Com metade do diâmetro da Terra e com a superfície avermelhada por conta do óxido de ferro na atmosfera, é lá em Marte onde residem os tão conhecidos homenzinhos verdes. Morando em sofisticadas metrópoles que margeiam os canais de Schiaparelli (originalmente kHwsxyna’llkf, em marciano), visitam o nosso planeta (n’AhDah, no idioma deles) há muito tempo. Contudo, apesar de se tanto falar em invasão marciana há mais de 100 anos e a subseqüente destruição desta insignificante bolota em que vivemos, creio que eles estão na verdade assistindo de camarote às nossas próprias idiotices.

Senhoras e senhores e alienígenas de todos os gêneros, hoje falarei dos marcianos. Por que marcianos? Bem, é uma longa, porém, nem tão longa história. Todavia, falar dos marcianos e de Marte é falar não só do surgimento da Ficção Científica e de vários filmes horríveis no mundo do cinema, mas é também falar sobre extra-terrestres e a Ufologia (um dos nossos melhores mitos modernos), além do mais importante, falar de nós mesmos.

Os homens olham pro céu e falam tudo o que é possível sobre ele desde que nos damos por gente, lógico. Além de ser super divertido, é o que nos define enquanto seres humanos, essa tal habilidade notável de dar nome às coisas e dotá-las de sentido, gerando inclusive a nossa capacidade infindável de falar idiotices infinitas. Apesar de ultimamente encontrar muita gente na blogsfera falando asneiras acerca de Mitologia (e o pior, muita gente acreditando nesses impropérios), não pretendo escrever aqui sobre ela, apesar do assunto ser um barato.

Como toda história bem escrita com começo, meio e fim, esse papo de alienígena e marciano só tem a parte do começo. Embora olhemos para o céu há tanto, foi no século XIX que alguém viu pela primeira vez coisas muito estranhas em Marte. Com um telescópio bastante sofisticado para a época (e prestem atenção na palavra sofisticado, um telescópio com abertura de 15cm), em 1877 o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli observou o que chamou de “canais” ou canali em Marte, vários pontos conectados numa rede de linhas, posteriormente desenhados e nomeados em vários mapas feitos à mão pelo italiano. Ainda que os canali em Marte fosse sugestão de Angelo Secchi em 1858, foi Schiaparelli quem viu, confirmou e desenhou o negócio.

O que não sabia nosso camarada pizzaiolo de Milão é que quando a notícia chegou na Inglaterra e Estados Unidos, a palavra canale ou canal ganhou outra conotação no idioma do Rei Ricardo Coração de Leão, a de canal como um duto construído, artificial, ainda mais em tempos de construção do Canal do Panamá. É, observe: para nós latinos “canal” pode significar uma linha ou duto que conecta um ponto a outro, como também cursos d’água naturais e artificiais, porém, quando vira “channel”, aí é outra história, meu chapa… agora os “canais de Marte” poderiam ser a prova da possibilidade de vida fora do planeta Terra

É lógico que a coisa toda piorou. Depois de ler o livro La planète Mars de Flammarion o americano endinheirado Percival Lowell decidiu explorar a fundo a possibilidade de vida no planeta vermelho. Em 1894 Lowell construiu um observatório imenso no Arizona para estudar Marte, lunetão que lhe serviu para detalhar os desenhos dos canais de Schiaparelli e sugerir que tais construções eram na verdade fruto de uma civilização alienígena avançada (e desesperada) que viveria nas calotas polares do planeta, o último lugar habitável daquela bolota vermelha.

Apesar do ceticismo da “comunidade científica” em relação à fértil imaginação de Lowell, a idéia de vida inteligente fora da Terra grudou na cabeça do povo, incitando o que se chamou no fim do século XIX como a Febre Marte. A popularidade da teoria de Lowell ganhava livros, explodindo em 1901 com a afirmação do grande inventor Nikola Tesla que em seus estudos recentes estava recebendo estranhas emissões de rádio, provavelmente vindas do planeta vermelho. Pouco depois o Observatório Lowell enviaria um comunicado ao observatório de Harvard dizendo que os marcianos estavam tentando se comunicar conosco… Como percebia Carl Sagan sobre a bola de neve vermelha rolando solta, tínhamos em Marte a convergência mítica de todos os medos e esperanças da humanidade.

Em 1909 a idéia dos canais de Marte cairiam por terra graças ao uso de um telescópio de melhor resolução. Após várias observações da superfície do planeta vermelho, não tinha nada, não tinha canal, não tinha construção nenhuma, não tinha casinha nos pólos, não tinha marciano, não tinha Google Mars Street View, nada, nada, sendo tudo uma ilusão de ótica causada por instrumentos de observação nada potentes… “Cientificamente” não havia nada de interessante por lá, mas como os nobres de coração e imaginação evidentemente não são afetados pelo blá blá blá científico, a idéia de vida em Marte ou em outros planetas só cresceu desde então, como visto na literatura, nas artes e agora, no cinema… o primeiro filme do mundo retratava a viagem do homem à Lua, habitada por… alienígenas… até na Lua, coitado do queijo. E depois não sabem explicar o por que do Flash Gordon ou até mesmo Star Wars.

Lembremos da situação no período em que essas notícias dos canais de Marte estavam saindo, em plena virada do século XIX para o século XX. Misture isso com as teorias evolucionistas da época, que pregavam o papo furado longamente repetido até hoje de que hoje estamos nessa situação e no futuro, com o progresso, estaremos em outra, melhores, avançados, sofisticados (uma asneira que está entranhada até na cabeça dos nossos mais inteligentes leitores). E misture também o imperialismo britânico super em alta no momento, da idaia de um vasto império onde o Sol não se põe jamais, em incrível expansão e invencível na Terra… e que só poderia ser destruído então por algum outro povo… extra… terreno… E agora? Seriam eles tão ou mais avançados do que nós? E pior: poderiam invadir? Ai-meu-jesus-cristinho.

