Eu era criança quando vi pela primeira vez o filme Blade Runner, magistralmente dirigido por Ridley Scott. Na época fiquei tão fascinado por aquela coisa toda de andróides, um caçador destes andróides, uma cidade onde chovia o tempo todo, um clima sombrio e meio triste e a mais bela sensação de estar assistindo uma verdadeira e pura ficção científica. Pensava: “Puxa, deve ser legal ser um caçador de andróides!” Mas o tempo realmente passa e essas percepções vão se alterando sutilmente.

Seja por Deckard ou Roy, Blade Runner me impressionou enormemente, seja através do tempo, seja pelo forte caráter único e pessoal que existia naqueles personagens. Humanos ou andróides, para quem devo “torcer no filme?” pensava este que vos escreve, aos seus dez anos de idade. Como havia dito, o tempo passou e essa dicotomia foi desaparecendo. Passei, na verdade, a “torcer” pelos andróides e lamentar profundamente pelo trágico destino que lhes era reservado. Fui me ligar que Blade Runner, talvez o maior filme de ficção científica já produzido, era a adaptação de um livro de um tal de Philip K. Dick. “Legal!”, pensei na época e ficou nisso mesmo.

Embora desde muito criança fascinado por filmes de ficção científica, não tive contato com a literatura do gênero e não havia lido nada de Philip K. Dick. Só sabia que ele havia escrito o livro que inspirou um dos meus cinco filmes preferidos. Minha literatura mesmo era outra. Estava mais conectado mesmo a autores como Jean Paul Sartre, Luís Fernando Veríssimo, Salman Rushdie, Simone de Beauvoir, Gabriel Garcia Marquez, Ernesto Sabato, Rubem Fonseca, etc. Já dá perceber como era diversificada essa seleção de autores preferidos, mas de ficção científica não havia ninguém. O primeiro autor de ficção científica a entrar nesse seleto grupo foi Frank Herbert com a magistral obra Duna. Escrevi um post para o Ao Sugo especialmente sobre Duna (e toda minha admiração por essa obra) que pode ser lido aqui.

Philip K. Dick entrou bem mais tarde nesse rol de escritores. Foi até mesmo meio que por acaso. Cursava o Mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco e havia me encaminhado à livraria para adquirir um livro de Ciência Política quando decidi passar pela prateleira onde se localizavam os livros de ficção científica. Revirando a prateleira me deparei com um livro intitulado O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick, tendo outro post dedicado ao tema que você pode ler aqui. Lendo a sinopse do livro fui imediatamente fisgado pelo enredo. Simplesmente espetacular para um nerd de plantão! Mundos paralelos, I Ching, II Guerra Mundial, História Alternativa. Era bom demais para ser verdade e senti, naquele momento que comprava o livro, que eu havia descoberto uma mina de ouro. Começava, ali, minha jornada pela literatura de Philip K. Dick.

Sabe, talvez a melhor definição do que ocorreu comigo em relação a literatura de Philip K. Dick foi a de que me viciei em seus livros. Desde que comprei O Homem do Castelo Alto não parei mais de ler nada do autor. E descobri, para minha agradável surpresa, que Philip K. Dick é muito mais que um autor “caçador de andróides”. Essa grata descoberta veio acompanhada de outra agradável observação sobre a adaptação, para o cinema, da obra Do Androids Dream of Electric Sheep?. Eram praticamente obras distintas. O teor do filme bem como o livro dava à tragédia daquela realidade um aspecto noir pela solidão que existia neste mundo carente de vidas além da humana. Mas o que importa, mesmo, é que após ler o livro, pude perceber como Ridley Scott acertou a mão no filme. mas quem era Philip K. Dick como escritor para além do cara que escreveu o livro que inspirou Blade Runner?

Os anos foram se passando e mais e mais páginas de Philip K. Dick foram sendo devoradas por mim, especialmente num período da minha vida onde faltavam recursos e uma bolsa de estudos era um sonho ainda. Passei a ser “rato da biblioteca” da Universidade Federal de São Carlos onde fui cursar o Doutorado em Ciência Política e nela descobri um acervo de literatura de ficção científica espetacular. Semana após semana do ano de 2009 fui até este acervo solicitar um exemplar de ficção científica e prontamente me propus ler TODOS os livros de Philip K. Dick que estavam naquelas prateleiras. Consegui. E posso garantir: existe um mundo dickiano muito além de Do Androids Dream of Electric Sheep?.

