Mitologia – Arquivo X nos Cinemas

Por ter começado a assistir ao seriado em 1995, é evidente que não acompanhei Arquivo X na sequência correta. Pelo menos não na primeira vez. Comecei pegando uns episódios pingados da segunda temporada e já ficando extasiado com as preciosidades da terceira temporada, aí já na ordem. Foi graças aos sábados de reruns e maratonas infinitas da FOX em 1996 que pude me atualizar em tempo. Contudo, desde a estreia da terceira temporada, com o sucesso mais do que consolidado, que começou o burburinho de Arquivo X ir para o cinema, um projeto de três anos e ultra mega hiper articulado com a série nas três temporadas seguintes, a terceira, a quarta e a quinta.

Scully: “Eu não acho que seja boa ideia antagonizar com a polícia local. ”
Mulder: “Quem, eu? Eu sou o Senhor Simpatia.”
Scully: “Nunca se sabe quando você vai precisar da ajuda deles hoje em dia.”
Mulder: “Eu vou enviar um bolo pra ele.”

Como já indicado no fim da primeira temporada no episódio “Jogo de Gato e Rato”, o seriado teria vários arcos, ou seja, episódios interligados cujos temas e desdobramentos seriam retomados futuramente. Com a gravidez de Gillian Anderson na segunda temporada os roteiristas tiveram a ideia de contar a sua “abdução alienígena” no seriado como forma de explicar a ausência por licenças médicas, dando o pontapé crucial para que a equipe passasse a usar este evento como parte de algo bem maior. Estavam criando, portanto, a famosa “Mitologia” de Arquivo X , contando da relação de algumas “pessoas seletas” do governo com um projeto megalomaníaco de colonização do planeta Terra.

Essas “pessoas seletas” formavam assim um “Sindicato das Sombras”, atuando desde 1948 na catalogação dos seres humanos e facilitação para os procedimentos de colonização, a ser realizada em 50 anos da data do acordo. Como mostrado na terceira temporada, em grandes campanhas de fachada, como a Vacinação contra a Varíola, esse Sindicato ganhava acesso ao DNA de toda a população norte-americana[1], podendo assim estudar e criar vários híbridos humano-alienígenas, resistentes e mais submissos que a espécie humana para o trabalho escravo num futuro não muito distante.

Dr Eckerle: “A imagem daquelas baratas estão permanentemente impressas no meu cérebro. Eu as vejo toda vez que fecho os olhos.”
Xerife Frass: “Tente não fechar os olhos.”
Dr Eckerle: “Como eu vou fazer pra dormir? E onde? Com certeza eu não vou passer a noite aqui.

Na quarta e quinta temporadas nós aprendemos que, neste complexo e longo processo de preparação para a colonização, os alienígenas e agentes do Sindicato das Sombras pesquisavam as formas mais eficientes de inoculação do Câncer Negro, uma forma de vida alienígena senciente que, quando inserida num corpo hospedeiro, ao consumi-lo, gerava um ETezão de dentro pra fora. Não sabiam os alienígenas que o Sindicato das Sombras lutava contra o tempo em busca de uma vacina capaz de imunizar alguns poucos selecionados contra a inoculação do tal Câncer Negro. E, pois bem, a conclusão nós veríamos no primeiro filme, lançado imediatamente após o fim da quinta-temporada!

Complicado, não? Nem tanto. Para ajudar os telespectadores em uma época de reprises e VHS, a Abril Vídeo lançou no Brasil algumas fitas com episódios selecionados narrando justamente os elos da Mitologia. Como em cada temporada havia, em média, apenas uns nove episódios de 26 dedicados à Mitologia, era possível fazer uma preparação de emergência para assistir a um filme que estava sendo vendido como “compreensível até mesmo para aqueles que nunca assistiram ao seriado”. Daí o relativo fracasso de bilheteria.

Mulder: “Ainda está aqui, Scully. Há 200.000 anos. No gelo.”
Scully: “Deixe lá.”