O escritor britânico Herbert George Wells ofereceu em 1898 o livro Guerra dos Mundos, narrando a invasão marciana na Terra. Nesta obra os alienígenas chegavam em grandes cápsulas de metal e, ao sair, destruíam toda a vida na Terra com um gás negro, não dando a menor chance à sobrevivência. Como desdobramento do movimento da Literatura de Invasão tão popular no período, Wells queria provocar entre os leitores a reflexão sobre a agressiva expansão britânica pelo globo.

Como representação dos pensamentos da época sobre sociedade e política, falar sobre marcianos era, portanto, falar sobre nós e nossos anseios, em maior ou menor grau, assim como Distrito 9 o faz nos dias de hoje. O livro de Wells, alegoria para a Inglaterra naquele período, traduzia um momento que para alguns era até considerado como de sentimento de angústia e preparo para tempos estranhos… Imagine, é aquela coisa, o sentimento de estar no ponto mais alto da montanha russa, sabendo que a partir de agora é cair. A história de Wells seria reavivada no programa de rádio Mercury Theatre em 30 de outubro de 1938, agora trocando o local da invasão da Inglaterra para os Estados Unidos.

A dramatização do livro na forma de rádio-novela foi transmitida pela CBS, adaptada, roteirizada e narrada por Orson Welles, causando inúmeros incidentes simultaneamente enquanto era exibida. Apesar de ter sido avisado logo no início da dramatização que tudo não passava de uma leitura do livro de Wells, a produção foi tão bem feita que realmente era difícil distinguir uma coisa da outra, ainda mais nos momentos em que os atores dramatizam transmissões de rádio narrando a história. Muitos dos norte-americanos que estavam ouvindo encararam o programa como fatos verídicos, forçando até uma retratação de Welles na grande imprensa. Vale lembrar que a transmissão foi homenageada 40 anos depois em uma rádio do Equador, causando o mesmo furor e ocasionando a invasão e morte de membros da estação de rádio. Em menor grau e sem morte, temos a homenagem do Ao Sugo para esta transmissão (que também incitou alguns telefonemas de amigos pedindo explicações sobre a tal invasão).

Das produções sobre Marte e marcianos, vale a pena destacar o filme soviético Aelita, de 1927. Dirigido por Yakov Protazanov e tendo nos papéis principais Mikhail Zharov e Igor Ilyinsky, Aelita narra a história de um astrônomo-cientista-something russo que não só descobriu a vida no planeta distante, como descobriu se tratar de uma sociedade de classes bastante opressiva. Viajando para Marte em um foguete chinfrim no melhor estilo Flash Gordon, Los (Zharov) convence a princesa Aelita da urgência de uma revolução socialista no planeta vermelho, único meio para solucionar todos os problemas sociais dos marcianos. Reflexo descarado do pensamento da época? Lógico, sem dúvida. Apesar de o filme ser absurdamente chato, tem uma imensa importância histórica, em especial quando se trata da história do socialismo soviético. O mais impressionante ainda é saber que o enredo é de Aleksey Nikolayevich Tolstoy, primo de nada mais, nada menos, Aleksey Konstantinovich Tolstoy, O Escritor famosão de São Petesburgo…

Está na cara que os alienígenas foram o frisson na década de 40 e 50. Guerra dos Mundos de Wells chegava como abre-alas de uma rica produção cinematográfica de temática os-alienígenas-estão-invadindo, isso porque no mundo da literatura já se falava longamente de Marte e dos marcianos desde 1880, sendo que escritores de peso como H.G. Wells, Edgar Rice Burroughs, C.S. Lewis, Ray Bradbury, Isaac Asimov e Philip Dick colocam o nome na lista. Associar marcianos e alienígenas com qualquer coisa nos céus chegou ao seu extremo em 1947 com a queda de alguma-coisa-sabe-lá-o-quê em Roswell, nos Estados Unidos… se há vários séculos a  Terra foi plana, que os mares foram habitados por criaturas abissais ou, mais impressionante ainda, que o mundo divino, invisível e até o faérico esteve mais próximo de nós do que nunca, muito fácil foi incluir os alienígenas cabeçudos de olhos grandes na coleção. Dos desdobramentos em filmes e livros, faça a sua lição de casa e dê uma fuçada no Ao Sugo, já que temos alguns artigos sobre isso. Fora isso, continue olhando para o céu que não faz mal a ninguém, obrigado.

Saiba mais:

Escute agora a gravação de Guerra dos Mundos no Mercury Theatre

Leia a homenagem do Ao Sugo à gravação de Guerra dos Mundos

Assista ao filme soviético Aelita

Leia sobre a HQ The Groom Lake

Fique entendido nos papos alienígenas de Arquivo-X

Veja uma autópsia alienígena

Leia sobre Distrito 9, mas uma visão aosugolesca, lógico

Victor Hugo, aguardando os Cylons

1 comentário »

  1. Acho que vale a pena colocar aqui um trecho do feedback com a @fariaeliane quando ela comenta sobre o Google Mars Street View…

    Pois bem, existe o Google Mars. Assim como existe também o Google Moon. Contudo, ambos estão com defeito, já que mostram paisagens inóspitas, vazias, sem ninguém…

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