É muito engraçado como as coisas se conectam das maneiras mais imprevisíveis. Como todo bom nerd, é evidente que um dos percursos paralelos ao mundo dos Roleplaying Games que fiz foi jogar muito Hero Quest. Foram inúmeras as tardes de sábado e domingo jogando esse joguinho com o meu irmão, já que a minha irmã não se mostrava nenhum pouco interessada. Talvez ela estivesse certa naquele tempo ao evitar as portas abertas por Zargon.

Contudo, não vim aqui para falar de Hero Quest e nem RPG. Vim para comentar que tais partidas infindáveis de Hero Quest eram mais do que regadas com o Cartoon Network ligado no Sábado de Super Aventuras ou outro nome pomposo assim. Ao contrário das crianças imbecis de hoje em dia que só gostam de Ben 10, Padrinhos Mágicos, Bakugan ou outra idiotice imbecilizante do gênero, nosso caráter nerdroots” era moldado pelas atrações da Hannah Barbera. Não estou falando que as animações daquele bloco como Space Ghost ou Homem-Pássaro eram atrações mais inteligentes, mas por certo marcaram a infância e adolescência de várias gerações. Convenhamos: que raio é um Fantasma Espacial?

Isso eu acho engraçado. Se perguntarem para o meu pai algo sobre o Space Ghost, ele vai saber do que estou falando, assim como eu, da geração seguinte, também sei. Contudo, duvido que Ben 10 ou Pokémon possua esse fácil trânsito geracional. Os sábados e domingos no Cartoon Network pré-Boomerang resgatavam os clássicos dos estúdios dos Flintstones e Jetsons, hoje perdidos em algum buraco na programação de algum canal muito corajoso. Algum dia ainda escrevo algo mais elaborado sobre desenhos animados aqui no Ao Sugo, já que hoje o meu foco é outro.

Lembro-me que por um período o Cartoon Network exibiu durante a sua programação noturna uma atração muito, mas muito incomum. Imagine um talk show transmitido de outro planeta, sendo o apresentador o próprio Space Ghost, tendo como editor o vilão Moltar e Zorak como pianista/alívio cômico, sempre vítima do péssimo temperamento de Space Ghost ao final de cada programa. Leia “péssimo temperamento” como o raio elétrico que sai de seus braceletes espectrais… Aproveitando de cenas e recortes extraídos da animação original da década de 60, esses cartoons agora na vida real entrevistariam pessoas reais… genial, porém, poucas pessoas reconheceriam a inteligência daquela atração chamada “Space Ghost de Costa-a-Costa”, de 1994 pela Ghost Industries/Williams Street Studios.

Nesse período o canal oferecia uma programação original para telespectadores adultos que chegavam em casa depois da balada nas madrugadas das sextas e sábados e esperavam encontrar cartoons clássicos como Looney Tunes, Merry Melodies, Flintstones, Tom & Jerry e não esses testes de Rorscharch animados e adorados pela criançada de hoje. Contudo, entre uma paulada do Jerry no Tom ou do Pernalonga no Patolino, estes telespectadores eram surpreendidos com um dos heróis do passado trabalhando – em tese – como uma pessoa normal. Space Ghost deixava de ser uma lembrança ou pedaço de nostalgia para voltar à ativa e, o mais legal, mais próximo do nosso mundo adulto.

Verdade seja dita: as crianças e adolescentes que assistiam essas bobeiras no passado cresceram. Com o crescimento e amadurecimento veio para muitos a chatice inexorável que assola 99% dos habitantes deste planeta, enquanto heróis de 1935 como Super Homem e de 1939 como Batman continuam vestindo a cueca por cima da calça, conquistando evidentemente vários adolescentes desde aquela época. Confesso que apesar de ter sido colecionador de Quadrinhos no passado, hoje é impossível apanhar qualquer uma das minhas edições favoritas de X-Men e conseguir lê-la inteiramente. Cresci, virei um tonto e os meus personagens favoritos daquela época não cresceram comigo. Essa é a lógica da coisa.

Aposta genial de Mike Lazzo com o Williams Street Studios, o CN traria em 2001 o bloco Adult Swim, a variação adulta do canal de desenhos animados mais conhecido do mundo televisivo. Ao contrário do Nick at Nite, que desde 1985 exibia à noite no Nickelodeon a reprise de seriados das décadas de 60, 70, 80 e 90, o Adult Swim ia – e foi – mais longe. O que teria acontecido com heróis como o Homem Pássaro, famoso no fim da década de 60 por salvar o mundo de vilões maníacos com a ajuda de um falcão azul? E onde se encaixam os futurísticos Jetsons no nosso mundo, sendo que ainda estou para ver a paisagem urbana cheia de arranha-céus malucos? E a família Quest?