O filme “The X-Files – Fight The Future” foi um delírio para os fãs que acompanhavam o seriado, os “excers” ou “x-philers”. Lembro que fui com um amigo no cinema, pois ele queria que explicasse as conexões da Mitologia e, mesmo já sabendo dessas coisas todas, foi um choque mesmo assim. O filme colocava finalmente o plano de colonização em nível global, falando que os alienígenas e o tal do Câncer Negro já estavam no planeta Terra há milhares de anos. Não havia chance alguma. Os membros do “Sindicato das Sombras” não estavam só tentando “lutar contra o futuro”, mas sim “inventar” um futuro novo nesta nova ordem mundial. Saí da sala do cinema olhando pro céu esperando pelo próximo disco voador, porque não era possível… Era uma ficção impressionantemente absurda, mas impressionantemente muito legal para um nerd. Estávamos secos para ver a sexta temporada.

Avacalhando o Fim – Os Maias já sabiam da Colonização

Em 1997 e 1998, a produção de Arquivo X gozava de imensa fama no mundo televisivo. Mesmo com a baixa bilheteria do primeiro filme do seriado nos Estados Unidos, o filme se pagou e rendeu de maneira absurda fora da terra do Tio Sam. O final do filme mostrava que Mulder e Scully na verdade apenas sabiam da ponta do iceberg sobre a Colonização, havendo, portanto, tanta coisa para ser explorada e contada. Nesta mesma época, Carter dizia de boca cheia que Arquivo X tinha fôlego para durar mais dez anos ou mais, prometendo ser a segunda franquia de maior sucesso além de Jornada nas Estrelas, que já dura mais de 40 anos.

Scully: “Aquelas luzes que o motorista viu podem ter sido gás do pântano.”
Mulder: “Gás do Pântano?”
Scully: “É um fenômeno natural em que fosfano e metano de material orgânico se incendeiam, criando globos de chama azul.”
Mulder: “Acontece comigo quando eu como Dodger Dogs.”

Mulder e Scully estavam em todo lugar, seja no primeiro desenho 3D (horrível, que passou por um tempinho no Multishow) Reboot como “Fax Modem” e “Data Nully”, seja nos Simpsons com as vozes de Duchovny e Anderson, considerado até hoje como o melhor episódio com participação de convidados. Revistas e jornais internacionais lançavam capas dos dois agentes na cama, provocando os fãs e criando os “shippers”, os fãs malucos que faziam um bolão para ver quando os dois iam se beijar no seriado (pois é, da paixão platônica e da tensão sexual todo mundo sabia, mas seria o começo do fim ultrapassar os limites).

A fama subiu à cabeça de Duchovny e, como exigência para retornar na sexta temporada como Mulder, as filmagens deveriam ser transferidas para os Estados Unidos. Longe por tempo demais da esposa, a atriz Téa Leoni, Duchovny via a brecha surgir depois do estrelato, seguido de Anderson, ao desejar retornar aos Estados Unidos de vez. A verdade é que em Los Angeles a coisa seria outra.

Garganta Profunda: “Você está horrivelmente quieto, Sr. Mulder.”
Mulder: “Estou imaginando em qual mentira acreditar.”

A transferência da produção de Arquivo X para Los Angeles afetou estruturalmente o seriado, mudança perceptível em vários níveis. Em novos estúdios, o seriado ganhava não só uma nova equipe de produção, como se tornaria mais “claro”, por conta da própria mudança climática e de ambiente. Isso, estou falando da iluminação e fotografia mesmo. Longe das coníferas e da constante chuva de Vancouver, Los Angeles oferecia aos roteiristas novas oportunidades para pensarem em novas aventuras e possibilidades, mas alterava drasticamente a proposta estética anterior. Simultaneamente, tínhamos atores em pé de guerra nos sets, com brigas entre Duchovny e Anderson pelos salários exorbitantes que já ganhavam desigualmente[2].

