Ao estrondo seguido de inúmeras súplicas e choramingos, sua reação mais instintiva foi levar a mão direita ao bolso esquerdo da parte de dentro de seu fraque. Ornado com uma fina corrente prateada, o argêntio relógio de bolso reluziu e abriu-se num clique. “Mas ainda falta mais de duas semanas!”, pensou surpreso enquanto guardava novamente o valioso artefato.

O comportamento do pelintrado mancebo era governado por indiferença, avesso às puerícias mundanas regidas por sofrimentos insignificantes. O rosto angulado e o nariz adunco não dariam menos de 30 anos, mas os olhos brilhosos acomodavam experiência e uma fausta arrogância. Polvilhado pela poeira arenosa que poluía suas vestes victorianas, tal pesadelo da causalidade não empanava a grande e insigne cartola que acalentava os negros cabelos cuidadosamente penteados (ou talvez não, o que justificaria o uso dum artigo tão eminente). A longa e negra bengala, de cuja ponta superior emanava uma esfera prateada, esticava-se sob o encolhido braço esquerdo do ilustre convidado, enquanto a mão do mesmo membro empunhava orgulhosamente uma requintada xícara de porcelana com um evidenciável representante duma infusão amornada de folhas de teáceas.

Sua desdenhosa indiferença suplantou-se de súbito pelo arrepio de chateação e descrédito. Sob os restos duma mal-fadada aeronave, via-se escapulindo dois pés dalgum móvel ilustre, agora apenas vislumbres de uma era exótica lograda em mogno. Quão insensível e inglório final, um tamanho infortúnio para um artefato assassinado, outrora tão vivaz.

– Minha mesa! Oras, que absurdo do acaso, que revés! Que gritaria, quantos choramingos! – resmungou para si e para quem quisesse ouvir.

Seus olhos percorreram a paisagem de indivíduos ressaltados em padecimentos. Num sobre-salto, quase derrubou a xícara ao ver uma pequena menina de cabelos dourados e um vestidinho que poderia ter sido azul, não fosse roxo. O susto era tudo menos insubstanciado: o Cartoleiro (o nome de nosso pretensioso pândego) lembrara de duas coisas: o quanto odiava coisas roxas e o costume detestável de garotinhas louras em roubar seus baralhos.

Só havia duas coisas a fazer agora: apresentar-se aos não-esperados inconvenientes ou sentar de vista ao profundo azul do oceano. A sagacidade do Cartoleiro era notável em seu olhar julgador, enquanto dava leves tapas para livrar-se da areia ou qualquer outra poeira perdida em sua vestimenta. Aprumou-se todo, ajeitou sua grande cartola e, num gesto nobre e fugaz, sentou-se a olhar para o mar.

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