E aqueles elfos no Forte da Trombeta em Duas Torres? Já não tinha tido a Última Aliança entre Homens e Elfos no passado, como falou a Galadriel no começo do filme? Então o que aqueles malditos elfos estão fazendo lá no forte?

Atualizado – Victor Hugo, Coronet, Corellia. Camaradas, falarei do assunto mais cabeludo e intragável para muitos nerds, tema que justifica separações conjugais, brigas ferrenhas entre amigos, guerras interplanetárias e em casos mais extremos, implosões estelares tal qual uma Supernova louca e alcoolizada. Como um maldito desatento à boa etiqueta e convenções sociais que fala as coisas sem se dar conta do estrago posterior, hoje discutirei com vocês o caso do canonismo e da continuidade nos universos nerds!

Antes, uma palavrinha aos não-nerds que, muito provavelmente, não conseguem entender a importância dessa discussão. Os nerds são assim chamados por apreciarem e se aferrarem a universos fictícios de maneira ímpar: trekkers, excers, fanboys, tolkienianos, whoviansasimovianos, etc, todos compartilham de uma grande admiração por obras muito específicas, acumulando o máximo de conhecimento possível acerca desse ou daquele universo. Assim, os trekkers são conhecidos por saberem tudo o que já foi falado em 45 anos de Jornada nas Estrelas, tal como os tolkienianos que podem gastar horas em uma mesa de bar argumentando sobre os detalhes obscuros dos apêndices de O Senhor dos Anéis.

Universo Expandido

Daí a importância para os nerds da constituição de uma continuidade dentro desses universos. Nenhum nerd gosta de ver bagunçado aquilo que levou anos para acumular em árduas noites de sextas-feiras por não terem namoradas e em dolorosas tardes de sábado e domingo por não terem vida social. Como um hobby legítimo (megalomaníaco), honesto (monstruoso) e louvável (sem fim), é bastante frustrante encontrar descontinuidades e erros dessa sorte. E acontecem, acreditem em mim.

Mas o Obi Wan não tinha dito que Darth Vader matou o pai do Luke? E que papo é esse de que Anakin Skywalker partiu em uma cruzada idealística? Eu dormi nessa parte do filme?

É bastante comum no meio nerd ouvirmos as expressões “Cânon” e “canonismo” para guiar (ou não) a existência harmoniosa de todos os elementos dentro desses universos fictícios. Não, não se engane: apesar da incrível capacidade imaginativa dos nerds, este termo não foi criado por eles, mas sim emprestados do campo das artes e da filosofia grega. “Cânon” ou “canonismo” é o conjunto sistemático de regras que definem a constituição, legitimidade e veracidade de um campo de conhecimento ou pensamento. Que esse papo de “Cânon” tem um pezinho na religiosidade todo mundo sabe, como aquele formado pelos dogmas de tal e tal religião… se o que temos a ser dito foge destas regras ou dogmas, então é algo apócrifo, ou seja, “de fora” do clubinho.

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Isso tudo vale para os nerds com a mesma importância que os crentes dão para suas religiões. É extremamente – reafirmo, EXTREMAMENTE – importante para um fã de Jornada nas Estrelas encontrar uma continuidade e estabilidade no universo de Jornada conforme vão saindo episódios do seriado de TV, histórias em quadrinhos, livros, etc. É importante que um personagem consolidado de Jornada nas Estrelas – A Nova Missão reapareça em quadrinhos e livros da mesma ambientação… é crucial para um fã de Tolkien poder listar naquelas infindáveis relações de nomes e personagens o que estão fazendo, onde nasceram, onde morreram e por aí vai…

Ok, Zefram Cochrane inventou a dobra espacial e foi um dos maiores cientistas que a Terra já teve em muito tempo. Mas quem é aquele cara totalmente bêbado em Primeiro Contato?

