Saindo do Bueiro

Tartarugas em uníssono: “Cowabunga!!”

Depois de devidamente apresentadas em As Tartarugas Ninja, a Mutação de um Fenômeno – Parte Um, chegou a hora de falarmos mais um pouco sobre os nossos defensores mutantes e ninjas que vivem nos esgotos de Nova York. Desta vez, entretanto, concentremo-nos nas adaptações cinematográficas das Tartarugas Ninja. Afinal, como a franquia de sucesso que tinha se tornado, era uma questão de tempo até que os cascos de Leonardo, Rafael, Donatello e Michelangelo encontrassem seus caminhos tortuosos até a telona.

O final da década de 1980 já via as Tartarugas frente a uma legião de fãs atrás dos gibis, do desenho animado e, evidentemente, dos brinquedos. Entre várias versões das Tartarugas que eu tinha, uma delas eram modelos pequenos, do tamanho de um bonequinho de Lego, talvez, que vinham todas em uma cartela só. Apesar de não ser possível brincar com essa versão com outros bonecos (a não ser, possivelmente, numa bizarra mistura com Lego – o que fiz muito), eu adorava essa porcaria.

Aliás, cabe dizer, meu irmão tinha um boneco de um ninja genérico do Clã do Pé que, possivelmente, foi seu brinquedo mais duradouro. O boneco perdeu braços e pernas, mas foi devidamente “consertado” (à melhor perícia de crianças abaixo dos dez anos) com metralhadoras e espadas no lugar de seus membros anteriores.

Enfim, voltando ao assunto. O ano de 1990 viu o lançamento do primeiro longa-metragem live action das Tartarugas Ninja. Aos fãs dos personagens, a notícia era um êxtase dificilmente explicável, ainda mais naquela época em que não se sabia muito do lançamento desses filmes até que fossem, de fato, lançados. Era um tapa na cara dos fanáticos.

O Destruidor, arquiinimigo das Tartarugas Ninja (no original, The Shredder)

Intitulado simplesmente de As Tartarugas Ninja (ou, no original, Teenage Mutant Ninja Turtles, com um eventual “The Movie” acrescentado em algumas exibições), o filme era dirigido por Steve Barron, do ramo de videoclipes, e foi distribuído pela New Line Cinema, filmado no verão norte-americano de 1989 na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, com tomadas em Nova York, e estreou menos de um ano mais tarde. A produção tinha forte influência do desenho animado, o que quer dizer um clima razoavelmente mais “leve” que os gibis e as Tartarugas diferenciáveis pelas cores de suas faixas. Vamos lembrar que, nos gibis, todas usavam faixas vermelhas. Inclusive, o filme manteve a ideia de April O’Neill como uma videorrepórter, ao contrário dos quadrinhos, em que ela era uma cientista.

Ainda assim, a atmosfera do longa era razoavelmente sombria, com tomadas noturnas da frequentemente úmida Nova York. Existia certa violência e um palavreado não muito politicamente correto à época, embora não fosse nada pesado e cheio de palavrões. Evidentemente, o alívio cômico era presente (em muitas vezes protagonizado por Donatello e Michelangelo), mas dosado. Aqui, a origem das Tartarugas, do Mestre Splinter e do Destruidor eram contadas, assim como as relações estabelecidas com April e o justiceiro Casey Jones. O plot era simples: as Tartarugas surgiam para refrear a onda de crimes provocada pelo Clã do Pé sob a liderança do Destruidor, cuja identidade só seria revelada no final do filme.

Casey Jones, como caracterizado em As Tartarugas Ninja, de 1990.

