Irlandês não é britânico. E muito menos escocês. É isso mesmo. Tem toda essa pataquada de admiração por escritores britânicos nas Histórias em Quadrinhos, por suas magistrais e lúdicas histórias com personagens que exalam magnânima poesia por suas peles brancas de uma palidez metafísica atordoante como, por exemplo, os Perpétuos e irmãos Sonho e a Morte, além de folhas metafísicas, para o caso do arbóreo personagem Monstro do Pântano. Mas que diabos têm a ver geografia com histórias em quadrinhos? Bom, na verdade a coisa da geografia não interessa mesmo, mas vai ajudar a diferenciar escritores mais “lúdicos” de escritores mais escabrosos que, por algum acaso do destino, nasceram em ilhas próximas uma da outra.

Vamos lá, comecemos pelos “lúdicos”! Ler, por exemplo, “Um Sonho de Mil Gatos” em Sandman e não reconhecer na obra elaborada por Neil Gaiman uma qualidade diferenciadora do restante produzido no mundo dos quadrinhos – e até mesmo da literatura em prosa – é simplesmente estar com a tomada desligada da mais fina arte. É, os britânicos são bons mesmo. Já escreveram pérolas inigualáveis para as histórias das Histórias em Quadrinhos como V de Vingança, Promethea e Watchmen (Alan Moore), Orquídea Negra e Morte – O grande momento da vida (Neil Gaiman) e muito mais coisas boas que agora não consigo lembrar. Mas como havia dito no início, não é nenhum escritor britânico que interessa para este post. O que interessa não são as Histórias em Quadrinhos mais refinadas e elegantes como Sandman, mas as Histórias em Quadrinhos mais escabrosas e desbocadas escritas por um sujeito vindo da Irlanda que deveria estar preso em algum manicômio. Seu nome? Garth Ennis.

Garth Ennis é um doente. Simples. É isso e pronto. Sem frescuragem de querer entender sua mente, as relações causais de Belfast e da sempre presente crise irlandesa na sua psique. Nada disso interessa. O que interessa é que ele é um doente, um depravado e conseguiu canalizar tudo que tem de asqueroso para essa mídia tão conservadora das Histórias em Quadrinhos (sim, a indústria muito, muito conservadora), constituindo um verdadeiro “milagre” no gênero o exercício de sua liberdade criativa. Sua carreira de escritor iniciou-se com a série Troubled Souls, publicada na revista Crisis. Nunca li, mas vindo do Ennis, deve ter sido no mínimo interessante. Mas onde atingiu o sucesso que o catapultou na indústria das HQ foi no selo Vertigo da DC Comics, o que lhe abriu inúmeras portas e, trocadilho seja dado com Aldous Huxley, altas percepções. Trabalhando com personagens como John Constantine, Preacher e Hitman na DC (entre outros) e o Justiceiro na Marvel Comics. Mas, já diria o Filósofo Açougueiro: vamos por partes! E nada melhor que começar pelo sedutor e miserável John Constantine para essa empreitada nerdística aqui no Ao Sugo.

Hábitos Perigosos, Más Companhias

A primeira história escrita por Garth Ennis que li foi o saudoso, e mais clássico, em minha opinião, arco de John Constantine – Hábitos Perigosos. História perfeita porque conseguiu condensar bem o passado do personagem, muitas de suas sacanagens, outras de seu altruísmo meio torto, muita cerveja e seus tradicionais cigarros Silk Cut, o que, por sinal, seria o grande causador do momento mais dramático do personagem em toda sua história. O resumo da ópera é esse: Constantine está com câncer, acordou num belo dia tossindo tanto que escarrou um pedaço de si mesmo. Tenso, não? Pois é. E só piorou.

Em Hábitos Perigosos John Constantine revisita alguns coadjuvantes recorrentes de sua vida, história em que Garth Ennis é magistral por conduzir o desespero de Constantine página por página, infligindo não apenas ao Mago vagabundo e sedutor uma sensação desesperadora de cura para seu câncer, mas também ao leitor. Sua busca por um “milagre” o leva a encontrar o Anjo Gabriel, O Esnobe, também o levando a “se entregar”, fazendo com que se despeça de sua curta família (irmã e sobrinha) e também de amigos. E na despedida de um desses amigos ele encontra Brendan, o enólogo. Nessa ocasião Brendan encontra e engana o Diabo, fazendo-o tomar água benta inadvertidamente.

O resultado foi um Diabo arrastado ao Inferno e não conseguindo levar Brendan, que descobrimos naquele momento ter vendido sua alma ao Primeiro dos Três lordes infernais e estipulara, em contrato, que deveria ser levado à meia noite em ponto. Caso não fosse, o Diabo não poderia nem sonhar em tê-lo para acrescentar ao seu caldeirão particular para fins de atrocidade e sofrimento eterno… John Constantine descobre isso e fica puto, muito puto. Resolve então ele próprio enganar o Diabo e consegue, com um problema: Constantine estava prestes a morrer e, pelo andar da carruagem de sua vida, iria encontrar justamente esse sujeito que enganou que devia estar com muita, mas muita raiva.

