Embora seja Cientista Político hoje, minha primeira formação foi como Historiador. Mas sempre tive um ou mesmo os dois pés atrás com a História… o que me leva a pensar que, de certa forma, sempre tive um pé atrás com a Ciência, embora ela seja uma excelente amante, ao contrário da Metafísica, algo particular que um dia, dadas as condições positivas, eu talvez venha a “filosofar”. Mas estou escrevendo esse post, para o Ao Sugo, para homenagear o talvez mais perturbador e impressionante livro de autoria de Philip K. Dick: “O Homem do Castelo Alto”.

Mas o que diabos têm a ver “os dois pés atrás com a História” com este livro de K. Dick. Muita coisa. “O Homem do Castelo Alto” foi originalmente publicado no ano de 1962, no auge da Guerra Fria entre Estados Unidos da América e a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e foi vencedor do Prêmio Hugo, uma das maiores premiações da literatura no mundo. E sua história, embora escrita por um dos mais geniais escritores de Ficção Científica, não tem “que” algum de Sci-Fi. A literatura de Sci-Fi é, grosso modo, voltada a temas futuristas. A própria literatura produzida por K. Dick é muito ambientada no futuro, embora seu apreço seja o drama humano, seja localizado na Terra, Marte ou onde quer que seja. Mas “O Homem do Castelo Alto” não segue esse caminho. Ao contrário, lida, em boa parte, com o passado mesclado a experiência presente. E, nessa perturbadora obra, o presente do período (a década de sessenta do século XX) tem ares nefastos para a humanidade: a Segunda Guerra Mundial foi vencida pelo Eixo (Alemanha, Japão e Itália) e não pelos Aliados (EUA, URSS, Grã-Bretanha, França).

Alguns anos atrás, quando morava na cidade do Recife, revirando a Livraria Cultura me deparei com esse livro e fiquei meio “apalermado”. Sabe quando você se depara com algo, uma idéia boa, mas tão boa que você sente vontade de que ela fosse, originalmente sua? Pois é. Foi o caso. Comprei o livro imediatamente e levei-o até um bar que existe ao lado da Livraria e pedi uma cerveja preta Malzebier e uma porção de pastel de tomate. Li primeiro uma história do Planetary no gibi da “falecida Pixel” e me prontifiquei a desbravar as páginas do “Homem do Castelo Alto”.

Toda a história é muito pessoal, os personagens são tangíveis e todos são parcialmente unidos pelo mais antigo Oráculo: o I CHING. As perguntas ao oráculo são constantes e passadas a cada capítulo. “Pela Força!” me lembro de esbravejar entre um gole da cerveja preta, uma mordida no pastel de tomate e algumas páginas viradas. O mundo como enxergamos é outro. O Holocausto foi quase total na sua meta nazista de eliminar o povo judeu. As populações africanas e de descentes de africanos foram novamente submetidas a escravidão. No livro K. Dick chega a dizer que o verdadeiro Holocausto foi na África, que se tornou um grande laboratório nazista. Os Estados Unidos foram divididos e rachados politicamente em quatro Estados nacionais… divididos na sua esfera de influência pelo Reich e pelo Império Japonês. Boa parte da história se passa nos Estados Americanos do Pacífico, sob influência japonesa. E é lá que se desenvolve, nessa realidade, um dos mais nefastos planos do Reich e que, “pelo andar da carruagem”, desencadeará a Terceira Guerra Mundial caso alguns personagens, “pegos pelo laço da História” não se movimentem.

Não vou entregar as “surpresas” do livro para quem deseja ler (e eu recomendo muito). Na verdade quero mais é dividir as chamadas angústias. Quatro dias atrás terminei de reler “O Homem do Castelo Alto”. O espanto continua o mesmo. A forma como K. Dick conduz esse mundo, como apresenta as transformações sociais e o que de mais podre a humanidade traz consigo ainda me imprimiu o espanto. Isso em pequenos parágrafos em que o autor cita um homem negro escravizado ou um dos personagens sendo preso por ser judeu e recebendo a tenebrosa notícia de que será “julgado” na Alemanha, salvo engano meu, em Nuremberg.