As fantasias das Tartarugas eram um primor para a época, sendo que os atores físicos e os das vozes eram diferentes, com exceção de Josh Pais, que representou Rafael em ambas as situações. Só por curiosidade, vestiam as roupas de Tartarugas, além de Pais como Rafael, Michelan Sisti como Michelangelo, Leif Tilden como Donatello e David Forman como Leonardo. Algo interessante é que todos esses dublês físicos apareceram no filme sem ser com as roupas de Tartarugas, como figurantes. Pais é o passageiro de um táxi (que curiosamente atropela o próprio Rafael, enquanto “disfarçado” com um sobretudo cinzento e chapéu); Sisti faz um entregador de pizzas, Tilden um mensageiro do Clã do Pé e Forman um líder de gangue. As vozes ficaram por conta de Corey Feldman como Donatello, Brian Tochi como Leonardo e Robbie Rist como Michelangelo. Só uma nota: um valentão do filme é caracterizado por um jovem Sam Rockwell, o excêntrico presidente do universo Zaphod Beeblebrox de O Guia do Mochileiro das Galáxias e o bilionário armamentista Justin Hammer em Homem de Ferro 2.

É claro que As Tartarugas Ninja, de 1990, não é relevante por seu elenco. Perdoem-me pela franqueza, ninguém ali foi um grande despontamento dramático. Talvez o de maior projeção tenha sido, justamente, Sam Rockwell. E isso só foi agora, depois de fazer muita porcaria (tipo As Panteras). Além dele, outro nome aí reconhecível é, de fato, Corey Feldman. Não se lembra dele? Corey Feldman é Clark “Bocão” Devereaux de Os Goonies e Edgar Frog em Os Garotos Perdidos, verdadeiros clássicos oitentistas.

Mesmo assim, o filme era uma produção admirável e que respeitava o amor tiete dos apreciadores da franquia. As Tartarugas atuavam pelas sombras; levava tempo até elas surgirem na tela e, quando acontecia, faziam aparições memoráveis. As cenas de luta são numerosas e bem coreografadas, ainda mais se considerarmos que eram caras usando fantasias ridiculamente quentes e fisicamente restritivas, o que resultou em demonstrações notáveis de proeza e destreza marcial. Os alívios cômicos, como supramencionado, são bem dispostos no roteiro e sem extrapolar a paciência. Trocando por miúdos, a produção era divertida; um bom filme de ação. Era tão divertido que, mesmo com as críticas confusas e divergentes (provavelmente feitas por pessoas que não conheciam o material base) rendeu mais de 200 milhões de dólares ao redor do globo. Um faturamento considerável, ainda mais para um filme que havia custado 13,5 milhões de dólares, apenas.

O final da película (para o inferno se não quiser ler spoilers, o negócio já tem 20 anos de existência) fulgura uma empolgante batalha entre o Destruidor e o próprio Mestre Splinter, que se encerra com o bandido sendo jogado em compressores de lixo. Não preciso dizer mais nada. Todos os conflitos se resolvem no final do filme, que foi um representante consideravelmente capaz não só dos próprios personagens e suas características mais marcantes (como o espírito de liderança de Leonardo, a cabeça-quente de Rafael, o brilhantismo mecânico de Donatello e a extroversão de Michelangelo), como também da própria transição da década de 80 para a década de 90 em termos de estética na moda, na música e nos costumes. Há uma ascensão de hip hop e skates, videogames e uma atmosfera que muitos, atualmente, considerariam nostálgica; e tudo isso misturado com artes marciais. São 93 minutos de pura diversão. Sem mais, fiquem com o trailer:

O tropeção

Vanilla Ice: “Go, Ninja, Go, Ninja, Go!”

O sucesso foi tão grande que, certamente, os estúdios não deixariam passar a possibilidade de uma continuação, mesmo que o primeiro filme se resolva em si mesmo e não exija tal. Foi por isso que, logo depois, iniciou-se a produção do segundo longa da série, As Tartaturas Ninja II: O Segredo do Ooze (Teenage Mutant Ninja Turtles II: The Secret of the Ooze), de 1991. Mais uma vez distribuído pela New Line Cinema, entretanto sob a direção de Michael Pressman, que tinha experiência com filmes para a televisão e seriados. No enredo principal via-se uma substância radiotiva, o misterioso ooze. O roteiro fica ao redor dessa gosma verde que, supostamente, é a responsável pela mutação das Tartarugas, em uma revisitação às origens dos heróis da saga. O Destruidor retorna e reergue o Clã do Pé para mais planos megalomaníacos de preponderância.

