Pois bem, Guerra dos Tronos foi lido. Agora, como complemento ao artigo de Ben Hazrael, venho trazer algumas das minhas impressões sobre o livro e seriado de tv, apesar de acreditar veementemente que meu cérebro explodiu após a leitura de o Livro Um das Crônicas de Gelo e Fogo. E pior: em tempos de Dia da Toalha, ao mesmo tempo meu cérebro implodiu depois de assistir aos primeiros episódios da minissérie da HBO.

Vamos pontuar rapidamente algumas coisas, com a esperança, é claro, que você já tenha lido também o artigo supracitado aqui no Ao Sugo. O livro Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo foi lançado no Brasil pela Editora LeYa no ano passado (2010), suprindo um atraso de 14 anos para chegar nas terras tupiniquins. Pois é, enquanto a coisa toda é febre aqui no Brasil, as Crônicas de Gelo e Fogo foram iniciadas pelo norte-americano George R. R. Martin em agosto de 1996, sendo até mesmo constrangedor ter que se conter nos spoilers do primeiro livro sendo que nos Estados Unidos já estamos no volume 5 de toda a saga, além do Roleplaying Game e do jogo de tabuleiro lançado nas terras de lá há um bom tempo.

A iniciativa (e talvez coragem, não sei) editorial recaiu sobre os ombros de uma editora nova, a LeYa Brasil, grupo editorial português que chegou ao Brasil em 2009 já com o chute na porta e pé na cara. A edição brasileira de Guerra dos Tronos é um trabalho que merece ser notado, a começar pela capa de Marc Simonetti. Artista francês que ficou conhecido por suas ilustrações no mundo dos games, Simonetti foi vencedor de um prêmio da Blizzard alguns anos atrás e, bem, Blizzard… não preciso falar muito mais. Bem mais imponente e épica do que as edições norte-americanas cujas ilustrações são bastante… hã… razoáveis, a capa do Livro Um das Crônicas de Gelo e Fogo da LeYa traz a Muralha, a maior e mais antiga construção feita pelos homens no mundo fictício de Westeros, protegendo os Sete Reinos do Sul contra os perigos ancestrais e inomináveis do norte gelado.

A tradução lusitana ficou a encargo de Jorge Candeias, cuja versão brasileira foi considerada pelo próprio tradutor como pouco eficiente. Erros encontrados na adaptação para o português brasileiro teriam afetado o desenvolvimento do texto e as sutilezas da tradução original, o que até é compreensível. Sabemos já das dificuldades inerentes de uma tradução em si e do quanto da intenção do autor nas nuances, sonoridade e jogos de palavras são perdidos, aí é de se imaginar quando o trabalho todo é passado por várias mãos, discussão que não pretendo explorar aqui. Contudo, o que gostei desta edição foi a versão para o português de alguns topônimos como Atalaia Leste, Correrrio, Porto Real, Guardamar, Vilirmãs, etc, denotando não apenas a ousadia da editora em adentrar no perigoso terreno dos nerds fervorosos (daqueles que não suportam “Rivendell” ter virado “Valfenda” e por aí vai), mas também ao trazer para o português justamente esses pequenos detalhes de Westeros que tornam este mundo verossímil e ao mesmo tempo fantástico.

A escrita de George R. R. Martin é envolvente. Por ter sido roteirista de televisão e novelista de vários romances nos Estados Unidos, Martin soube pela palavra prender o leitor de Guerra dos Tronos com uma trama repleta de temas contemporâneos e, por isso mesmo, mais condizente com as últimas publicações do mercado. Tem politicagem, tem sangue, tem morte e tem sexo, tudo na cara ou “cru” como felizmente diz Ben Hazrael. É chute na porta e tapa na cara, não poupando o leitor em momento algum. Entenda: em momento algum. As pessoas esfaqueadas sangram, cavaleiro levando espadada fica todo aberto e pingando até morrer, fora as passagens de sexo tanto no livro quanto na minissérie que são tão públicas para qualquer pessoa que saiba ler ou somar 1 mais 1. Não tem metáfora nem eufemismo, o que, na minha opinião, gera tantos outros problemas quanto a pensar na Guerra dos Tronos como comparável a qualquer outra porcaria já feita na literatura fantástica.

Foi uma grande infelicidade, mas uma grande infelicidade mesmo, as Crônicas de Gelo e Fogo estarem sendo pensadas como um prosseguimento lógico da obra de J. R. R. Tolkien, volumes comparáveis se forem tomados apenas como pertencentes à categoria de “epic fantasy” ou “literatura de fantasia”. Com estilos de escrita bastante diferentes, Tolkien foca em seu universo maniqueísta a construção de uma mitologia complexa envolta de lirismo e hoje (e apenas hoje), considerada como repleta de lugares comuns. Engana-se o leitor ao achar que na época de Tolkien não existia literatura com politicagem suja, violência brutal e sexo explícito ou então que eram momentos “de maior ingenuidade” (pois é, me cansam os saudosistas), sendo, justamente, uma opção do autor ao demarcar um território fantástico pela maneira como foi tratado. Isso é mais do que dito: Tolkien estava interessado em criar uma mitologia nova, aliás, está pensando em fazer a mitologia das mitologias. Tampouco ajuda no entendimento da obra tolkieniana ter decorado a ferro quente os infelizes ditames da “Jornada do Herói” de Campbell como categoria realmente explicativa, já que podemos achar a maldita “Jornada do Herói” todos os dias nas notícias de um telejornal incipiente. Mais do que nunca está valendo o que já disse meu caro Marcus: a “Jornada do Herói” acaba sendo aqui abrigo e saudosa aflição dos ineptos.

