Este artigo na verdade é uma longa divagação sobre uma pergunta feita por uma leitora do Ao Sugo. Provavelmente após ter visto o filme Mirrormask, de Dave McKean e Neil Gaiman, se perguntou sobre as várias máscaras que a protagonista Helena Campbell usa durante a narrativa (fora as máscaras que os outros personagens estão usando a todo momento). A pergunta me fez pensar, até que demorei 3 dias para tentar responder a questão, sendo mais uma idéia solta aqui em Ithildin.

“Como tinha prometido, venho para falar sobre a idéia das máscaras, devendo agradecer pela pergunta. Ela é boa porque faz a gente pensar, rs, até que tive uma longa conversa com outro amigo, também antropólogo. Para falar de máscaras eu preciso dar um pulo na Antropologia Social, mas já devo pedir desculpas por resumir este assunto de maneira tão tosca. Antes de arranjar brigas com meus colegas antropólogos por tentar explicar tão sucintamente uma série de temas bem preciosos e complicados, espero na verdade apenas instigar o leitor do Ao Sugo a procurar e ler mais.  É um desafio.

Baseando-se nas idéias da Antropologia Francesa de Marcel Mauss, Lévi-Strauss e os que vieram depois nele nessa linha de pensamento, vale a pena lembrar que as máscaras estão fortemente associadas com a noção de “pessoa” desenvolvida em diversas “culturas” pelo mundo.

Uma “pessoa” é algo bastante diferente da nossa noção contemporânea de “indivíduo” enquanto ser moral e agente tomador de decisões. Como observado em várias “culturas” (entendendo “Cultura” como sendo o conjunto de várias idéias partilhadas coletivamente), a “pessoa” está atrelada na idéia de papéis sociais que os sujeitos assumem em várias sociedades. É simples, é como numa peça de teatro, em que cada ator interpreta determinado papel que ao todo monta a história, o enredo: em diversas “culturas” existem as “pessoas” que são sujeitos assumindo vários papéis sociais e funções dentro daquelas sociedades. A grande (e mais importante) diferença é que esses “atores” não estão tomando decisões por vontade própria nem mesmo fingindo/interpretando, estando imersos nos valores e símbolos da “cultura” em que está inserido. As decisões que essa “pessoa” assume portanto não são decisões dela mesma, limitadas em papéis que são muitas vezes fundamentais para o funcionamento desta ou daquela sociedade.

Isso tudo é muito diferente da nossa noção de “Indivíduo” contemporâneo, sendo para alguns antropólogos franceses (em especial Marcel Mauss e seu aluno, Louis Dumont) como talvez um desdobramento da noção de “pessoa“. Enquanto algumas “culturas” desenvolvem a idéia de “pessoa“, a sociedade ocidental de maneira geral teria desenvolvido a duras penas a noção de “Indivíduo” de maneira bastante particular e nada universal. Aqui a gente pensa e toma decisões mediante um leque de opções dados pela nossa “cultura” de maneira diferente das “pessoas“. Pode até lhe parecer estranho ler isso, mas daí que é “errado” por exemplo acreditar que a idéia de “Indíviduo” e do valor “individualidade” são universais: não podemos esperar encontrar essa idéia de “Indivíduo” em outras sociedades como encontramos na nossa, pois cada sociedade pensa isso de maneira diferente. Mas cuidado: existem “pessoas” e papéis sociais na nossa sociedade, ainda como existe “individualidade” nestas outras “culturas”. Nós temos vários papéis durante o dia, o de filho, aluno, pai, trabalhador, amigo, namorado, etc, se alternando o tempo todo. A diferença é que nós pensamos isso apenas de um jeito… diferente, sendo o “Individualismo” uma ideologia dominante nas bandas de cá.

A máscara pode ser, dizendo de maneira bem rudimentar, como uma personificação da idéia de “pessoa” que o sujeito assume. Ao vestir certa máscara, as roupas e os enfeites vinculados a ela, este sujeito agora está ocupando um papel social bastante específico. Ele não está “interpretando” o papel social como a gente faz aqui no teatro… nestas “culturas“, quando ele veste a máscara, ele literalmente assume um papel e uma função social daquela sociedade, cuja “atuação” é orientada pelos símbolos de sua “cultura“. Ele não pode vestir uma “máscara sagrada de uma entidade e talz” e sair fazendo o que bem entende, pois agora está nele mesmo esta entidade.

Outro aluno de Marcel Mauss iria mais longe e nos mostraria em “A Via das Máscaras” (1979) que é possível compreender inclusive o pensamento humano através do estudo das máscaras. Para Lévi-Strauss, uma máscara sozinha não possui significado nenhum, dependendo muito da “cultura” em que está localizada e sendo utilizada. É aquela coisa, a gente só entende o que esta máscara/pessoa significa se comparamos com outra máscara/pessoa daquela mesma sociedade.

As máscaras de Helena mostram que, ao usá-las, ela está assumindo e adentrando aos diversos papéis que existem dentro daquele mundo onírico. Não é só uma “interpretação de papéis” como no teatro: ela não veste uma máscara para fingir ser alguém, ela veste uma máscara para ser alguém muito específico dentro daquele universo. E em Mirrormask a coisa fica mais legal por mostrar que não é só o uso de uma simples máscara que define os papéis de Helena naquele mundo. São as roupas que usa, o penteado do cabelo e até as lentes negras quando assume de vez o papel de filha da rainha. A partir daquele momento, mostrado na bela “transformação” com as mulheres-relógio, ela não é mais a Helena Campbell do começo do filme, ela agora é alguém diferente, tão diferente que demora um tempo para voltar como era antes. Ué, talvez ela até seja outra “pessoa“! Quando Helena encontra a “máscara de espelho“, aí ela se toca e sai daquele papel… Com relação ao mundo real, bem, primeiro que dificilmente existem essas máscaras de espelho, rs. Agora, essa é a minha interpretação… já o que pensa Neil Gaiman, não sei…

Entendo que é um tema complicado e estudado não só pela Antropologia, mas por várias outras áreas do conhecimento. E por que coloquei tudo em aspas? Bem, está tudo entre aspas porque estes termos que usei aqui ainda são problemáticos, não definindo muito bem essa nossa experiência divertida de viver em sociedade. Contudo, apesar de ser difícil de entender agora, certamente estas idéias nos ajudam a pensar tudo de maneira… diferente. Espero o seu comentário para continuar estas divagações.”

Victor Hugo, sonhando acordado

Agradeço ao meu amigo Alexandre pela discussão das máscaras de Helena.

Continue pensando:

Mirrormask [review do filme]

Reflexões Oníricas [discussão com Filosofia]

1 comentário »

  1. Legal ter uma visão antropológica sobre isso.
    Acho Antropologia muito interessante, sabe; quero me aprofundar mais. Se puder me indicar um livro básico, eu ia gostar muito =)

    Ótimo texto como sempre

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