Aqui já se via o começo dos problemas da franquia nos cinemas. As piadas ficaram mais tolas e mais frequentes, as cenas de luta foram diminuídas e eram mais bobinhas, com armas improvisadas com brinquedos ou coisa do gênero. Para se ter uma ideia, Leonardo e Rafael usam as suas armas apenas uma vez no filme todo. As próprias Tartarugas pareciam, de todo modo, personagens muito mais tolos do que no filme anterior. Em vários aspectos, O Segredo do Ooze era uma produção inferior, mesmo que o orçamento fosse praticamente o dobro do primeiro: 25 milhões de dólares. O elenco principal teve mudanças, como o papel de April O’Neill que passou de Judith Hoag para Paige Turco, além da saída de Josh Pais (dublê físico e voz de Rafael), Corey Feldman (voz de Donatello) e David Forman (dublê físico de Leonardo), que foram substituídos por Kenn Scott (dublê físico de Rafael), Laurie Faso (voz de Rafael), Mark Caso (dublê físico de Leonardo) e Adam Carl (voz de Donatello)[1].

Tokka e Rahzar, vilões mutantes criados para Tartarugas Ninja II: O Segredo do Ooze

Além dessas mudanças e do roteiro consideravelmente mais infantilizado, o filme trazia dois vilões mutantes para enfrentar as Tartarugas. Agora, ao se falar de “dois vilões mutantes” a primeira ideia que vinha na cabeça da molecada eram os já conhecidos Bebop e Rocksteady, o javali e rinoceronte mutantes que, de fato, eram inimigos das Tartarugas, criados no desenho animado como figurantes e que acabaram caindo no gosto dos fãs. Em vez de utilizá-los, contudo, a produção do filme preferiu inventar outros, criados pelo Destruidor para enfrentar as Tartarugas de igual para igual, oriundos de outra tartaruga e um lobo e chamados, respectivamente, de Tokka e Rahzar. Já mais perto do final do filme, as Tartarugas, enquanto lutam contra Tokka e Rahzar, acabam dentro de uma apresentação mega-underground do… Vanilla Ice? Após segundos de estranhamento, o cara começa a cantar ao ritmo do conflito entre os mutantes. “Go, Ninja, Go, Ninja, Go”, ele cantava. Sério, Todd Langen (o roteirista)? Quer dizer… Que diabos foi aquilo? Logo depois, o inimigo número um das Tartarugas bebe o último frasco de ooze e se transforma no Super Destruidor (oooh!!) que morre sem dar um só golpe.

Não é questão de abrandar a brutalidade e/ou aumentar a quantidade de piadas, e sim a maneira como essas intervenções foram executadas em primeiro lugar. É possível reduzir a batelada de cenas de lutas, desde que se faça uma devidamente coreografada, com plano-sequências dignos da proeza física das Tartarugas Ninja. É também admissível aumentar a coleção de piadas, desde que elas não percam o precioso timing para serem feitas. Ou seja, é imaginável, sim, dar ao filme uma feição mais leve sem torná-lo aparvalhado. Ah!, quase me esqueço de dizer que Casey Jones, o justiceiro capaz de enfrentar uma das Tartarugas na porrada, nem sequer é citado em O Segredo do Ooze. O sucesso do segundo filme foi consideravelmente menor: pouco menos de 80 milhões de dólares gerados nos Estados Unidos, com escassa representação a adicionar à soma no exterior, contra os 200 milhões de seu predecessor.

Entretanto, admitamos; mesmo com todas as falhas (que são muitas) e a galhofada, em Tartarugas II a história avançou um pouco e ainda dá para se divertir com a produção. Apesar de cair mais para o lado da comédia do que da ação (ao contrário do primeiro filme), são aí quase hora e meia de entretenimento. No final das contas, o apego aos personagens acaba falando mais alto e a gente até tolera a palhaçada em prol de nossa própria sanidade. E o filme acaba sendo bastante divertido. Eis o trailer:

Do bueiro para a lixeira

Fãs de Tartarugas Ninja ao redor do globo: “Santa Tartaruga…”