Irônico, não? É neste ponto que retomo o “pé atrás com a História”. Ou ao menos como ela pode ser construída. No “Homem do Castelo Alto” a história dessa realidade alternativa parece se dobrar, quase como se houvesse necessidade “metafísica” de se ajustar a outra realidade, a nossa. Existe um livro dentro do livro no “Homem do Castelo Alto”. E o I CHING foi o instrumento que K. Dick utilizou para escrever seus capítulos, perguntando a todo momento que rumo deveria se tomar a história intitulada “O gafanhoto torna-se pesado”. O homem do castelo alto (personagem do título) escreveu um livro no qual o cenário histórico mostra a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. Esse livro contém um romance dentro dessa realidade paralela no qual Nova York não se tornou uma cidade com “fornos crematórios” de judeus.

Entretanto, essa meta-história contida no “Homem do Castelo Alto” discute algo que é comum a toda literatura de K. Dick: percepção de realidade. Quando se lê “O Homem do Castelo Alto” percebe-se claramente que as histórias de mundos paralelos tendem a se cruzar de certa forma. E mais ainda, de forma particular a quem vos escreve: que história nos chega e em que medida é possível pensar que nossas decisões e não-decisões podem nos levar a rumos perigosos e nefastos para nós, indivíduos e sociedade?

Esta talvez seja a maior carga que a releitura desse livro me traz. Parece que K. Dick, através de seus personagens, antecipa de certa forma a teoria do caos na literatura. Pequenos efeitos geram grandes resultados. Pensar todas as atrocidades da Segunda Guerra Mundial e a forma como o mundo foi dividido pelas potências Aliadas me remete a pensar em benefícios da vitória dos Aliados, bem como em malefícios na distribuição de guerras micro-localizadas no globo, para ficar apenas em um exemplo.

O livro é muito bom, não tenham dúvida, caras leitoras e leitores. Vale muito a pena se deter e, através da imaginação, conhecer este mundo paralelo, tão diferente, mas com tantas semelhanças com o nosso mundo. E, talvez isto seja o mais assustador de tudo. De qualquer forma, acho que lá pelo ano que vem devo reler novamente “O Homem do Castelo Alto”. E, claro, tomando cerveja preta e comendo pastel de tomate.

Ben Hazrael, especial para o Ao Sugo

3 comentários »

  1. Tenho muito interesse por livros assim, e me arrependo de ñ ter tido o mínimo de coragem de procurar nada desse gênero pra comprar. Mas já está anotado.

    Muito me interessa assuntos sobre a Segunda Guerra, e sempre a ótica diferente de cada autor.

    Aliás, parabéns pelo ótimo texto!

    • Olha a listinha de livros e filmes distópicos e/ou com realidades alternativas que você deveria ler:

      – O Homem do Castelo Alto (livro)
      – 1984 (livro)
      – Do Androids Dream of Electric Sheep (livro)
      – Blade Runner (filme)
      – Ghost in the Shell (anime)
      – Ghost in the Shell – Innocence (anime)
      – Neuromancer (e a Trilogia Sprawl)
      – V de Vingança (HQ e filme)
      – Metropolis (os dois)
      – District 9 (não é distópico nem realidade alternativa, mas a discussão é boa)

      A gente tem artigos pra tudo isso aí né. Ah, e você já sabe, mas lá no Tannhauser é o lugar onde a gente gosta de discutir justamente essas coisas: https://aosugo.wordpress.com/tanhauser/

      Thanx Juli

      • Veja vc que eu não sou tããão desinformada assim heheheh
        Eu já assisti Blade Runner e V de Vingança.
        Procurarei a HQ do V.

        Adorei a lista, e queria me dedicar mais aos livros ^^

        Valeu Victor

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