A expressão que mais ouvi sobre o sétimo livro da série do bruxo britânico (já não vejo mais razão para chamar o marmanjão Harry Potter de “jovem bruxinho”, já que neste último livro ele aparece com 17 anos e posteriormente muitos anos mais velho) foi “previsível” ou “previsível demais” ou “bastante previsível”… bom, digo eu então, “que bom, não?”

Criado originalmente para um público infanto-juvenil, acredito que nem J.K.Rowling, criadora da série, esperava que o livro fosse um sucesso arrebatador entre nós – os mais velhos, alguns motivados pelos filmes ou outros motivados pela curiosidade ao ver tanto livro desse tal de Harry Potter saindo das livrarias. Confesso que comigo foi o primeiro caso.

Lembro-me quando fui ao shopping daqui com minha mãe, meu tio, meu irmão e minha irmã ao cinema bem na época em que passava Star Wars Episódio I e, por conta da minha mãe nem meu tio nem minha irmã gostarem da space opera de George Lucas (que pena para eles), acabamos tendo que optar pela sala em que passava Harry Potter I, dublado. Cheio de pôsteres e um grande Espelho de Ojesed de mentirinha na frente do cinema, Harry Potter e a Pedra Filosofal parecia apenas outro hit de verão para a criançada, até que entrei na sala naquele dia com a maior cara de tacho. “Tsc, sério que vamos ver isso aí? Mãe, pra piorar, o filme tá dublado!”

Óbvio que não adiantou reclamar e acabei ficando com o Harry Potter. Até então não tinha contato com aquela história, até que na primeira vez que vi, admito que fiquei bastante feliz, não pela adaptação, pela produção, etc, mas sim pelo retorno do gênero da fantasia nos cinemas que, todo mundo sabe, vinha minguando desde então. E não falo do mundo da fantasia como do Senhor dos Anéis ou Nárnia, épicos, grandiosos e também bastante austeros, mas sim daquele mundo da fantasia descompromissado, como o de Alice no País das Maravilhas em que, ao virar cada página do livro ou ver uma nova cena, você realmente fica surpreso ao conhecer tanta coisa nova – e às vezes maluca demais – da mente do autor. Efeito fantástico me causou os Feijõezinhos de Todos os Sabores Bertie Botts e o Beco Diagonal, nossa, o Beco Diagonal… O quê que era aquilo, povo? Você cutucava num muro em 5 pontos específicos com uma varinha e ele se abria pra um beco infestado de coisas fantásticas e tinha corujas e tinha vassouras voadoras e tinha roupas de magos e tinha lojas de doces e, nossa quanta coisa… Encontrei em Harry Potter uma qualidade – pelo menos nesse sentido – que achava estar desaparecendo nos textos fantásticos, eis um grande apelo.

Foi esse tipo de detalhe que me levou pra febre de Hogwarts e afins. Saí do cinema (era noite, bem perto do Natal) extasiado, já procurando pelos livros, aí comprei primeiro o Harry Potter e a Câmara Secreta justamente porque o primeiro estava esgotado… Aí fui ao cinema de novo para me certificar de tudo o que tinha visto antes e ficar extasiado de novo e achei o primeiro livro para comprar. Desde então li todos, e mais de uma vez cada um.

Era época de vestibular. Meu ritual envolvia ler esses livros do Harry Potter à noite, depois das 22h, trancado no quarto e tomando Toddynho (é, foi lá que fiquei viciado em Toddynho), sempre 2, nem 1 nem 3, dois. Os livros acabaram sendo devorados de um jeito absurdo, o quinto livro ainda não tinha saído, então deu tempo de ler e reler todos os 4 primeiros em coisa de um mês antes de ler o quinto… Bem, do quinto em diante a história foi ficando bastante pesada, até que desconfio se a série é realmente para crianças (bom, deve ser, A Bússola de Ouro e Desventuras em Série são e, na minha opinião, não tem coisa pior do que começar o livro contando sobre a morte dos seus pais de algum jeito horrível…).

Falando em estrutura da narrativa, os primeiros 5 livros se fecham em si, o que, acredito que para o espanto geral e inicial dos leitores, causou um baque na leitura do sexto e pior ainda, do sétimo. Os livros 6 e 7 são extremamente vinculados um ao outro, como se fosse um grande livro contado em duas partes, até que o leitor que os lê pela primeira vez vai pensar que foram muito mal escritos (ou pior, orientados unicamente para o mercado, o que eu também não duvido, mas isso é outra história…). O livro 6 – Harry Potter and the Half-Blood Prince – foi considerado pela crítica como um belo prólogo para o 7º – Harry Potter and the Deathly Hallows – o que, na minha opinião, é uma crítica terrível. Espero que quando, algum dia em que eu escrever algum livro na vida, não chamem ele de prólogo de nada, afinal, um prólogo é uma história que está apenas iniciando e está longe de terminar (pior um autor que se perde no fim e zoneia toda a história do que um autor que começa e não termina, rs).