Dois anos mais tarde, o terceiro filme da cinessérie de As Tartarugas Ninja foi anunciado. Mesmo com o graúdo arrefecimento do sucesso do segundo longa em relação ao primeiro, Tartarugas ainda era uma franquia muito bem acertada, dentro ou fora das grandes salas de cinema. Por causa disso, a New Line Cinema lançou, em 1993, As Tartarugas Ninja III (Teenage Mutant Ninja Turtles III). Fora dos Estados Unidos, a distribuição ficou em cargo da 20th Century Fox, um dos estúdios capazes de render, ao público nerd, grandes produções como a trilogia clássica de Star Wars e também grandes porcarias, como a nova trilogia Star Wars.

Ao contrário do segundo filme, Tartarugas Ninja III não tinha nenhum subtítulo. O filme foi dirigido e escrito por Stuart Gillard, que já comandara projetos de filmes para a televisão e algumas minisséries. As mudanças de elenco aconteceram mais uma vez. Nos dublês físicos das Tartarugas, apenas Mark Caso, que foi o dublê de Leonardo em O Segredo do Ooze, continuou. Como Rafael entrou Matt Hill, Jim Raposa como Donatello e David Fraser como Michelangelo. Tim Kelleher deu novo brado a Rafael e Corey “Bocão” Feldman retornou ao elenco principal como a voz de Donatello [2].

Tartarugas Ninja III, todavia, acabou sendo um tapa na cara dos fãs. Com um orçamento estimado em 17 milhões de dólares (em algumas fontes, tal valor sobe para 21 milhões de dólares), ele foi o mais mal sucedido de todos. Nos Estados Unidos, o filme gerou pouco mais de 42 milhões de dólares; no exterior, sua representação foi ainda mais inexpressiva, e o filme não conseguiu nem igualar o faturamento que O Segredo do Ooze tinha feito apenas nos EUA. Para todos os efeitos, o fracasso de bilheteria era tudo, menos infundado.

O longa de 1993 apresentava um enredo mirabolante envolvendo uma viagem temporal para o Japão do início do século XVII. Ambiente para o qual as Tartarugas são transportadas (April também, lembremos) por meio de troca equivalente: isso quer dizer que duas pessoas com a mesma massa corporal devem segurar um cetro para “trocarem de tempo” e se transportarem pelas eras. Aliás, as duas pessoas devem, supostamente, estar segurando o tal cetro ao mesmo tempo. Pois é, duas pessoas de mesma massa corporal e em tempos diferentes devem segurar o cetro ao mesmo tempo. Isso poderia (veja bem, poderia) gerar uma discussão acerca de como se dá a passagem temporal, já que o fato de ter de “segurar o cetro ao mesmo tempo” conflita diretamente com a noção de tempo linear de grande parte das culturas mundiais e, principalmente, ocidentais. Um embate sobre como encarar o próprio Tempo e as eras do mundo como lineares, cíclicas ou coexistentes era uma forma de garantir um mínimo de sagacidade ao defeituoso roteiro. Contudo, nenhuma questão semelhante é levantada nos insuportáveis 96 minutos de película.

Enredo mirabolante e baixa qualidade das fantasias estão entre os motivos do fracasso de Tartarugas III

As Tartarugas veem-se em meio a um conflito com um daimio para tentarem voltar para casa e, além disso, acabar ajudando um bando de camponeses japoneses. Em nenhum momento qualquer inimigo conhecido das Tartarugas de outras mídias, como Krang ou o próprio Destruidor, são sequer mencionados. A trama espalhafatosa segue de forma rasa, desconsiderando quaisquer possibilidades de que as mudanças provocadas pelas Tartarugas no Japão medieval possam resultar drásticas alterações do presente.