E assim, há muito tempo e num reino distante chegou o Adult Swim, hoje [adult swim], cuja programação noturna começou com a reprise de Space Ghost de Costa-a-Costa e a introdução fantasticamente genial de Harvey Birdman – O Advogado, Laboratório Submarino 2021, O Show de Brak, Aqua Teen Esquadrão Força Total, Mission Hill, Frango Robô, entre outros, cada um merecendo de verdade posts individuais no Ao Sugo. E quem diria… Space Ghost reinava como entrevistador irreverente de talk show, o Homem Pássaro abandonava o mundo das perigosas aventuras para combater a injustiça como advogado, o temível vilão Brak faria parceria com Zorak numa soup-opera americana. O universo de Hannah Barbera ressurgia de maneira impressionante para nós, telespectadores daquela época que, felizmente ou infelizmente, cresceram.

Considerado como uma das melhores atrações animadas deste começo de século, não podemos falar pouco de Harvey Birdman – O Advogado. Como já dito no começo deste post, a animação “Homem Pássaro e o Galaxy Trio” (1967) chegou ao meu conhecimento nas tardes de sábado e domingo no Cartoon Network. Com uma máscara maluca que não dá para não ligar com a de Wolverine, era irritante ver o herói – com a cueca por cima da calça – berrando na dublagem de Márcio SeixasHooooooooooooooooooooooomem Pássaro” como grito de guerra ao sair de um vulcão. Naqueles idos de 1994 e 1995 era certamente uma das animações mais odiadas por mim do bloco inteiro, apesar de não ser nada original. Idéia de Phil Barbera, chefiado pelo magnata caolho Sebben, o Homem Pássaro era auxiliado pelo falcão Vingador contra Reducto, Duplicador, Mentok, entre outros vilões medíocres com planos não muito espertos.

Cansados dessa vida bandida, Harvey Birdman retornava como um célebre advogado de defesa no mundo dos cartoons, agora no escritório de advocacia Sebben & Sebben e tendo como assistentes o Homem Pássaro Jr. e um Vingador muito paciente. No seu cotidiano encontraria o paranóico Dr. Myron Reducto como advogado da acusação, além de Mentok como juiz e o Duplicador como o responsável pelas cópias do escritório, em casos como a disputa pela custódia de Johnny Quest e até mesmo o processo de falsidade ideológica entre vários personagens da Hannah Barbera que são exatamente iguais ao Salsicha de Scooby Doo. Terminado o atribulado dia em prol da justiça, Harvey e o Vingador tomavam umas cervejas no bar do primeiro andar, como toda pessoa normal. O nome do bar? Gaiola das Loucas.

Entre uma atração ou outra o Adult Swim alternava vinhetas sarcásticas em resposta ao feedback dos fãs, sempre marcadas pela tela preta e uma frase no centro em branco (olha a homenagem do Ao Sugo aí em cima). No Brasil foi uma atração que passava às noites do fim de semana, com a repetição da programação do dia para os retardatários de plantão, com a exceção que por aí não exibiam animes, como no Adult Swim original norte-americano. Fazendo alusão ao horário noturno do fim de semana da piscina do condomínio (swimming pool… hein?) reservado aos adultos, a programação noturna do CN nos divertia com o sarcasmo e sem muito medo da censura, afinal, quem estava assistindo a tudo aquilo eram os adultos. Alguns adultos, alguns adultos.

A receptividade do Adult Swim brasileiro aparentemente não foi tão expressiva, ao ponto que hoje não temos a genial programação nas terras de cá. A indisponibilidade desta programação em DVD, assim como a busca dos fãs pelos episódios no Youtube dublados em português só marcam, por fim, não o encerramento, mas o enterro da animação inteligente no país, território onde aparentemente fica marcada a expressão de que “desenho animado é coisa para criança”. Volte, Adult Swim. Sentimos imensamente a sua falta.

Victor Hugo

Imagem de cabeçalho: homenagem ao Adult Swim

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6 comentários »

  1. Era simplesmente genial e me fazia esperar ansiosa pelas noites de sábado. O Victor, como sempre, consegue colocar brilhantemente todos os nossos sentimentos e conclusões em um post. Saudades de todos esses programas e apoio um movimento pelo retorno deles.
    Vinhetas divertidas, paródias hilariantes e inteligentes, diversão diversão garantida.

    Volta Adult Swim!!

  2. Chegamos à conclusão de que: estamos ficando velhos e será muito difícil compartilhar as coisas boas e sutis da vida com esta nova geração sem imaginação e que possuem, como nível máximo de abstração, heróis viciados em Shoppings Centers…
    Seria triste pensar como seria os próximos anos de nossas vidas convivendo com essas pessoas, mas, como 2012 está aí, eu fico mais tranquilo….hahaha

  3. Caramba, como era bacana assistir a devassidão animada do adult swim. Harvey, o Advogado era fantastico demais. A aparição dos Jetsons em meio a um cenário de mudanças climáticas foi bacana demais!
    Realmente faz falta!

  4. era realmente genial,mas se um dia ele voltar seria se space ghost e harvey birdman,pois acabaram como o laboratorio submarino 2021 entre outros.Sobraram frango robô e aqua teen hunger force

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