Cyberpunk

“O céu por cima do porto tinha a cor de uma TV ligada num canal fora do ar”

– Neuromancer, pg. 11

Confesso que fico irritado com o filme Matrix (1999). Considerado por inúmeras pessoas da década de 1990 como a piração máxima do mundo tecnológico, é uma grande infelicidade perceber que a maioria desconhece as origens e inspirações desse filme. Como já dito anteriormente no Portão de Tannhauser, essa era a idéia de futuro que tinhamos na década anterior, os anos 80, um período em que a realidade mediada pela tecnologia ainda não passava de uns poucos insights criativos. E nada mais. Deixarei aqui um bla bla bla imenso para apresentar um vídeo bastante antigo, porém muito perturbador.

Após a explosão de cabeças com Do Androids Dream of Electric Sheep de Philip K. Dick e Blade Runner de Ridley Scott, estavam dispostas as cartas que mostrariam um futuro bastante próximo e inexoravelmente degradante e pessimista, características marcantes do Movimento Cyberpunk que se opunha ao futuro maravilhoso da Ficção Científica tradicional. Em Do Androids Dream of Electric Sheep em 1992 já estaríamos numa pindaíba. A saga do Exterminador do Futuro de James Cameron já diria que em 1997 estaríamos vivenciando o fim da humanidade como a conhecemos… Blade Runner contaria que estaríamos perdidos em 2019. Neuromancer, 2021. Ghost in the Shell, 2029. Ghost in the Shell – Innocence, 2032, Solid State Society, 2034.

Movimento Cyberpunk

Tido por uns como a continuação imediata das obras de Philip K. Dick, Neuromancer e os outros livros da Trilogia Sprawl de William Gibson fundariam de maneira definitiva o Movimento Cyberpunk, delineando os contornos da Matrix e do Ciberespaço como tanto falamos hoje em dia. Verdade seja dita: foram poucos do mundo das artes, do cinema e da literatura que conseguiram traduzir a imagem de ciberespaço como uma alucinação consensual, uma área que só poderia ser acessada através da junção da realidade orgânica com a máquina. Seria uma realidade produzida e mediada pelos computadores, definida, no entanto, mais pelas interações sociais neste mundo artificial do que pelo próprio advento da tecnologia mais sofisticada (apesar de sabermos, pobres mortais, que para tanto precisamos da mais sofisticada das tecnologias).

A imaginação em torno do que seria o ciberespaço evidentemente foi marcada pelas limitações tecnológicas das décadas de 80 e 90. Enquanto as pinturas de inúmeros artistas retratam variadas maneiras de encarar a Matrix, Tron (1982), Freejack (1992) e Homem Aranha 2099 (1996) apostam num mundo de realidade virtual chapado, o “3D sem textura” como diz Alottoni do Jovem Nerd, um mundo artificial bastante restrito e ainda desprendido da realidade.

Movimento Cyberpunk

A coisa muda de figura com os dois filmes Ghost in the Shell de Mamoru Oshii e posteriormente com o próprio filme Matrix (1999) que, dentro de 10 anos de avanço de computação gráfica, internet, redes, etc, puderam encarar o ciberespaço de maneira diferente. Mais sofisticado e mais imediato, o ciberespaço já seria não um artefato de poucos cowboys como Henry Dorsett Case de Neuromancer, mas sim um espaço de ampla utilização por toda a sociedade. Se jogos como Second Life e World of Warcraft assustariam a todos por simular um universo (virtual) em que as pessoas de fato se fazem presentes, Matrix e Ghost in the Shell chutariam as portas com tapa na cara, mostrando que esse universo está mais próximo do que a gente imagina. As tecnologias de Realidade Aumentada ou Expandida de hoje em dia que o digam.

Tendo escrito Neuromancer em 1984 numa máquina de escrever tradicional e com uma absurda incompreensão de computadores na época, Gibson previu um mundo novo de tecnologias até então não imaginadas. Philip K. Dick discutia o estatuto da humanidade colocando homens cara a cara com máquinas que se parecem, agem, respiram, comem, dormem e fazem sexo como homens. Já com o mundo de Gibson você poderia facilmente se viciar no ciberespaço, sentir prazer e dor por algo que não existe ou então até mesmo morrer por algo de mentira. O “estatuto da Humanidade” que estava em discussão com as obras de Philip K. Dick agora deveria ser revisto, pois para ser um humano do mundo moderno, você também deveria entrar no mundo da máquina.

Cyberpunk

Ok, se você é leitor do Portão de Tannhauser, isso tudo não é mais novidade hoje em dia. Já existem robôs atualmente que se assemelham aos seres humanos com pele, cílios e olhos artificiais, deixando Victor Frankenstein em torpor de prazer. E apesar do ciberespaço ainda não ser sentido por todos ou nos mesmos moldes propostos por Gibson, já sabemos há muito que ele está por aí, crescendo e às vezes aparentemente se desenvolvendo sozinho e sem controle… seja ao fazemos transações financeiras todos os dias em um simples caixa eletrônico de banco, já que estamos é movimentando dinheiro que nem existe… ou então no silencioso crescimento das redes sociais na internet… ou então na explosão de crimes virtuais pelo mundo… ou então… ah, você entendeu. E pensar que isso tudo já foi apenas a imaginação de um pessoal da década de 80:

Victor Hugo, Samurai das Ruas


GIBSON, William. 2006. Neuromancer, 3ª Edição, 4ª Reimpressão, página 11

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

4 comentários »

  1. Unbefuckinglievable! Eu ACABEI de começar a ler esse livro!!!! A-GO-RA! Ae eu vejo seu link no TT desse artigo! #m3d0

    Vamos falar dele em breve no iCult. Queria ter lido antes, mas só tive a oportunidade agora! E, mesmo no comecinho, já estou amando!!!😄

  2. A trilogia do Sprawl foi a melhor coisa que já vi na minha vida… Amo a cultura Cyberpunk, todas essas ideias de homem sendo substituído por máquinas, a grande desigualdade social e corporações tomando conta do mundo já estão acontecendo, porém são inseridas de forma tão sutil em nossas vidas que acabamos não dando conta da evolução. O Futuro é agora.

    Gostei muito do site, gostei da resenha que fez sobre “Ghost in the Shell”…

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