A parte isso, em Tartarugas III vemos as piores coreografias de luta da série aliadas às piores piadas. A todo tempo o roteiro tenta enfiar goela abaixo colocações espertinhas dos personagens principais, sendo quase sempre irritantes brincadeiras como a do dedo molhado na orelha ou “Ajude-me, sou uma tartaruga, não consigo levantar”. Extremamente mal recebido pelos fãs e pela crítica, os principais defeitos apontados são o próprio enredo e a falta de combate (algo a se esperar em um filme das Tartarugas Ninja). Além disso, as baixas qualidades das fantasias das Tartarugas e do Mestre Splinter são colocadas como um dos maiores erros da película. Isso porque a empresa responsável pela animatrônica nos dois filmes anteriores, a Jim Henson’s Creature Shop (fundada em 1979 pelo criador dos Muppets, Jim Henson), não retornou para o fiasco que foi Tartarugas III. Um personagem de potencial que regressou ao terceiro longa foi Casey Jones. Todavia, o justiceiro mascarado chutador de bundas foi reduzido a uma babá para japoneses medievais no século 20, em irritantes sequências em que lidava com o anacronismo pastelão dos convidados.

Viagem ao Japão medieval e envolvimento em conflitos locais são o argumento do terceiro filme da franquia

Se existe um adjetivo para definir a película, talvez não seja nem “decepcionante”, mas “revoltante”. O filme é um desrespeito aos personagens criados por Peter Laird e Kevin Eastman, dando-lhes faces e características excessivamente caricatas, coisa que nem o desenho animado tinha feito. A estética de Tartarugas Ninja III era imbecilizante e o roteiro parecia escrito por uma criança com sérios problemas de estabilidade mental. Tratar um tema como viagem no tempo de forma tão leviana era um insulto à inteligência de qualquer telespectador, assim como meramente ignorar todo um universo criado por histórias em quadrinhos, desenhos animados e action figures por quase dez anos era um desrespeito aos fãse tentar dar ao produto uma roupagem que não só era inadequada, como incondizente a tudo que havia acontecido até então.

O que demanda maior ponderação é tentar entender os porquês de variações tão drásticas na fórmula da cinessérie que havia raiado, em 1990, de forma tão prodigiosa. Inserções cirúrgicas de bom humor aliadas às empolgantes sequências de ação, com um enredo simples e, todavia, funcional, eram características que se tornaram a força motriz do primeiro longa. Há tempos que, muitas vezes, o grande mérito de um filme, livro, conto ou o que seja nem é a história em si, e sim a maneira como ela está sendo contada. Abandonar os preceitos que fazem uma franquia divertida é, ingênua e puramente, uma decisão ilógica dentro de parâmetros de enredo. Ao final das contas, Tartarugas Ninja III não só é um péssimo filme das Tartarugas Ninja, como plenamente um péssimo filme. Eis o trailer do desastre:

Saindo do casco

Michelangelo: “Eu já disse isso antes e vou dizer de novo…”

Leonardo, Michelangelo, Rafael e Donatello: “…Eu adoro ser tartaruga.”

Aliado ao fracasso Tartarugas Ninja III, a franquia sofreu uma considerável queda no renome, o que inclusive causou o cancelamento da série Volume 2 nos gibis, como foi comentado no artigo anterior. Nos cinemas, Leonardo, Rafael, Donatello e Michelangelo haviam perdido de vez seu espaço e, dentre o público leigo e no senso comum, As Tartarugas Ninja caíram no ocaso. Certamente, levaria ainda um bom tempo para a franquia retornar às telonas, se retornasse.

Em 2000, um novo longa-metragem feito em computação gráfica foi anunciado, supostamente sob o jugo do guru de filmes de ação John Woo. Entretanto, o plano nunca saiu do papel e o diretor acabou indo para outros projetos. Foi somente em 2005 que um novo longa para o cinema de As Tartarugas Ninja começou seu desenvolvimento e pré-produção. A direção e o roteiro estavam nas mãos do relativamente neófito Kevin Munroe, que tinha apoio, além dos produtores, de ninguém menos que o próprio Peter Laird. Os produtores, inclusive, insistiram na ideia de que o filme fosse todo feito em CGI (algumas pessoas sugeriram que fosse uma mistura de live-action com computação gráfica). As animações ficaram em cargo do estúdio Imagi Animation Studios, fundado em 2000 em Hong Kong e com escritórios em Los Angeles, nos EUA e em Tóquio, no Japão.

