Daytripper é uma obra tão espetacular que custou um ano e meio para ser processada pelo meu cérebro antes de virar um post aqui no Ao Sugo. O incrível feito dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá elevou o patamar dos quadrinistas brasileiros para um lugar jamais visto, estando agora no prestigiado e seletíssimo rol de escritores como Neil Gaiman e Alan Moore. Sim, a dupla brasileira publicou no exterior pelo selo Vertigo e mereceu um Eisner pelo brilhantismo que infelizmente não é percebido por todos nestas terras tupiniquins.

O empurrão para finalmente resenhar Daytripper para o Ao Sugo partiu da leitura de uma resenha de um consumidor da Amazon. Começava o rapaz dizendo que Daytripper é um livrinho um tanto quanto misterioso, o que devo concordar em número e grau. Consegui entrar em contato com o primeiro número pouco depois que saiu, o que me deixou estupefato. Primeiro foi o choque de ver dois brasileiros encabeçando um título da prestigiadíssima e minha-toda-querida-e-amada Vertigo. E depois disso, bem, o que começou como uma historinha bastante mundana logo no primeiro fascículo se desenrolou num turbilhão de pensamentos e questões desconexas… O quê esses caras estão querendo? Onde isso vai parar? Parece tão simples… como esses caras podem encabeçar um dos títulos mais importantes da década com essa historinha da vida de um paulistano?

Concebida, escrita e ilustrada pela dupla de artistas mais promissora do país no mundo dos quadrinhos adultos, Daytripper é uma minissérie composta de 10 publicações individuais, recentemente ganhando sua versão em TP (trade paperback) norte-americana e a versão em capa dura no Brasil, sem contar inúmeros outros países que puderam apreciar a história do paulistano Brás de Oliva Domingos antes que muita gente por aqui. Sim, a história toda se concentra na vida de Brás e nos seus percursos do dia-a-dia, acordando, tomando o café da manhã na padaria perto de casa, levando o cachorro pra passear, lendo o jornal do dia, trabalhando, viajando, atendendo aos telefonemas dos pais.

Não, isso aqui não é Seinfeld, não estão falando sobre nada. Os irmãos estão é falando sobre tudo. Tudo o que mais importa, a vida. Conforme o leitor vai avançando pelas páginas lindamente aquareladas de Daytripper ele vai se confrontando com eventos desconexos: a narrativa não é linear. Em um capítulo Brás tem 32 anos. No outro 21. No outro 28. Pra piorar, em todos os capítulos ocorre um plot-twist dos mais impressionantes que já vi, como que um tapa na cara do leitor o relembrando sobre o tempo que está perdendo ao não saber reconhecer a importância das pequenezas e miudezas da vida. Desse modo, concordo com o resenhista da Amazon: Daytripper no começo confunde. Joga na tua fuça vários momentos da vida de Brás em capítulos aparentemente desconectados um do outro, só aumentando a aura de mistério da minissérie.

Confesso que impressiona ver o excesso de detalhes comuns do cotidiano brasileiro nas páginas de uma publicação desse selo, reconhecida por trazer ao mundo Sandman, Watchmen e tantas outras belezuras. Como disse Fábio Moon no final da publicação, uma das maiores preocupações dos irmãos é embasar a história de Brás na realidade, dando uma textura absurdamente impressionante para quem lê.

“Pessoas morrem todos os dias. Esse era o pensamento mais reconfortante que Brás tinha enquanto todos os obituários que escrevia para o jornal passavam por ele.”

Por várias e várias vezes eu lembrei (ou imaginei) estar naquelas calçadas desenhadas por Moon e , sentar naquela mesma padaria e pedir um pingado, conversar com aquelas pessoas… Isso acontece porque, primeiro, muitos daqueles lugares eu pude visitar e sei que é aquilo mesmo, sem tirar nem pôr… e se não existem, eles são tão emaranhados com elementos da nossa realidade cotidiana que é praticamente impossível não imaginar aquilo tudo como parte do nosso mundo. Em segundo lugar, e talvez o mais importante, Daytripper está falando sobre nós. Não está falando de humanos com super poderes, de um norte-americano em Nova York, Gotham City ou Metrópolis… está falando sobre o João lá da esquina que a gente encontra todos os dias quando passamos por lá, está falando da Maria que nos atende naquela recepção, do Pedro  que nos serve um café e um pão na chapa, da Roberta que nos acompanha todos os dias no trabalho.

Nesse processo todo eu me enchi ridiculamente de certo orgulho ao ver o cotidiano brasileiro retratado nas páginas de um título da Vertigo, o cotidiano brasileiro que não tem a ver só com favelas e guerras aos traficantes cariocas, seca no nordeste, futebol, Ronaldinho e carnaval, mas o cotidiano mais próximo da minha e da sua vida. Fábio Moon e Gabriel Bá deixaram com seu lápis e sua aquarela o mundo mais tangível e, talvez até seja por isso mesmo, que fui profundamente tocado pelos temas e situações apresentadas. Não são situações limite dos filmes brasileiros, as realidades inventadas das novelas ou o mundo sempre alegre das letras de samba, mas situações que realmente acontecem com nós todos os dias. Daytripper mostra em cada página os nossos pequenos deslizes, os nossos erros, os nossos arrependimentos, alguns por atos ou decisões equivocadas, outras pela nossa própria imobilidade e omissão frente a eventos importantes que acontecem nos nossos dias.