Com episódios diferentes e com uma estética diferente, tínhamos um seriado totalmente… diferente. Duchovny saía da atração ao fim da sétima temporada em busca de outros projetos, justificada na Mitologia como outra abdução alienígena; agora, a de Mulder. A partir deste ponto, ao contrário do rendimento impressionante da abdução de sua parceira cinco temporadas atrás, para muitos a saída do agente paranóico degringolava de vez o seriado, pois a atração perdia a sua motivação, a sua razão de ser… De fato, não fazia o menor sentido deixar a busca por alienígenas na mão de Scully, a personagem que nunca acreditou… Viu inúmeras vezes, mas nunca acreditou. E aí entra o T-1000.

Scully: “Eu já deveria estar aprendendo a confiar nos seus instintos.”
Mulder: “Por quê? Ninguém mais confia.”

Para dar um novo respiro, Chris Carter colocaria uma nova dupla no seriado, o cético John Doggett (Robert Patrick, o famoso T-1000 de Terminator 2) e a crente e com experiência em ocultismo Monica Reyes (Annabeth Gish). Sem desmerecer o trabalho de Patrick e Gish que é, de fato, excelente, parecia uma brincadeira ruim de inversão de papéis, estando a Scully como uma consultora chata e, contudo, com um pouco mais de mente aberta. Para a produção da série, o novo respiro sem Duchovny surgia como uma promessa de continuação no século XXI, justificando assim uma nova abertura com novos créditos e uma atualizada geral nas fotos do pessoal (pois até então tinha sido a mesma por 7 temporadas, vencedora de prêmios por ser uma das mais inovadoras da televisão em 1993).

Os episódios “Monstro da Semana” continuaram fascinantes, como diria Spock. Justamente por ter saído de Vancouver, Arquivo X podia deitar e rolar nas facilidades de ser produzida no meio de onde tudo é produzido no cinema. Por outro lado, a Mitologia se perdeu com a ausência do agente Mulder. Se Arquivo X era antes marcado pela busca de Mulder pela irmã há muito raptada, agora virava uma bola de neve, rolando totalmente descontrolada morro abaixo, com novas perguntas em vez de responder todas as questões trazidas pelo filme e pelas temporadas anteriores.

Scully: “Mulder, aquela bactéria que enviei para análise; eles dizem que aquilo não existe na Natureza. Eles estão dizendo que pode ser extraterrestre.”

Muito infelizmente, Arquivo X definhou lentamente como assim aconteceu com a franquia Jornada nas Estrelas. Ao fugir do arroz-feijão e abandonar as premissas anteriores, a audiência de Arquivo X quase retornou para os mesmos índices quando estreou em 1993, mostrando não só a mudança e/ou fracasso da produção em conseguir atualizar com eficiência os roteiros e tramas, mas também a mudança da audiência, outra galera interessada em outras coisas e outras besteiras. Como um último prego no caixão, filmaram um episódio final contando todos os segredos da Mitologia de uma só vez, revelando que a Colonização teria como data marcada dezembro de 2012. Parecia um comediante que precisa explicar a piada. Um comediante maia.

Eu quero acreditar

Desacreditada, esta nova fase de Arquivo X ainda teria outra chance no mundo no cinema, apontada por muitos como, finalmente, uma decisão acertada. Sendo o seriado de ficção científica de maior duração da televisão[3], todo mundo percebeu que Arquivo X acabara mal. Como forma de consertar a caca dos quatro últimos anos, para Carter e sua equipe de produção, o segundo filme deveria se ancorar no estilo “Monstro da Semana”, fugindo assim da Mitologia há muito desgastada. Nada de alienígenas, Colonização, híbridos e super-soldados. O negócio agora era voltar para o bizarro.

Scully: “Eu ainda não entendi. O que o faz ser problema nosso?”
Mulder: “Roubar uma loja de joias é crime federal.”
Scully: “Obrigada.”