Orçado em cerca de 34 milhões de dólares, o novo longa, intitulado no Brasil As Tartarugas Ninja: O Retorno (nos Estados Unidos o filme saiu com a alcunha de TMNT, somente), foi lançado em 2007 com distribuição da Warner Bros. Mundialmente, o filme gerou praticamente 96 milhões de dólares, um valor respeitável para uma animação. Para o lançamento, a Warner apostou em estratégias de marketing que iam além da divulgação em convenções de quadrinhos. No Brasil, por exemplo, a distribuidora contratou a agência de publicidade Ginga, que apostou no marketing de guerrilha, que acaba atingindo grandes parcelas de público com pouco gasto. Foi criado um blog para a produção, o estamoschegando.com.br (hoje fora do ar). Nele eram divulgadas pistas sobre o mistério, como vídeos de bandidos sendo amarrados a um poste por uma mão verde. Pessoas chegavam em seus carros e shurikens de papelão estavam colados na lataria e publicitários-chave recebiam pizzas com marcas de mordida, isso tudo sempre acompanhado do endereço do tal blog, com um clima de mistério, uma contagem regressiva e apenas poucas pistas do que aquilo tudo poderia ser. Pouco antes da estreia nos cinemas brasileiros, no tempo em que se zerava a contagem regressiva das propagandas anteriores, um vídeo foi projetado em um prédio de 25 andares da Avenida Paulista, em São Paulo, no qual as Tartarugas salvavam vítimas de um prédio em chamas.

Shurikens em carros era uma das medidas que convidavam uma visita ao blog da estratégia de marketing de divulgação

Bandidos capturados:

Projeção Paulista

Já em relação à própria produção, acho seguro dizer que a primeira impressão ao saber que se trataria de um longa todo em CGI foi estranheza. Lembro-me claramente de opiniões divergentes em relação ao que realmente pensar a respeito, se funcionaria ou não. Com teasers e imagens saindo meses antes do lançamento oficial nos cinemas, as críticas pairavam principalmente no design dos personagens, desde as próprias Tartarugas aos humanos. O julgamento revolvia-se na questão de figuras excessivamente caricatas, embora a texturização fosse deveras adequada.

De minha parte, evitei condenações apressadas e, certamente, senti-me na obrigação de assistir ao filme e compreender se a ressurreição da franquia nos cinemas seria um feito notável. Passaram-se 14 anos desde a última falha adaptação, era tempo demais para concluir, de sopetão, se teríamos mais um longa enviesado por roteiro falho. As estratégias de marketing atiçaram meu lado de fã, que clamava intensamente por um retorno glorioso, contudo, minha parcela crítica tinha receio do que poderia vir. Em razão do conflito, evitei ao máximo criar expectativa, mesmo com o trailer atrativo.

Trailer TMNT

O enredo de TMNT tem mais em comum com o Volume 4 dos quadrinhos do que com as histórias do começo da série ou dos videogames e desenhos animados. Aqui, as Tartarugas já não são mais adolescentes e enfrentam outros problemas. Muitos deles, cotidianos. Cronologicamente, o longa não ignora os três primeiros filmes e tem lugar depois de todos eles, realmente como se tivesse passado um tempo de mais de dez anos de todos aqueles acontecimentos. Logo, no cenário desse longa, o Destruidor já está derrotado e morto. O Mestre Splinter mandou Leonardo, o líder das Tartarugas, para treinamento na América Central, enquanto seus irmãos tentaram se situar na cidade de Nova York para manterem-se ocupados.