O câncer só piora. Ninguém pode ou quer ajudar Constantine, então ele decide recorrer à única pessoa que daria um jeito em tudo: ele mesmo. É, Constantine, pela milésima vez, consegue extrair um maldito plano de sua cabeça baseado em desespero, Silk Cut e esperteza. E para tanto precisou arriscar tudo. Aquela coisa, quem não arrisca, não petisca. E, no caso, petiscar significaria não morrer e ir direto ao inferno em classe econômica.

Constantine faz aquilo que seria o mais louco e idiota possível. Resolve continuar a brincar e jogar com o Inferno, decidindo fazer um pacto com o Diabo! Mas aquele que o infeliz enganou? Não, não, calma lá! Para um breve resumão da hierarquia infernal neste universo de John Constantine, o Diabo são três: O Primeiro, O Segundo e O Terceiro dos Três Caídos. O Diabo (não Lúcifer, neste caso) é o Equilíbrio entre Três Poderosos Demônios, Senhores do Inferno. Agora que entendeu, ficou mais tensa a situação, não? E ficará mais tensa ainda.

Constantine decide ir a um lugar sujo e podre com uma história pregressa cheia de atrocidades para poder invocar o Segundo e o Terceiro dos Três Caídos. Garth Ennis imprime neste momento da HQ um ritmo alucinante. O cheiro e o som pesado da morte está cada vez mais próximo desse mago beberrão e a Morte não é aquela gracinha irmã mais velha do Sonho. A morte para Constantine é feia e parece um cancro surgido de seu pesadelo, como ilustrado numa página pelo desenhista Will Simpson. O mago inglês sabe que deve ser cuidadoso para enganar adequadamente os Três Caídos. Aos poucos, seu plano vai dando certo, apostando alto que sua alma vale a pena numa disputa entre os Três.

E Constantine consegue isso. Com navalha no pulso e tudo que possibilitar a morte chegar mais rápido. Irônico, não? Garth Ennis constrói uma história em que a morte deve ser evitada a todo custo e, ao final, só a proximidade dela é que vai garantir que o Diabo não leve Constantine ao Inferno e, de tabela, cure-o do câncer nos pulmões, mantendo-o vivo na sua Londres cinzenta em que adora perambular e beber e, claro, fazer merda.

A reviravolta na história ao seu final é digna das melhores seleções de HQ de todos os tempos. Algo raro (mas muito raro de acontecer, veja o caso do Homem Aranha fazendo um pacto com Mephisto. Tá, vai ter sujeito fifizando ao dizer que o Homem Aranha é super-herói e mimimi, mas não interessa, o que importa é a qualidade da história) e empolgante, verdadeiramente sujo e cheio de vitalidade. Enganar como enganou o Diabo faz de Constantine um personagem ainda mais cativante, tudo porque um depravado e escabroso escritor irlandês soltou verdadeiramente sua criatividade e nos presenteou brilhantemente com a talvez melhor história do mago.

Acho que quem leu deveria ler novamente apenas e tão somente pelo prazer de ler uma boa história em quadrinhos. Ela tem todos os elementos verdadeiros que fazem de John Constantine um personagem carismático. Outros escritores também escreveram sobre o mago beberrão, alguns escrevendo muito bem (como Warren Ellis, pesquisem onde esse outro fantástico escritor nasceu e se perguntem: é coincidência tantos escritores bons surgirem dali? Colocam algo na água?) e outros, na minha opinião, fizeram merda e tentaram inventar a roda, como Brian Azzarello.

Sou muito mais o John Constantine de Garth Ennis: escroto, anti-herói, amigão, puto, tiozão, mago de verdade, etc. Tudo isso e mais. E se não gostar também olha aqui pra você!

Se esse devaneio todo não fosse suficiente, Garth Ennis criou, para o selo Vertigo, aquela que muitos consideram sua criação máxima (e estou entre eles): Preacher, próximo post que escreverei aqui para o Ao Sugo.

Ben Hazrael, direto do Cabaré das Idéias para o Ao Sugo


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Histórias em Quadrinhos – Vivemos em uma era de quê?

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Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

5 comentários »

  1. Excelente análise. Ótimo texto.
    Só quem aprendeu à ler aos quatro anos com uma HQ em mãos é que entende o valor e a qualidade do seu texto.

    Parabéns. Ao sugo volta aos meus favoritos, com pompa e todas as honras merecidas.

    Há braços.

    • Muitíssimo obrigado pelo comentário, nós, os editores, ficamos felizes.

      Os próximos artigos sobre quadrinhos que devem ainda entrar nesse ano são sobre Preacher, Watchmen, Hellboy e mais Sandman. Aguarde!

      Victor Hugo

  2. Cara, ótimo post. Hábitos perigosos é realmente uma das melhores histórias e é a inspiração direta para o filme de Constantine, que eu considero bom se você ignorar completamente que existem as HQs =p

    Esperando pelo post de Preacher, o qual devorei em três dias muito conturbados de coca-cola e biscoitinho.

  3. Análise incrível,vcs do site estão de parabéns.Li e reli “Hábitos Perigosos” e ele é a peça principal da minha coleção “Hellblazer”…

    • Muitíssimo obrigado, Alison Santos. Espero que continue conosco para novas análises de HQs. Hábitos Perigosos é definitivamente meu arco favorito de Hellblazer.

      Victor Hugo

      Abração.

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