Para tanto, os estúdios de TV, cinema e os próprios criadores desses universos mantém um cuidado constante com as coisas que estão criando. Existem profissionais que são de fato contratados por estes estúdios para garantir que tudo tenha a maldita continuidade e o tal do canonismo. Alguns estabelecem regras estritas para a forma como o universo se expande, como também tem outros que criam apenas diretrizes gerais para o desenvolvimento destes universos. Aham, nerds estão realmente acima das preocupações mundanas, pois estão é preocupados com a expansão de seus vários universos. Mas nem tudo é um mar de rosas…

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Tolkien foi um do nerds que começou a criar o seu mundo no front da Primeira Guerra Mundial. Lá redigiu lendas, mitos e contou histórias de heróis mágicos, compilou, escreveu, compilou, escreveu, compilou e hoje temos um dos maiores universos nerds de todos os tempos. O trabalho do canonismo não se transformou em problema, pois, toda a trama foi pensada e criada pelo próprio Tolkien, trabalho que foi reorganizado pelo filho nos anos posteriores. Por não ser um universo que passou de mão em mão como assim acontece com Star Trek e Star Wars, chega a ser nonsense apontar uma questão “canônica” em Tolkien, com exceção das variações e versões alternativas escritas pelo próprio autor em apêndices e livros complementares. Contudo, quando você inventa o tal do merchandising e lucra horrores de dinheiro expandindo esses universos pelas mãos de outras pessoas, a coisa muda de figura.

E o que é isso de selo LEGENDS que estão tanto falando em Star Wars? Vale ou não vale?

Falemos rapidamente de Star Trek. Ambientação criada por Gene Roddenberry em 1966, o universo trek é um dos mais prolíficos que existem na atualidade, sendo considerado até mesmo pelos não-nerds como ícone da cultura pop. A idéia começou num malfadado seriado de TV, que depois ganhou desenho animado, livros, quadrinhos, mais seriados televisivos, filmes, jogos, contudo, expandindo-se de modo absurdamente desorganizado. Em tese, em Star Trek apenas os seriados televisivos e os filmes oficiais que podem ser considerados “canônicos”, o que dá uma grande raiva quando você lê um livro da franquia e percebe que o seu esforço intelectual de enfrentar 300 ou 400 páginas foi totalmente em vão. Em tal livro um autor aleatório decide criar novos personagens e matar personagens importantes, com eventos totalmente sem relação com o que aconteceu na TV ou no cinema.

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Apesar da “regra ser clara” quanto ao canonismo de Star Trek, os próprios episódios e filmes da franquia às vezes se contradizem. Klingons com problemas de baixo orçamento na maquiagem e ganchos soltos minam volta e meia uma aventura, mas trekker que é trekker releva tudo. Ou quase tudo. Quanto ao revival da franquia por J.J. Abrahms, ao invés de enfrentar um universo de 45 anos de existência e tentar respeitar o mínimo das próprias regras do canonismo na franquia de Roddenberry, Abrahms e seus roteiristas optaram pela saída preguiçosa do “reboot”, quando você “zera” tudo o que aconteceu até então. Trekker que se preza, que dedica anos de suas vidas estudando e apreciando a franquia de Jornada, deveria nutrir ódio profundo pela brincadeirinha de mau gosto de Abrahms.

O quê? Anakin Skywalker construiu o C-3P0 na infância e não consegue reconhecer sua criação anos depois? E pior: Obi Wan está ga ga ao não se lembrar do R2D2? Amnésia galática…

Já em Star Wars a coisa muda de figura, e muda muito de figura mesmo. Criação genial de George Lucas, a saga da família de Darth Vader é devidamente organizada, relacionada e listada em um escritório perdido lá no Rancho Skywalker. Como Lucas abriu as portas para a criação de histórias e aventuras alternativas aos seis filmes, ele decidiu criar com a Lucas Licensing um departamento que estipulasse regras de canonismo bastante rigorosas. O famoso Universo Expandido de Star Wars corresponde a todos os livros, seriados televisivos, bonequinhos e joguinhos lançados que complementam o que apareceu na telona, mas tudo deve respeitar rigorosamente as ordens do cânon.