Donatello trabalha com atendimento por telefone, especializado em computadores e tecnologia. Michelangelo estabeleceu-se como mascote para festas de aniversário chamado Cowabunga Carl, e Rafael é o único que continua, escondido de todos, combatendo o crime na metrópole, vestindo uma armadura e sob a alcunha de Vigilante Noturno (Nightwatcher). As vozes das Tartarugas ficam por conta de atores especializados na dublagem de desenhos animados e/ou videogames. São eles: James Arnold Taylor como Leonardo, Nolan North como Rafael, Mitchell Whitfield como Donatello e Mikey Kelley como Michelangelo. A dublagem do Mestre Splinter ficou nas mãos de ninguém menos que Mako, ator japonês famoso no mundo nerd por personagens como O Feiticeiro e Narrador de Conan: o Bárbaro (1982), que mais tarde receberia o nome Akiro em Conan: o Destruidor (1984), além do feiticeiro Nakano em Highlander III (1994). Nascido Makoto Iwamatsu em Kobe, no Japão, é um dos fundadores da escola de atores East-West Players, em Los Angeles, nos EUA. Vítima de câncer de esôfago, faleceu em julho de 2006, ano em que completaria 73 anos de idade. TMNT foi seu último trabalho para o cinema.

A dublagem de Mestre Splinter em TMNT foi o último trabalho para o cinema do ator japonês Mako

Como faz parte de uma linha histórica que envolve os três primeiros filmes, o Destruidor não é o inimigo das Tartarugas, embora seja citado durante os diálogos dos personagens principais. O Clã do Pé agora está sob a liderança da kunoichi Karai, dublada pela estrela chinesa Ziyi Zhang, de filmes como O Tigre e o Dragão (2000), Herói (2002), O Clã das Adagas Voadoras (2004) e Memórias de Uma Gueixa (2005), entre outros. O vilão da vez é Max Winters, um bilionário excêntrico que contrata April, que não é mais uma repórter, mas sim uma espécie de caçadora de artefatos arqueológicos, para encontrar estátuas antigas que, na verdade, são seus antigos generais petrificados. Winters, de fato, é um antigo guerreiro que conquistou a imortalidade há três mil anos. Ele desperta seus generais e começa a juntar 13 feras para abrir, novamente, um portal para outro mundo. Para ajudar na demanda, contrata Karai e o Clã do Pé. Seus objetivos, contudo, são mais do que se pode pensar em um primeiro momento. Quem empresta a voz a Winters é ninguém menos que Sir Patrick Steward, o eterno Capitão Jean-Luc Picard, de Star Trek: A Nova Geração.

Em meio ao burburinho, Leonardo retorna para a cidade grande e precisa lidar com a falta de disciplina dos irmãos; Splinter, inclusive, proíbe que eles lutem na superfície até que a equipe esteja, novamente, preparada para agir junto. Isso gera conflitos entre os irmãos, principalmente entre Leonardo e Rafael. A propósito, Casey Jones está de volta; mora junto com April (com quem tem um firme relacionamento) e também se aventura na noite como justiceiro mascarado com um bastão de baseball na mão, do jeito que todos queriam. É ele o primeiro a descobrir a identidade do Vigilante como sendo Rafael. Todavia, não a revela a ninguém e ajuda-o no combate ao crime.

Relações entre os quatro irmãos é um dos temas principais do longa TMNT

O clima de TMNT é sombrio. Mesmo com o CGI dando uma face obviamente mais cartunesca aos personagens, o longa está longe de ser infantiloide. São excelentes e empolgantes cenas de batalha, auxiliadas por incisões humorísticas cuidadosas em meio àquela que é a mais adulta das adaptações. Até certo ponto na projeção, atmosfera é de abandono. E o plot é apenas um pano de fundo para ilustrar o que é realmente importante ali: as relações das Tartarugas entre si, seus conflitos por serem excluídos e heróis que caíram no entardecer de seu passado outrora glorioso, e como eles estão lidando com o fato de, agora, serem adultos. Maturidade, algo que sempre falta às pessoas, é um dos temas centrais. E todos esses tumultos geram uma das melhores cenas feitas até hoje para a franquia: o combate entre Leonardo e Rafael, repleto de fúria, destreza marcial e tensão.

Ao final das contas, As Tartarugas Ninja: O Retorno é uma produção que respeita os fãs. O filme não tenta revigorar a série e aumentar sua legião de admiradores, mas sim, num esforço admirável, entregar aos seus antigos apreciadores uma história simples e funcional, digna de deslumbramento, em que o mais importante são os personagens. É mostrar para os antigos fãs, que agora estão crescidos, que seus heróis de épocas passadas também cresceram e, em muitos aspectos, enfrentam problemas semelhantes. De uma vez por todas deixar claro que, revolvidos entre mil problemas e dificuldades, entre memórias e nostalgias, passados, presentes e futuros, os quatro irmãos mutantes e ninjas estarão sempre com a gente para mostrar que, ainda que tenhamos vontade, não podemos querer ficar encolhidos dentro de nossos próprios cascos.