Depois de longos seis anos de espera, a equipe de Arquivo X retornava a Vancouver para as filmagens do segundo longa, “Eu quero acreditar”. Como um fechamento adequado aos nove anos de série, o filme mostrava uma Scully e um Mulder desligados do FBI e descrentes de vez no sistema[4], trabalhando como consultores em um caso especial de assassinatos em série. Como já dito por outros, os novos agentes do FBI retratados no filme, assim como a foto de George Bush no Bureau, refletia a mudança dos tempos, estranheza para os fãs do seriado que sempre viam a foto de Bill Clinton na parede do escritório do Diretor Skinner (Mitch Pilleggi).

Scully: “O que você vai fazer agora? ”
Mulder: “Eu sei o que eu não vou fazer. Eu não vou esperar até que John Barnett me envie outra Valentine.”
Scully: “Você quer dizer o fantasma do Barnett?”
Mulder: “Eu não disse que você acredita em fantasmas, Scully.”

Neste filme que, muito felizmente[5], parece um grande episódio do seriado, a dupla de agora ex-agentes deve solucionar um mistério envolvendo o sequestro e assassinato de mulheres, sendo que um ex-padre católico tinha o poder de prever os próximos passos do assassino. Perfeito. Até podiam estar se copiando[6] no enredo, mas voltaram para o arroz-feijão das primeiras temporadas, misturando thriller com paranormalidade de uma forma que não agradou a todos, mas fugia das atrocidades cometidas nos últimos episódios. Paralelamente, nós vemos a dupla se questionando a todo o momento sobre a crença e a fé na busca pela verdade, cruzada desgastada ao longo de nove anos. Pois é, a verdade continua lá fora e, apesar de não ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria, o segundo longa chegava com um clima de nostalgia, reconciliação[7] e um excelente acerto de contas. O próximo longa está agendado[8] para dezembro de 2012.

Música de outro planeta

Em 1997, os tempos eram outros. Existia lá perto da casa da minha avó uma locadora de CDs, uma ideia incrivelmente maluca e genial que não teria tanto sucesso no Brasil. Ah, digo isso porque aqui no Japão já percebi ser um costume comum alugar CDs também em grandes lojas, enquanto o nosso costume por aí é adquirir os álbuns para ouvir eternamente por 1583 vezes consecutivas. E por conta desse costume eu não agüentei e importei o álbum “The Truth and The Light: The Music from the X-Files” naquela mesma lojinha que hoje não existe mais.

Sr X: “Sua passagem aérea.”
Mulder: “Bem, nós acabamos de nos conhecer…”

É, de certa forma, estranho admitir que até ouvir aquele CD eu nem prestava tanta atenção assim na trilha sonora de Arquivo X, eu que, músico, sempre fui fissurado por essas coisas. A verdade é que até ouvir aquele CD eu nunca tinha prestado atenção na trilha sonora de Arquivo X. E tem até um sentido. Ela não é ruim, nem estava escondida, mas estava organicamente encaixada na atmosfera sombria do seriado. Por isso.

Skinner: “Quando eu comecei nesta sala ficava apenas a copiadora.”
Mulder: “Pelo menos o espaço não era desperdiçado.”

Assim como Jornada nas Estrelas – A Nova Geração e Jornada nas Estrelas – Deep Space Nine, Arquivo X é reconhecido por revolucionar o meio televisivo por ser um dos seriados com maior duração de trilha sonora instrumental nos episódios, crucial para a criação e persistência de uma atmosfera particular. Ao contrário de temas para cada personagem, Arquivo X tinha motivos abstratos assustadores, desde violinos no tenso pizzicatto para as cenas com alienígenas, até o uso de percussão e sintetizadores para criar uma sensação opressora. Você simplesmente não tinha como perceber quando o clímax ia acontecer ou terminar, ficando aquela sensação de estar “no meio” de uma tensão sem fim.

Melissa Scully: “Me falaram para não te chamar de Fox.
Mulder: “Quem?”
Melissa Scully: “Dana. Agora há pouco.”

