire ruled by the majority! An Empire ruled by a new Constitution! An Empire of laws, not of politicians! An Empire devoted to the preservation of a just society. Of a safe and secure society! We are an Empire that will stand for ten thousand years!
―Imperador Palpatine

A Primeira e Sagrada Trilogia Star Wars (Episódios IV, V e VI) apresenta, desde seu início, o conflito político que alimentou boa parte da sua história. Estamos mais acostumados a assistir Star Wars através da jornada do herói, no conflito mitológico entre pais e filhos, na busca pelo mestre e no conflito entre valores associados ao “bem”e ao “mal”. Mas Star Wars é, também, a visão de uma galáxia sem liberdade política (com poucas e se existentes “garantias institucionais poliárquicas galáticas” diria Robert Dahl, autor clássico da Teoria Democrática, se fosse nerd.

Caso tenha curiosidade algumas teorias de Dahl, leia o post “La Democracia y sus criticos” de Robert Dahl: o debate entre a Democracia e a Tutelagem” que escrevi para o Poliarquias), no qual o Império, personificação da centralização hegemônica de Coruscant, impede, com a mais habilidosa coerção, o exercício da liberdade política. Logo no início do Episódio IV – Uma Nova Esperança, assistimos a prisão, na nave consular de Alderaan, da Princesa Leia. O próprio Darth Vader é o responsável por essa prisão e, posteriormente, pela tortura daquela que seria sua própria filha (ainda que não soubesse no momento).

O motivo da prisão? A nave consular de Alderaan continha planos secretos da Estrela da Morte. E mais: a Princesa Leia era uma rebelde e Darth Vader, já cada vez mais impaciente com a rebelião que crescia em “seu” Império. Embora fosse uma jovem senadora, a Princesa Leia recebia, um pouco depois, a notícia de que o Senado Imperial havia sido dissolvido pelo próprio Imperador. Nas palavras dos Imperiais a bordo da Estrela da Morte: “era o fim de um dos últimos resquícios da antiga República”.

E para tanto, para que ainda pudesse exercer o controle sobre a galáxia, o Imperador Palpatine nomeou os chamados Governadores por setores da galáxia. Nesse desenho político, o espaço para o exercício da participação e representação política estava extinto, assim como eram considerados extintos os Jedi. O resto da história deste filme e dos outros dois Episódios da primeira e sagrada Trilogia são conhecidos. E por isso, acho interessante mergulhar um pouco mais nessa relação intrincada entre poder político e sabres de luz nessa galáxia muito, muito distante.

Quando (re) assistimos a Nova Trilogia de Star Wars, é possível observar um processo de fragilidade política que assolava a República. E embora a antiga República fosse altamente agregadora, do ponto de vista de inclusão de sistemas em seus processos políticos, o regime encontrava-se sob forte tensão e com sistemáticas crises de natureza política e institucional. E uma das formas mais corriqueiras de se fragilizar um regime político é criar condições de secessão dentro de sua unidade política, no caso a República Galáctica.  É claro que a criação dessa secessão é fomentada pelo Dark Lord de Sith, Darth Sidious. E uma das suas ferramentas iniciais para esse processo é através da Federação do Comércio.

Se observarmos, na história “real”, é possível observar uma série de conflitos entre Estados e, nessa observação, verficar a existência de inúmeros conflitos onde o comércio foi o estopim para conflitos. Principalmente por barreiras comerciais erguidas entre países e consequências nefastas para muitas economias dependentes desse comércio. A falta de concertação política para a resolução de conflitos securitivos (sejam econômicos, nucleares,ambientais, etc) incrementa a necessidade, para os altos líderes governamentais, em requerer nas instituições mudanças significativas no modelo político. E basicamente, em Star Wars na sua Nova Trilogia, o que ocorre é a desestabilização política da antiga República através da baixa decisividade da Chancelaria do Senado, seu mais alto posto decisório da antiga República.

A demanda de muitos sistemas estelares por maior autonomia e mudanças políticas no desenho da antiga República terminou por estimular a secessão, ressaltando que a mesma foi orquestrada de dentro do Senado pelo então Senador e futuro Chanceler Palpatine. A demanda não atingida por reestruturação da antiga República fomentou as guerras clônicas. E é neste aspecto que é interessante observar o processo de endurecimento de um regime. No caso da antiga República, cria-se um Exército da República para combater os Separatistas. E ao mesmo tempo ocorre a concentração, cada vez maior, de poder nas mãos do Chanceler Palpatine. No desenho político da antiga República a instituição, pedra angular do regime, é o Senado.

É lá que reside a diversidade dos sistemas estelares e é no Senado que são debatidos meios, mecanismos de aproximação e cooperação entre os sistemas estelares. É, como ressalta-se sempre na Nova Trilogia, a democracia. E sabemos que para que haja realmente uma democracia, alguns pontos devem ser considerados: liberdade de organização é uma, eleições livres e idôneas é outra. São várias. E uma por uma começam a ser solapadas no processo de guerras clônicas. E, como já disse, a alta concentração de poder nas mãos do Chanceler Palpatine termina por estimular a ascensão de uma alta adesão corrupta em torno de “se acabar com a guerra”. No caso, sob qualquer custo. E isso só começa a ser percebido pelos Jedi  e alguns senadores tarde demais, quando o Chanceler Palpatine já articulava uma verdadeira rede de intrigas, ao melhor do cinema estadunidense sobre filmes de júri.

A queda da República não viria de melhor forma do que sob execução em massa daqueles que se posicionariam contra a mudança de regime, de República a Império. Não há espaço e tempo para justiça julgar,sé que num regime altamente corrupto poderia haver possibilidade de julgamento isonômico. Há apenas a motivação da guerra. E para o novo regime, os Jedi são o verdadeiro motivo da secessão da unidade política. Para existir este Império, não pode existir a Ordem Jedi.

O Golpe de Mestre de Palpatine, agora Imperador, é associar o conflito aos Jedi e isso lhe permite cooptar, de forma sutil, todo o apoio necessário para essa mudança de regime. Tudo em nome da segurança. E não é muito diferente de muitos discursos e ações mundo a fora pós 11 de Setembro. “Somos nós contra eles”. Atender demandas por maior liberdade dos sistemas estelares acaba por ruir o próprio sistema “democrático” que sustentava essas demandas. E a alta concentração de poder, sem controles, ausente de mecanismos de verdadeira accountability,  fomentou ainda mais a delegação de poderes do Senado para o Chanceler, estimulando o nascimento do Primeiro Império Galáctico.

Para fechar esse período da antiga República, nada melhor do que recorrer a Maquiavel, na Primeira Década de Tito Lívio:

“Se se trata de uma república, não há melhor meio de corromper os cidadãos do que introduzir dissensões entre eles. (…) a política de fomentar a dissensão divide também a república que a exerce.”

Parece que Palpatine fez um curso intensivo com Maquiavel. E passou com 10.

Excelente artigo de Ben Hazrael (Cabaré das Idéias), cedido gentilmente para o Especial Star Wars do Ao Sugo

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Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

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