O sétimo livro realmente me surpreendeu por conta desta estrutura da história – dividida nestas duas partes, como só fui perceber depois que terminei de ler – sendo um livro de altos e baixos. Na minha opinião, tanto se preparou para o combate com Aquele-que não-deve-ser-nomeado nos livros anteriores que no sétimo livro Harry se depara com ele de sopetão, evidentemente despreparado e vencendo por causas externas e de maneiras que nem ele sabe ao certo como funcionam. Já perceberam que Harry sempre derrota Voldemort sem saber exatamente, isso, 100%, com certeza, o que fez? Pois bem, isso acontece de novo no sétimo livro… Acaba sendo uma característica que marca a necessidade do trabalho em equipe nestas empreitadas mortais e, talvez um valor passado por J.K. Rowling à criançada, da necessidade de amizades verdadeiras para se poder viver neste mundo.

Se o final foi previsível, bem, era de se esperar. Se depois de 7 livros a autora decidisse matar Harry, bom, com certeza ela poderia começar a se desfazer de toda a dinheirama que ela fez (e que a coloca atualmente como mais rica que a própria rainha da Inglaterra). É como novela ou jogo de futebol: sempre sabemos como termina, um lado ganha, um lado perde, o que nos interessa é o desenrolar da coisa toda. Pois bem, foi assim, felizmente. Você, fã dos livros, confesse, admita que você ficava apavorado toda vez que saía alguma notícia quando os livros ainda estavam sendo lançados falando que algum personagem importante ia morrer e você já ficava pensando no trio Harry-Hermione-Rony, não queira negar o inegável agora!

Àqueles que apenas viram os filmes, bom, não preciso falar o óbvio: os livros são absurdamente mais ricos em detalhes e em aventuras. Enquanto na adaptação cinematográfica o diretor e os roteiristas têm que cortar algumas coisas e deixar pelo menos 2 aventuras paralelas na telona (pelo menos foi o caso de Harry Potter), nos livros sempre existiriam pelo menos mais do que estas 2 aventuras, além da quantidade de detalhes e coisinhas-novas-fantásticas-do-tipo-Feijõezinhos-de-Todos-os-Sabores, merecendo destaque. Quanto aos filmes, temos uma mudança bastante visível de percepção da série com a mudança dos diretores (os dois primeiros dirigidos por Chris Columbus, o mesmo de Esqueceram de Mim I e II, o terceiro dirigido por Alfonso Cuarón, o quarto por Mike Newel, diretor de Quatro Casamentos e um Funeral e de alguns episódios de As Aventuras do Jovem Indiana Jones e o quinto, ufa, por David Yates), tornando-se adaptações distintas e que não podem de maneira alguma ser colocadas, evidentemente, em pé de igualdade com os livros de J.K. Rowling

Questiona-se sobre a originalidade de Harry Potter, sendo que o mais me irrita é a clonagem de elementos de sucesso de outras obras, como A Wizard of Earthsea de Ursula K. Le Guin (lá não é Harry é Ged) e até mesmo O Senhor dos Anéis (aqui o máximo de originalidade é dividir o Um Anel em 7 Horcruxes). Porém, caso esteja interessado em uma literatura de entretenimento (e entretenimento apenas), está bem servido.

Victor Hugo, Draco Dormiens Nunquam Titillandos


Ilustrações de Mary GrandPré

PS.: Aos fãs de Harry Potter, indico uma das versões do site oficial que aparentemente estava sumida ou ofuscada pelos últimos filmes da franquia: http://harrypotter.warnerbros.com/diagonalley/

5 comentários »

  1. Amei a crítica, achei super bem fundamentada, apesar de não ter lido ainda todos os livros.

    Não virei fã de uma hora para outra, aliás acho que ainda estou me tornando uma, mas a essencia do que é crescer é apresentada de uma maneira renovada pela J.K..

    Tenho certeza que se o final fosse surpreeendente seria para o pior (no melhor estilo filme do Homem Aranha -3, aquele filme destruiu todas as minhas esperanças na indústria cinematográfica para HQs), fico feliz que os diretores e produtores tenham tido a decência de manter o filme semelhante a obra.

    Ainda não vi a 2 parte, mas essa crítica me deixou babando para ver.

    Enfim, parabéns!

  2. Ótimo texto! Adorei!
    Não li os livros, mas sei que geralmente os livros são muito melhores do que os filmes, por todas as razões citadas no seu texto.
    Mas, mesmo apenas com as películas, a fantasia está presente, e, ao passar dos anos, e dos filmes, essa fantasia sai do lúdico para algo mais denso, mostrando o crescimento dos personagens.

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