Ao aproximar-se da gruta, Harley foi surpreendido por homem um pouco diferente de todos ali. Sua pele parecia castigada pelo sol, ainda que fosse naturalmente morena, e vestia poucas roupas, como se feitas de cipós e peles de animais, devidamente tratadas.

Margaret e as outras pessoas estavam também espantadas. O único que não mudou a expressão foi o enigmático Cartoleiro, que seguira o grupo um pouco mais atrás.

-Alto lá, quem vem para a minha gruta? – indagou o homem. Harley desacreditava o fato dele falar sua língua com perfeição.

– Meu nome é Harley; nosso avião caiu aqui nesta ilha. Ainda estamos tentando entender o que aconteceu, a gruta pareceu um abrigo útil. Qual o seu nome?

– Meu nome é Sábado.

– Sábado? Mas por que seu nome é Sábado? – indagou Margaret.

– Pelo mesmo motivo que o dele é Cartoleiro – o homem respondeu apontando para o elegante camarada –Direitos autorais; um problema jurídico mesmo.

-Jurídico? – insistiu Harley.

-Sim, jurídico. Mas isso não importa. A gruta é um péssimo abrigo, é fria demais e tem cheiro de falta de saneamento básico. Venham comigo, vou mostrar um lugar muito melhor para que possam descansar.

Sábado seguiu floresta adentro, e atrás dele o grupo perdido vinha receoso. Novamente, apenas o Cartoleiro não perdia sua pose imponente. Harley e Margaret se entreolhavam enquanto tentavam entender tudo aquilo e ignorar os ferimentos, que pareciam mais doloridos a cada passo.

Caminharam por cerca de 40 minutos. Pelo menos foi o que Harley conseguiu calcular. De súbito tomaram um susto que quase os levou de costas ao chão. Uma clareira se abria no meio da floresta, e ali, bem no meio, estava um ônibus escolar daqueles amarelos.

– Um… ônibus? – disse Harley – O que faz um ônibus aqui?

– Oras, o que faz esta bola pintada com sangue humano debaixo do teu braço? – perguntou o Cartoleiro.

– Sangue humano? –Margaret entrou na conversa – Como sabe que é sangue humano?

– Do que mais seria? – respondeu o Cartoleiro enquanto andava na direção do ônibus.

Harley se aproximou do ônibus, olhando com desdém a bola branca. Parecia mesmo sangue humano. Mas o motivo ainda parecia nebuloso. Podia ser somente tinta mesmo, mas isso ele não saberia dizer; não ali, agora. Entrou no ônibus. Ele estava totalmente deserto. Entretanto, algo muito estranho era notável: em cada banco de cada passageiro estava uma lancheira, cada uma de uma cor diferente.

Um arrepio percorreu todo o corpo de Harley, como se tocado pelo vento frio e repentino. Sua indefinida reflexão foi interrompida ao chamado de Margaret. Harley correu para junto da mulher, notando o motivo de seu espanto. De dentro do capô do ônibus saía um grosso fio negro, desses de alta-tensão. O fio subia indefinidamente em direção ao céu, até sumir da vista.

– O que diabos é isso? – Harley desesperou-se.

– Um fio, ué – respondeu Sábado.

– Mas que fio?

– Um fio de alta-tensão – disse o Cartoleiro, manuseando algumas cartas de baralho entre suas mãos.

– Eu estou vendo que é um fio de alta-tensão! – gritou o homem, já perdendo a razão.

– Então, por que perguntou? – insistiu o Cartoleiro.

– A gente tá vendo que é um fio, mas onde ele vai dar? – Margaret entrou na discussão, tentando acalmar Harley.

– Minha senhora, você está vendo alguma asa nas minhas costas? – perguntou o Cartoleiro.

– Não.

– Então como eu vou saber onde o fio vai dar? Até onde eu sei, os mais prováveis de terem visto onde o fio vai dar eram vocês, antes de enfiar um maldito avião na minha mesa.

– Esse fio sempre esteve aqui?

– Sim, sempre.

– E você nunca o escalou para ver onde ele vai dar?

– Mas por que eu faria isso? Francamente, minha cara, eu não dou a mínima – o Cartoleiro deu de ombros e continuou fazendo pequenos truques com seu baralho.

– E quanto a você, Sábado? Sabe onde isso vai dar?

– Não sei. Mas um dia encontrei isso aqui caído ao lado dele – Sábado mexeu na sua bolsa feita de couro animal e retirou um objeto elíptico e prateado. Parecia um ovo.

– Um ovo de prata? – perguntou Harley.

– Parece, né? Deve ser, então.

– Mas que tipo de galinha bota ovos de prata? – insistiu o perdido.

– Galinha? Pelo tamanho disso, tá mais pra ovo de urubu.

– E por que o fio tá ligado no motor do ônibus? – Margaret voltou à conversa.

– Ah, isso fui eu – disse o Cartoleiro – Tentei fazer o ônibus funcionar, recarregando a bateria.

– E deu certo?

– Deu sim. Veja como o ônibus está ligado, andando e piruletando pela praia. Dá-me paciência…

– Já chega! – interrompeu Harley. Se ninguém mais quer, eu irei. Vou subir isso e ver o que tem lá em cima. Desejem-se sorte.

Harley entregou a bola a Margaret e agarrou-se ao fio, lembrando de como era escalar cordas na escola. Vagarosamente, começou a subir em direção às nuvens. Todos observavam estáticos a lenta subida do companheiro. Apenas o Cartoleiro, dentro do ônibus, procurava alguma coisa para beber.

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