Marcus Vinicius Pilleggi

Não esqueça de visitar a primeira parte desse artigo, no qual apresentamos os personagens e falamos sobre as histórias em quadrinhos. Não perca tempo e corra para As Tartarugas Ninja, a Mutação de um Fenômeno – Parte Um

Notas

[1] A dublagem de As Tartarugas Ninja II: O Segredo no Ooze ficou em cargo da Delart, sob a direção de Pádua Moreira. O elenco principal é: Marco Ribeiro como Rafael, Márcio Simões como Donatello, Manolo Rey como Leonardo, Marcelo Meirelles como Michelangelo, Dario Lourenço como Splinter e Isis Koschdoski como April O’Neill.

[2] Novamente sob as responsabilidades da Delart e da direção de Pádua Moreira, o elenco principal de dublagem manteve-se o mesmo em As Tartarugas Ninja III.

3 comentários »

  1. Yeah! Salve..salve… Salve Santa Tartaruga… rsrs..

    Bom já rasguei elogios lá no twitter…agora vou deixar registrado aqui no blog too.. =P

    Tartaruga Ninjas fez parte da minha infância.. bons tempos…. bons tempos. Para falar a verdade, eu só gostava do desenho hahaha.. nunca peguei uma HQ ou qualquer outra coisa relacionada a eles. Então.. já fiquem cientes de que não tenho muito conhecimento de causa pra ficar debatendo (e isso nem é my intention)

    Acredito que TMNT é o único ícone do “universo masculino” que eu tinha uma afeição. Bom… o que se esperar de uma pessoa que nunca se interessou por superhero(s) de HQ – good guy(s) em busca de justiça e blá blá blá, que se transformou(ram) em desenho animado, filme or whatever..

    Esse especial me trouxe uma boa recordação: meu companheiro de todas as horas, meu tijolinho… meu game boy! Ohhh saudades… =)
    Tinha vários cartuchinhos… Super Mário, Tetris, Puyo Puyo..entre outros e no meio disso tudo tinha um das Tartarugas Ninjas. Eu gostava de jogar pq era facinho de passar as fases e tals… até o p/ derrotar o Destruidor (Shredder)era tranquilinho. Só ficava irritada quando enfrentava o Krang… aquele chiclete mastigado fdp fdp fdp… hahaha bons tempos, bons tempos… Eu ainda tenho os cartuchos… mas meu game boy já era.. =P

    Obrigada pelo maravilhoso texto… bem estruturado, informativo… parabéns…

    beijos.. e vida longa ao AO SUGO!!!

    Ah! Pô sacanagem…vcs falaram mal do Johnny Bravo enrustido – Vanilla Ice. A participação dele no filme foi o “best part”.. aquela dancinha e tudo mais.. hahaha

    Aposto que o Vanilla Ice foi inspiração para o Van Partible. =P

  2. Grande Vini! curti mto a matéria! com certeza compartilhamos muitas discussões sobre as tartarugas na infância.

    Me bateu aquele “sexto sentido” quando você me lembrou das mini tartarugas que vocês tinha, do tamanho de LEGOS. Aquilo, apesar de simples, era fantástico… ! Tenho uma cena na mente quando vcs levaram as tartarugas lá pra Campinas uma vez hehe.

    E o boneco todo improvisado com pedaços de arma??? esse era um clássico haha!

    Enfim, bela matéria! Abraços

  3. Olá amigo.
    Só deixar uma informação, na verdade os personagens Tokka e Rahzar são oriundos dos quadrinhos, enquanto Bebop e Rocksteady assim como kreng, foram inventados para a primeira versão dos cartoons, que diga-se de passagem foge em muito a história original dos quadrinhos.

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