Diferentemente da trilha sonora de Star Wars (de John Williams, como já tratado aqui no Ao Sugo) que atua diretamente como parte do enredo, ou seja, imagem, música e história percebidas de modo sincrônico, a trilha sonora de Arquivo X é climática.  Nos temas de Williams e seu ídolo, Wagner, a música não é absoluta, ela não se resolve nela mesma, dependendo de certos contextos para aparecerem. O tema da Leia Organa Solo só aparece quando a Leia Organa Solo aparece na cena, senão olhe lá…

Skinner: “Onde ela está? Onde ela está? Isso é algum tipo de negociação?”
Mulder: “Nós não temos tempo. Se em algum dia eu precisei da sua ajuda, sua confiança, eu preciso dela agora.”

A proposta musical de Mark Snow já se aproxima de Mahler, Brahms e Liszt, estando mais próxima de um poema sinfônico do que qualquer outra coisa[9]. A trilha de Arquivo X não foi criada para contar parte da história por meio da música, mas sim auxiliar a trama através de climas diferentes. Longe de ter temas atrelados a cada objeto retratado na tela, a trilha de Snow se foca em temas (abstratos ou não) específicos para causar impressões específicas, não sendo, portanto, sincrônica. E daí o porque dela ser repetida várias vezes em outros episódios sem o menor problema.

O álbum supracitado é uma obra à parte. Primeiro que as faixas não deixam espaço para pausas, parecendo uma trilha contínua e orgânica de quase 50 minutos. Fora isso, com diálogos-chave de Mulder e Scully sobrepostos na trilha sonora, além da participação de Skinner, Duane Barry e o Canceroso, é como se você estivesse assistindo às melhores partes de cada episódio em uma atração só.

Melissa Scully: “Por que está tão escuro aqui?”
Mulder: “Porque as luzes estão apagadas.”
Melissa Scully: “Okay…”

Contudo, “The Truth and the Light” possui temas referentes até a terceira temporada, não incluindo as músicas cantadas que Carter gostava de inserir nas histórias mais bizarras. Nos episódios do tipo “Monstro da Semana”, o criador da série tinha uma paixão por selecionar músicas antigas de amor e momentos felizes para as situações mais escabrosas possíveis, gerando um conflito de sentimentos impressionante. Ainda é bastante tenso ver a Scully baleada e morrendo num episódio da sexta temporada ao som de uma velha gravação de “Have Yourself a Merry Little Christmas” ou ouvir uma Cher animada em um episódio cujo vilão deformado estupra as mulheres de uma cidadezinha norte-americana…

As trilhas para os filmes foram igualmente compostas por Snow, sendo a do primeiro filme orquestrada e quase sem o uso dos sintetizadores (com exceção da primeira faixa, uma atualização da música tema em grande estilo e de explodir o cérebro), divergindo da proposta sonora dos episódios do seriado. Na trilha do segundo filme, Snow já resgata os sintetizadores, não para recuperar a atmosfera dos episódios em si, mas mais para dar uma nova roupagem à trilha orquestrada do primeiro filme. Maluco, não?

Skinner: “Temo olhar além daquela experiência. Você? Você não. Seu pedido de exoneração é inaceitável.”
Mulder: “Você. Você que me deu a localização do Canceroso. Você colocou sua vida em perigo.”
Skinner: “Agente Mulder, todo dia na vida estamos em perigo. É assim mesmo.”

Para além dos três álbuns orquestrados (“The Truth and The Light: Music from The X-Files”, “Fight the Future – The Score” e “I want to believe OST”) Carter ainda lançou outros dois com seleções de músicas cantadas do rock contemporâneo. Não, não as músicas cantadas dos episódios malucos, mas uma seleção das coisas que Carter estava ouvindo durante a produção que achou interessante divulgar… Besteirada à parte, “Fight the Future – The Album” ainda possui um valor todo especial, lançado ligeiramente antes do primeiro filme e com um segredinho que na época que ouvi quase me matou, isso no final de 1997. Se você colocasse num CD player convencional[10] na faixa 1 e apertasse o Rewind, a faixa simplesmente voltava para uma numeração NEGATIVA, contendo mais de 4 minutos com Carter revelando a Mitologia inteira. Era de matar.

