Após o sucesso estrondoso da animação Clone Wars George Lucas sacou que poderia investir nesse nicho de animação em cima da Nova Trilogia. E é lógico que a coisa veio com tudo. Star Wars – The Clone Wars é o projeto mais recente dessa incursão da Lucas Limited no mundo da animação, agora Lucas Animation e sob as rédeas do fã Dave Filoni como diretor.

Totalmente em 3D e estilizando o traço da animação anterior de Gendy Tartakovzky, The Clone Wars aprofundou mais ainda a história de Anakin Skywalker e Obi Wan Kenobi em meio às Guerras Clônicas. Como parte da nova empreitada em animação digital, a nossa dupla ganhou uma parceira, a padawan Ahsoka Tano, uma togruta adolescente tão mais esquentada que o próprio Anakin, dando uma dinâmica bastante interessante aos episódios.

Mirando no público infanto-juvenil, The Clone Wars certamente tem uma pegada muito mais leve em relação aos filmes da saga, apesar do diretor Dave Filoni ser bastante enfático que busca em cada episódio trazer um ou outro elemento da Trilogia Clássica como forma de abocanhar os telespectadores mais velhos. Não é à toa que muito felizmente vemos o retorno do Yoda do Episódio V no seriado, assim como o resgate do humor de C3P0 e R2D2 que não apareceu nos novos filmes.

O projeto conta com a trilha sonora de Kevin Kiner para mostrar essa gritante mudança de perspectiva. Star Wars – The Clone Wars (Original Soundtrack) foi gravada pela The City of Prague Philarmonic Orchestra, execução primorosa que, no entanto, pode causar um grande espanto aos fãs mais tradicionais.

Se o uso e ênfase da percussão é o que diferencia a Nova Trilogia da Trilogia Clássica, nessa fase de transição Kiner aposta em uma alternativa mais ousada. O compositor reforça ao extremo a proposta da percussão, só que agora aliada a vários efeitos só possíveis com sintetizadores e programação seqüencial.

Calma. O uso de sintetizadores não é algo inédito no histórico da trilha sonora de Star Wars. John Williams, pai de umas das partituras mais famosas da história do cinema, já tinha apostado no uso de sintetizadores em Star Wars V – The Empire Strikes Back. Na faixa “The Training of a Jedi Knight/The Magic Tree” podemos observar um sintetizador modulando uma freqüência extremamente perturbadora, justamente para dar a sensação de falta de controle do Luke Skywalker quando ele depara com a ilusão de Vader nos pântanos de Dagobah.

Já em The Clone Wars Kiner perde qualquer tipo de freio na ousadia, com a utilização de instrumentos incomuns na tão consagrada trilha de Williams. O uso de um erhu (uma espécie de violino chinês), vozes femininas com dissonâncias típicas de países do Oriente Médio e até mesmo o uso de vários taiko, os famosos tambores japoneses, levam a trilha da animação para lugares jamais vistos.

A abordagem claramente aponta para novas direções, o que acredito ter sido proposital. Tamanhas são as adaptações e os constantes ritmos providenciados por percussão ou sintetizadores que deixam esta trilha sonora em particular como diferente de qualquer outra já produzida para a saga.

O telespectador já leva o primeiro choque com a adaptação do tema principal de Star Wars em “Star Wars Main Title & a Galaxy Divided”, ritmado com o uso de uma percussão expressiva e pomposa, porém com o tema em si totalmente sincopado, o que faz com que tenhamos a sensação de estar deslocado do tempo. A releitura é feliz e condizente com o contexto de franca batalha no planeta Christophsis, pegada que lembra e ao mesmo tempo se distancia de todos os temas militares presentes da Nova Trilogia.

Já em “Obi Wan to the Rescue” nós podemos ver a utilização de guitarras com distorção, técnica jamais utilizada no corpo principal das trilhas de Williams. O mesmo pode ser dito de “Ziro’s Nightclub Band” e “Seedy City Swing”, faixas que buscam o apelo às big bands norte-americanas como forma de retratar o bar contemporâneo de Ziro, O Hutt em Coruscant, porém realmente “estranho” para o universo de Star Wars.

Conhecido pelas trilhas de CSI: Miami, O Homem Invisível e Star Trek – Enterprise, Kiner foi bastante feliz na criação do tema de Ahsoka Tano em “Meet Ahsoka”, cujos maneirismos e uso de cordas e madeiras deixam essa faixa mais próxima das criações anteriores de Williams.

Não posso negar que uma das minhas músicas favoritas é “Admiral Yularen”, uma interpretação livre de “Lando’s Palace” (Star Wars V – The Empire Strikes Back Original Soundtrack), mas com o uso de naipes poderosos de trompas, trombones e trompetes aliados a uma marcha militar retumbante, até que é uma pena que a faixa tenha apenas 56 segundos.

Das 32 faixas, apenas quatro relembram – de forma adaptada ou então incidental – temas clássicos de Williams. Destas, destaco “Fight to the End”, cujo tema da Força é recuperado ao final de forma bastante interessante, culminando nos créditos. O tema traz o telespectador novamente para o universo de Star Wars e cria a expectativa para os episódios anteriores.

Posso até arriscar a dizer que Star Wars – The Clone Wars (Original Soundtrack) é mais agradável para os fãs de mente aberta do que os tradicionais, diante de tantas alterações e adaptações livres que retiram essa trilha sonora do já conhecido em Star Wars. A trilha em si é exuberante e executada de maneira primorosa, um feito muito impressionante para uma animação televisiva regular e que poderia ser facilmente transposta para qualquer grande filme de ação ou ficção científica… mas talvez não Star Wars

Victor Hugo, O Músico Bith da Cantina

Deixe um comentário elegante

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s