Digo isso com a segurança nerdística por ter lido e me extasiado com a obra de Philip K. Dick que Valis seja talvez a mais intimista e pertubadora de toda sua produção literária.

Valis (acrônimo, em inglês, de Vast Active Living Intelligence System) talvez seja a própria perturbação literária em prosa. Valis narra a história de Horselover Fat, sujeito mergulhado em melancolia e profundamente ligado a uma obsessão com uma revelação divina. Horselover Fat é informado de que uma entidade divina (que já foi Buddha e Jesus) está para nascer novamente neste mundo e se põe a procurar de forma incansável por essa criança. Philip K. Dick é narrador desta história e, surpreendentemente, é personagem também dela: Horselover Fat é Philip K. Dick.

O romance é tão perturbador pelo simples fato de que Philip K. Dick escreve essa história no auge de um processo de dúvida verdadeiramente existencial. Estará louco? A resposta é sim e não. A atmosfera religiosa que permeia os momentos de delírio do personagem/autor é tão significativa quanto seria de muitos líderes religiosos ao longo da história. Então, resta pensar: seriam aqueles e aquelas que tiveram experiências místicas todos loucos e loucas? O próprio narrador Philip K. Dick acredita que Horselover Fat está louco, mas o que separa a loucura da realidade nesta história, quando o próprio narrador é personagem e o narrador “são”, no decorrer das páginas incorpora o “louco”?

“Deixemos claro que um dos primeiros sintomas da psicose é que a pessoa sente que talvez esteja se tornando psicótica. É outra armadilha chinesa de dedos. Você não consegue pensar nisso sem se tornar parte disso. Pensando na loucura, Horselover Fat foi escorregando pouco a pouco para dentro da loucura.

Quisera eu ter podido ajudá-lo.”

Em Valis, Horselover Fat/Philip K. Dick mergulha profundamente nesta revelação divina que recebe. Sente que sua vida está “passando” e o sentido que lhe cabia desaparece aos poucos conforme o período de paz e amor das décadas de 1960/1970 some e é substituído pela febre da disco music no final da década de 1970. Horselover Fat/Philip K. Dick está perdido não apenas socialmente, mas também espiritualmente. E a revelação de Valis constitui uma tentativa desesperada de seu inconsciente para salvar o que ainda é possível ser salvo. Essa tentativa desesperada deve, em muito, a morte de duas pessoas queridas. O chão desaparece e a religião surge. E essa jornada pela experiência religiosa leva Horselover Fat/Philip K. Dick a aceitar a frágil dualidade maniqueísta:

“Fat havia decido se vincular ao Anticristo. E isso com base nos motivos mais elevados: amor, gratidão (…). Exatamente aquilo de que os poderes do inferno se alimentam: os melhores instintos do homem”.

A representação da morte é, de certa forma, terrível e libertadora para Fat/Dick. Destrói e ao mesmo tempo reconstrói, assim como o narrado se torna o narrador e vice-versa. Como pode a morte libertar deste tempo que cerca Fat/Dick se este tempo é “artificial” e, aparentemente, cíclico? Que esperança pode haver de Deus libertar se, talvez, as correntes nem estão dispostas de verdade nos pulsos de cada um?

Parte dessa discussão também se encontra em outro livro de Philip K. Dick: a Invasão Divina, livro que me causou um dos mais belos êxtases que já senti em minha vida e que, proximamente, também resenharei para o Cabaré das Ideias.

Por isso digo: leia Valis, neste link você pode encontrar o primeiro capítulo da sensacional obra.  Após o jabá do livro, uma história em quadrinhos baseada na experiência metafísica de Philip K. Dick. Agradecimentos ao Rick Milk pela dica. E receba essa luz rosa em seu cérebro.

Para continuar lendo o post com a história em quadrinhos completa sobre a experiência de Dick, clique aqui.

Ben Hazrael, direto do Poliarquias e do Cabaré das Idéias para o Ao Sugo

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

1 comentário »

  1. Muitas obras bacanas do Dick eu já li também.
    Eu li o “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, “O homem do castelo alto”, “Ubik”, “A Máquina de governar”, “Fluam minhas lágrimas, disse o policial” e “Os Clãs da lua alfa”. Só o Valis que ainda tá na minha lista e eu não peguei pra ler.
    Cara, posso te convidar a conhecer meu blog? fiz umas resenhas dos livros do dick e seria elgal trocar ideias com que lá eu alguns livros.
    http://www.wilburdcontos.blogspot.com.br/

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