Desdobramentos

Sem sombra de dúvida, Arquivo X deixou uma marca[11] na televisão norte-americana como a conhecemos hoje, um legado que considero problemático e que não honra em nada a influência do seriado no modo de fazer TV. Porém, um legado. Ok, estou sendo muito cruel e criando inimigos, afinal, o estilo de personagem feminino de gênio forte de Arquivo X seria inspiração para outras atrações, como Alias e o seriado britânico Torchwood (com a premissa similar de agentes na busca de OVNIs e vida inteligente extraterrestre, mas com uma cara totalmente diferente, inglesa). Entretanto, dos demais seriados que surgiram[12] após Arquivo X , devo citar Supernatural, LOST e Fringe, substitutos que atenderam as novas demandas da nova audiência que Carter não conseguiu captar.

Mulder: “Eles vieram, Scully. Aqueles que levaram ela. Eles estavam aqui.”
Scully: “Aqui? Ou aqui?”

Supernatural (assim como Buffy, Angel, Charmed, entre outras atrações que atraem telespectadores não pelos roteiros inteligentes, mas pelos hormônios) seria anunciada em algumas revistas americanas e brasileiras como o substituto imediato de Arquivo X , pois trazia dois irmãos correndo atrás de fantasmas, demônios e tantos outros anjos caídos. Tal qual uma piada de mau gosto à la Constantine de Keanu Reeves, Supernatural tinha dois garotos saradões como protagonistas na melhor estética de Vampire Diaries, Twilight[13] e Smallville, enfrentando problemas que resvalam em mitologias antigas e mistérios do ocultismo em roteiros simplistas e bobinhos para atrair a molecada. E ai daquele que postar um comentário aqui dizendo que estou fazendo uma crítica ranzinza ao seriado, pois já saberemos de imediato que esta pessoa não conheceu Arquivo X .

Fã declarado do seriado de Carter, o produtor e diretor J. J. Abrams[14] criou rapidamente dois filhotes (descarados) de Arquivo X que pensavam em conspirações mirabolantes, consideradas as sucessoras imediatas da saga cult na inteligência e espírito. Fringe seria pendurada nas conspirações secretas em torno do saber científico, todavia, não tendo nem a originalidade de criar uma vinheta e tema de abertura diferentes da estética criada por Arquivo X … Sim, a musiquinha executada no piano cheio de arpejos em acordes menores, correndo com a sucessão de imagens enigmáticas sobre o desconhecido.

Scully: “O Diretor Assistente me disse que Mulder se foi.”
Agente Morris: “E?”
Scully: “Então, independente do que ele tenha dito, eu só alimento seu peixe.”

LOST seria apontada como a atração mais inteligente da última década com seus episódios girando em torno de um grande mistério, como se os roteiristas já soubessem de toda trama desde o primeiro episódio. Com o regurgitar de pontas soltas, rebarbas e perguntas sem resposta ao longo de suas temporadas, LOST terminava de maneira decepcionante, mostrando-se como um grande experimento de Pavlov ao testar a reação e paciência de uma legião de fãs no mundo todo. Continua…

Victor Hugo, Pistoleiro Solitário

Se você pegou o bonde andando, não perca a primeira parte do Especial Arquivo X do Ao Sugo. Nesta primeira parte nós falamos sobre a concepção do seriado, personagens e estilos de episódios, sendo crucial para compreender este fenômeno da década de 90. No mais, leia a Parte 3, agora com uma sugestão quentíssima de episódios para telespectadores de primeira viagem e também de clássicos para os fãs do seriado, fora Arquivo X nos livros e em quadrinhos. A verdade está no Ao Sugo.