Longe de uma nova mitologia ou de personagens cujas personalidades são fortemente demarcadas, a Guerra dos Tronos traz personagens multifacetados, de infinitas clivagens. Quando você acredita ter conhecido “bem” um personagem, leva um tapa na cara ao longo da leitura ao descobrir que você realmente não conhece ninguém. Talvez a única coisa no livro que realmente não muda de verdade é a Muralha, sólida como pedra, observando a tudo e a todos. E eis o charme do livro.

Por outro lado, a maneira como George R. R. Martin conduz a trama toda já merece por si só um comentário. Se em O Senhor dos Anéis nós podemos perceber uma estrutura da narrativa truncada (ou seja, o leitor consegue perceber quando Tolkien se cansou ou tomou algumas pausas, principalmente na hora em que a Sociedade do Anel se esfacela e aí temos 3 eixos diferentes para serem conduzidos, gerando um impasse na narrativa), Guerra dos Tronos ultrapassa esse problema com uma elegância digna de nota. Para os leitores de primeira viagem, vale a pena falar que nas primeiras 200 páginas ele será arrebatado com a introdução de inúmeros personagens com tramas aparentemente desconexas… O charme das Crônicas de Gelo e Fogo enquanto narrativa é poder observar como a trama de todos começa a se entrelaçar a olhos vistos, prendendo o leitor tal qual um belo nó de marinheiro: se a trama de trocentos personagens se mescla durante a narrativa, o próprio leitor se vê entrelaçado em meio aos personagens. E isso, ahh, isso é surpreendente, totalmente diferente de O Senhor dos Anéis. Portanto, parem de chamar George R. R. Martin de “o Tolkien  norte-americano”.

Sor Victor Hugo, da Patrulha da Noite

 

Sim, já publicamos outros dois textos sobre as Crônicas de Gelo e Fogo, constituindo então numa série. Como tinha comentado anteriormente, foi Ben Hazrael quem me incentivou para ler essa chaproca de quase 600 páginas, tendo valido a pena. Espero trazer no próximo um breve review do seriado da HBO que, aham, está impressionante. A lição de casa para vocês hoje é a seguinte:

A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo – Resenha de Ben Hazrael sobre o primeiro livro da saga e que foi publicada simultaneamente no Ao Sugo e no Poliarquias. Além de estar sem spoilers, tem um featurette muito bom da HBO chamado Inside Game of Thrones, introduzindo a minissérie de televisão.

A Fúria dos Reis – As Crônicas de Gelo e Fogo – Resenha de Ben Hazrael sobre o segundo livro da saga, publicado tanto no o Ao Sugo como no Cabaré das Idéias. Este artigo está repleto de spoilers e foi uma dor no coração publicá-lo enquanto ainda estava no meio da leitura de Guerra dos Tronos… ou seja, para leitores que JÁ leram o primeiro livro ou então que são muito corajosos.

A Lâmpada Mágica – blog do tradutor Jorge Candeias, em cujo espaço se debruça sobre literatura fantástica e seus trabalhos mais recentes. É super interessante ver a crítica do tradutor sobre a versão brasileira de A Guerra dos Tronos, apontando em detalhes alguns dos problemas que encontrou. Confesso estar bastante curioso para ler a versão lusitana na íntegra, devendo ser muito boa.

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

5 comentários »

  1. Só hoje que se enxergam os lugares-comuns da obra de Tolkien? Ela sempre foi vista como um desenvolvimento um pouco mais elaborado da literatura para meninos da era vitoriana. Há algo mais romanesco que a atribuição de adjetivos como “sábio”, “belo” e “justo” a um sem-número de príncipes, monarcas e guerreiros?
    Ademais, as qualidades literárias da ficção de Tolkien vão pouco além da enumeração de nomes e genealogias improváveis. Sua concepção dramática é pobre. Posso me lembrar de várias cenas simplesmente risíveis: o grito de Pippin ao reconhecer que Boca de Sauron portava a armadura de Frodo, a morte de Gollum etc. Sem falar que o SdA viola um dos princípios mais antigos da literatura: a busca pela unidade formal. Descobrimos que Lotho Sacola-Bolseiro tem tendências malignas apenas nos últimos capítulos…
    Sei que o universo de Tolkien é impressionante, que a sugestão de um outro mundo fantástico arrebata e encanta. Mas não é literatura. Não passa de entretenimento juvenil.

  2. Também me irrita essa galera que enxerga só pureza no passado. Nem tudo era Jane Austen, gente! A primeira coisa que me vem na cabeça quando paro pra pensar nisso são as cantigas de escárnio e maldizer. Sempre se fez fofoca, sempre existiu intriga, sempre se bebeu, fez sexo e mil coisas mais. Acho interessante quando uma série trás esses elementos e explora tão bem, principalmente o lado político e deixa claro que as coisas vão além do bem e do mal. Gostei do texto!

  3. Que excelente!! Gostei dos comentários de Tai e do saudoso Capistrano de Abreu que retorna do mundo metafísico para deixar uma breve análise que concordo inteiramente. Realmente, se na tradução brasileira de “Guerra dos Tronos” existem momentos “Sabrina” ou “Júlia”, em O Senhor dos Anéis temos momentos “Polyanna Moça”. Mas já diria o Filósofo: cada um no seu quadrado. hehehe

  4. Muito bom os posts! Parabéns pelos textos. Não consigo pensar em outra obra atual que causou tanta movimentação na internet quanto As Crônicas de Gelo e Fogo e olha que o 1o livro saiu em 2004 acho… Continuem assim, serei leitor assíduo do blog!

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