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Com a compra da Lucasfilm pela Disney em 2014, muita coisa mudou quanto ao canonismo em Star Wars. Em nota oficial, a nova direção da Lucasfilm decidiu abandonar o Universo Expandido, relegando-o a uma linha narrativa paralela chamada Legends, enquanto o novo cânon estaria nas mãos do recém-nascido Lucas Story Group. Hoje em dia, seguir Star Wars para além dos filmes e animações televisivas, se tornou, muito infelizmente, uma questão de escolha. É comum encontrar fãs que ignoram o novo canonismo de Star Wars em prol do antigo Universo Expandido, assim como o contrário.

Então foi a Princesa Leia de roubou a nave imperial de classe Lambda que aparece no Retorno de Jedi? Mas onde apareceu isso?

Uma crítica muito comum que se escuta quanto ao antigo Universo Expandido nos dias de hoje é que “para quê eu vou ler e conhecer se não vale mais nada?”. Querendo ou não, a decisão da Lucasfilm em “resetar” o canonismo em Star Wars criou uma distorção que é efeito de sua própria estratégia de marketing controladora. Diferentemente dos livros e quadrinhos de Star Trek, que sempre soubemos não valer nada perante aos seriados e filmes, a Lucasfilm optou por manter duas linhas de narrativas como “oficiais”, canonizando uma em função de outra. Como digo por aí, o mercado é grande para ambos os tipos de fãs, contudo, não se pode negar o tamanho do estrago feito no fandom, deixando vários fãs a ver navios quanto a personagens memoráveis que, muito simplesmente, deixaram de existir.

Ok, muitos podem se perguntar sobre a relevância ou pertinência de tal briga pelo canonismo no mundo nerd. Mas que porcaria é essa, pra quê tanto burburinho? Bom, isso tudo é justamente o que marca e caracteriza os nerds como um grupo muito específico e especial, um dos únicos grupos (remanescentes) que ainda se preocupa em sonhar, em imaginar novos mundos, novas civilizações, audaciosamente indo aonde ninguém jamais esteve. E fazem isso paralelamente com suas vidas normais como qualquer outra pessoa, trabalhando, ensinando, estudando, etc. Mas tem que ser tudo arrumadinho, organizado… está achando que é fácil agora criar mundos do zero assim é?

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Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

1 comentário »

  1. Então, eu acho que sempre que há um reboot precisamos avalia-lo de uma forma menos hater, ou pelo menos como “- fã” e “+ analista” (como se fosse possível desligar, mas ok).
    Mexer em um cânone é complicado por isso – eu curto uma linha lógica entre tudo, outros pouco se importam. A proposta (e gosto de invocar essa carta sempre que converso sobre coisas do mundo nerd, principalmente), vem a calhar para angariar novos fãs, fãs despreocupados com o “passado tão tão distante”, no caso, de Star Wars. E acho que, raras exceções, só os fãs que vêm desde lá de trás trazem esse gosto por ter tudo, ler tudo e conectar as informações.

    Como grande fã, eu gostaria de uma continuidade, mesmo que você queira romper com o passado, mas rompa com sutileza – coloca, sei lá, um século após os acontecimentos principais, o mainstream da linha do tempo. E pronto, ninguém fica por aí soltando fogo, raios e trovões.
    Por fim, e não tão conclusivo como gostaria de ser, diria que eu gosto de entender a mudança – explicação, explicação sincera e direta, nada de “mudança de direitos”, “mudança de empresa”. Um simples “porque quisemos assim” me contenta, porque eles constroem e pronto. Me contenta, pois, eu saberia que teria que desligar o que conheço do que virá. Algo à la Final Fantasy, ou qualquer game historicamente famoso ganhar um remake – ter aquele apreço único guardado no coração, mas saber que os tempos mudaram, e as mudanças serão para uma melhor visão. Não apenas transferir graficamente algo. Sei que no mundo cinematográfico – e principalmente Star Wars -, isso se torna um argumento até fraco, mas porque não ser otimista? Ou melhor, porque não tentar criar novas linhas temporais, novas hipóteses e novas teorias? Talvez isso seja ainda mais interessante, se bem aproveitado porque quem gosta, não porque quem produz e determina.

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