Notas:
[1] Dentro da ficção de Carter supõe-se, é claro, que estas campanhas e estratégias do Sindicato das Sombras estavam operando em vários países estratégicos. Como podemos ver pelos episódios “Os Nisei”, “731”,” Tunguska” e “Terma”, o governo japonês e o governo russo também estavam trabalhando com agendas similares.
[2] Duchovny e Anderson receberam quantias iguais pelo primeiro filme do seriado, ao contrário do que dizia o contrato. Diferente do elenco dos seriados contemporâneos como Jornada nas Estrelas – A Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager em que todos eram amigos dentro e fora do set, o burburinho no começo da nova temporada preocupava a produção. Pouco antes do lançamento do filme, diziam os rumores que Anderson estava descontente com a situação do seu salário ser inferior ao de Duchovny, o que realmente não fazia sentido dada a sua importância na atração.

[3] Estando atrás apenas de Stargate SG-1 do nosso eterno Richard Dean MacGyver Anderson. Cá entre nós, a ideia de Stargate era boa demais. Era.

[4] Digo “de vez” porque Mulder sempre questionou e lutou contra as duras imposições do “sistema”. Dentro da Mitologia de Arquivo X , por duas vezes o alto escalão do FBI fechou a seção dos Arquivos X sob influência do Sindicato das Sombras, não sendo motivo, nestas vezes, para Mulder desistir de sua busca pela verdade. Muito ironicamente, causada pelos eventos do final do nono ano, parece que a descrença de Mulder refletia a descrença de nós, telespectadores, no seriado.

[5] Confesso que a minha opinião sobre o segundo filme da série já mudou tantas vezes como Osgiliath trocou de mãos pouco antes da Batalha nos Campos de Pelennor, variando de uma ligeira apatia pela ligeira aprovação. Agora que estou tão longe do Brasil e há um longo tempo sem assistir a um mísero episódio ou filme de Arquivo X, admito que encaro a coisa de maneira nostálgica. O último filme não me assustou como o primeiro, contudo, lembrando as palavras do nosso camarada Aron Palo, foi um final digno para a saga. Espero que tenha sido, na verdade, um recomeço digno.

[6] Não deixe de assistir aos eletrizantes “Clyde Bruckman’s Final Repose” e “The Oubliette”, cujos enredos influenciaram diretamente a trama do segundo filme.

[7] Tanto Duchovny como Anderson afirmaram inúmeras vezes à imprensa que estavam animados e felizes com o projeto, após tantos anos de briga, o que, de certa forma, foi um alento incrível. Quanto aos personagens, acredito que a Scully está particularmente implicante demais neste longa. Diferente dos episódios e do primeiro longa, em que ela se mostrava descrente, porém tentando ao menos aplicar alguma lógica na situação, neste longa ela parece ter desistido de tentar aplicar qualquer tipo de pensamento racional, científico, religioso ou o que seja.

[8] Depois da longa espera de seis anos pelo segundo longa é difícil pensar em datas fechadas para Arquivo X. Contudo, desta vez Carter quer trazer os alienígenas de volta à trama… E, por mim, tomara que traga, mas sem resgatar os eventos malucos das últimas quatro temporadas.

[9] Como explica meu irmão Pedro Kebbe, “podem ver… os títulos das músicas que compõem a trilha de Star Trek e Arquivo X são temáticos, induzindo você a imaginar um clima e interpretá-lo da sua maneira. Star Wars (seguindo a obra de Wagner) é diferente, pois os títulos estão relacionados com a história em si.” Isso de certa forma é refletido na maneira de como enxergavam a Música, já que Wagner e Liszt nunca se deram bem, um achando que a música deveria estar presa num enredo e o outro achando que ela deveria se resolver nela mesma. Continua meu irmão: “Liszt rompe com o modelo sinfônico, pois a sinfonia tratava de assuntos filosóficos e mentais humanos. Para Liszt, a música era uma arte separada das outras, criando o conceito de poema sinfônico, como em Fausto do Goethe em que propõe uma narração musical do livro. Por outro lado, temos Wagner que, também, rompe com a sinfonia, mas usando alguns de seus preceitos para experimentar e tentar elucidar coisas que nem a Música em si, ou outras formas de arte conseguem. Para Wagner, tudo é sincrônico…”