Como bem sabem Marcus Vinícius e Ben Hazrael, uma das séries em quadrinhos que considero uma das melhores já idealizadas é Sandman e seu spin off envolvendo a Morte, como já apresentada aqui no Ao SugoNeil Gaiman pôde me ferir profundamente com sua história elegantemente elaborada, trazendo momentos em que Filosofia, Literatura, Religião e Metafísica dançam aos olhos do leitor como que numa brincadeira pueril. Destas, e talvez aí valha a pena ao leitor ler o respectivo post por aqui, é a Morte que mais me impressiona, sendo aquela garota gótica que todo mundo adora e que adora a todos. Durante todas aquelas páginas só se fala sobre a Morte, mas a Morte na verdade está falando da importância sobre a vida, elencando uma qualidade existencialista que só se encontra em Sartre, Camus ou num dos meus favoritos, Vergílio Ferreira. E eis a genialidade, trazer esse tipo de reflexão para um escopo mais amplo de leitores que talvez nem conheçam tais autores, mas que estão agora pensando nisso tudo com outros olhos.

Daytripper igualmente fala sobre a mortalidade e a efemeridade das coisas que acontecem durante as nossas vidas. Ok, estes termos infelizmente são discutidos (e distorcidos) das maneiras mais banais possíveis em livros de auto-ajuda, horóscopo nos jornais e programas matinais, merecendo então uma atenção redobrada agora. Sim, a gente morre, não se engane. E sim, a efemeridade é um ponto absurdamente importante que regula as nossas vidas e não o contrário: tolo é aquele que se prende na idéia de uma existência indissociada com o entorno e, pior ainda, acredita piamente numa inexorável estabilidade dessa existência como se isso tudo fosse imutável. Tolo não, me desculpe. Imbecil mesmo.

“Não é estranho como nos lembramos das coisas mais triviais do nosso cotidiano e, ainda assim, constantemente nos esquecemos das coisas mais importantes?”

O mais impressionante é ver essa discussão trazida ao leitor por um redator de obituários de um jornal paulista. Não sei até que ponto esse Brás de Oliva Domingos tem ou não alguma ligação com o falecido Brás Cubas de Machado de Assis, mas ele está lidando com a morte todos os dias, esquecendo-se, no entanto, de viver. Mortalidade e efemeridade são pontos aqui apresentados pelo “Genarinho”, dono de bar, por sua esposa Ana, por sua mãe, por seu cachorro Dante, por seu melhor amigo… ou seja, não são as entidades metafísicas de Gaiman, mas gente real que a gente faz o possível para ignorar ou não dar tanta bola na maior parte do tempo, ou então, para (não) ser mais cruel, que só ligamos quando nos convém. E por isso que ao final da minissérie eu chorei, um choro desmedido que não tive quando li e reli as histórias da Morte.

Daytripper alcançou já a 5ª edição nos Estados Unidos pela Vertigo, selo de quadrinhos adultos da DC Comics, além de ter sido lançada há pouco em francês. Infelizmente não posso falar da versão nacional visto que a minha é a original em inglês, contudo, Daytripper é ao meu ver uma narrativa que deve ser lida por todos, amantes de quadrinhos ou não. A série ganhou o Eisner de melhor minissérie, um dos prêmios mais respeitados (senão o mais respeitado) do mundo dos quadrinhos. E mereceu. Agora, me diz você: quais são as coisas mais importantes da sua vida?

Victor Hugo, desperto

Imagens: reprodução de algumas ilustrações de Fábio Moon e Gabriel Bá para Daytripper.

Citações: trechos traduzidos livremente da edição trade paperback de Daytripper (original em inglês).

Leia mais: leia agora o post totalmente relacionado sobre a Morte de Neil Gaiman.

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

2 comentários »

  1. A melhor série em quadrinhos que já tive a sorte de ler. De forma única ela aborda nossa anestesia social, nossa mentalidade imediatista em que o agora nunca chega, ou não é suficiente. Faz você rever sutilmente aspectos da sua vida para ao final despertar a vontade de saborear as minúcias do dia a dia.

    • Concordo plenamente. Neste final de semana participamos de um evento de Anime e Quadrinhos e Daytripper foi uma indicação minha na palestra. Fiquei bastante feliz ao ver que Ba e Moon agora estão trabalhando com o Mignola no BPRD… muito legal saber que ganharam de vez reconhecimento lá fora, sendo Daytripper o trampolim. Agradeço pelas suas impressões!

      Abração,
      Victor Hugo

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