[10] O que se perdeu com a distribuição em massa da música por MP3 disponíveis nas lojas online.  álbum ainda mantém a faixa secreta mencionada aqui, iniciando no minuto 10´33”. Infelizmente, como é possível ver no seu iPod ou MP3/MP4 player que a faixa tem mais de 14 minutos de áudio, a surpresa fica revelada de cara, perdendo o charme que tinha em 1997 e 1998…

[11] É lógico que Arquivo X gerou dois spin offs, Millennium e Os Pistoleiros Solitários, sendo que tenho um carinho especial por Millennium. Infelizmente cancelados prematuramente, merecem outro post exclusivo aqui no Ao Sugo para além de um ou dois parágrafos.

[12] São tantos, até Taken entra na onda. Falar em alienígenas depois de Arquivo X se tornou praxe: se Independence Day achava que colocou os ETs no mapa, ledo engano. E também existem muitas curiosidades esquisitas: vocês sabiam que a trilha sonora de Smallville, o Barrados no Baile com Superman e Malhação, não apenas era do Mark Snow como muitos trechos foram literalmente reaproveitados de “The X-Files – Fight The Future”?

[13] Arquivo X se inspirou em Além da Imaginação, em inglês, “The Twilight Zone”, seriado que marcou profundamente a televisão americana por quatro décadas e influenciou tantos outros. Acho engraçado e terrivelmente triste que hoje em dia quando as pessoas pensam em algo com o “Twilight…” já falam diretamente da horrenda saga Crepúsculo, atestando como a audiência de fato mudou nesses últimos tempos.

[14] O meu problema não é com os seriados em si e nem com a iniciativa de “copiar” uma série que gosto tanto, afinal, não estando ela no ar, é uma maneira dos fãs taparem o buraco televisivo de alguma forma. O que me irrita na verdade é o crédito que Abrams tem levado como um dos mais originais e criativos da atualidade, desconsiderando a série que lhe inspirou de maneira tão profunda. Isso não chega a ser culpa de Abrams em si, mas sim da maneira como os estúdios e a televisão vendem as suas produções… ok… Mas, de fato, isso me irrita (e muito) porque os telespectadores de primeira viagem nem sempre tem ou tiveram a chance de conhecer Arquivo X.

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

3 comentários »

  1. “A verdade está no Ao Sugo” hahahaha vc é um comédia mesmo, Victor!!!
    Caramba, estava pensando “cá com meus botões e gibis” se realmente vale a pena completar a série do Arquivo X até a sexta temporada…dúvida cruel…
    Agora, assisti alguns episodios de Fringe e me pareceram bem interessantes. Tanto que estou comprando o box da primeira temporada para ver, detalhadamente, se é uma boa “sucessora” de Arquivo X.
    De repente, mais a frente, valeria a pena comparar o desenvolvimento destas novas séries de ficção científica pós Arquivo X de forma mais detalhada…affe, meu nerdismo atualmente está elevado heheheeh

  2. Você é muito bom, sabia?
    Gostei muito do que escreveu.
    Tenho a série completa de Arquivo-X, e é ótimo saber que ainda tem gente que gosta.
    Eu desenvolvi uma certa antipatia por Supernatural. Acho que justamente porque ficam dizendo que “novo Arquivo-X”.
    Haha, me dá nos nervos quando eu falo de “Twilight Zone” e as pessoas pensam em Crepúsculo.

    • “Twilight Zone”= Crepúsculo adolescente? Affe, vc tem razão de ficar “nos nervos”. Pior que isso, para mim, é aquela velha máxima de “gibi é coisa de criança”. Já nem fico mais com raiva, mas se for possível, peço e empresto aos infelizes “Hábitos Perigosos” do John Constantine para ler. Dai depois de lerem, pergunto: “coisa de criança, né? fraldinha no máximo”. heheheh

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