Dentro da febre carrolliniana que chegou nestas bandas com a estreia do filme Alice nos cinemas, li num dos inúmeros artigos que saíram por aí um papo sobre as patologias de Charles Lutwidge Dodgson. O que devo entender por isso? Sério, posto aqui uma indagação polêmica sobre estes artigos que narram brevemente a vida do autor mais conhecido como Lewis Carroll, o criador de Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho.

Dodgson (1832-1898) tornou-se um mito da literatura fantástica ao criar umas das melhores histórias – se não As Melhores Histórias que brincam conosco a todo momento com a nossa frágil percepção da realidade. As aventuras de Alice certamente desafiaram a imaginação da Inglaterra vitoriana, como assim ainda desafiam a nós mesmos com os inúmeros jogos e brincadeiras sobre o mundo dos sonhos.

Em Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland, 1865) temos a aventura de uma menina inglesa de 7 anos que, ao seguir um coelho correndo todo apressado após olhar o horário em seu relógio no bolso, estaria perdida em um mundo literalmente maluco de cartas de baralho e criaturas mágicas. Ao cair vagarosamente em um longo poço por longos minutos a fio, a pequena Alice já percebia de antemão que estava entrando em um universo bastante diferente, porém bastante próximo do seu. Estaria ela ficando louca, perdendo a cabeça, chegando ao outro lado do mundo?

Bem, essa estória todo mundo conhece. E se você não conhece, devo humildemente dizer “sinto muito”. Sinto muito pela ignorância herdada da sua medíocre vivência nas nefastas teias da realidade. Sinto muito pela incompetência em não saber como se livrar dos grilhões deste mundo enfadonho e, por fim, sinto muito pela arrogância não lhe permitir fazer o bom uso da melhor ferramenta humana, a imaginação. Como representante do carro-chefe deste blog pouco modesto (e temos as nossas razões para sermos “pouco modestos”), os leitores assíduos destes textos mal escritos já sabem que Alice não poderia deixar de reinar sozinha em seu mundo de Fantasia.

Em Alice Através do Espelho (Alice Through the Looking-Glass, 1871) a nossa heroína, agora com 7 anos e meio, se aventura no mundo invertido do Espelho. Após ralhar com uma das crias de Dinah, sua gata, Alice pergunta à gatinha preta em seu colo como deveria ser a casa atrás do espelho acima do console da lareira. Um mundo próprio e às avessas evidentemente servia como um exercício lógico para um leitor infante: ao se olhar no espelho e mexer sua mão direita, Alice percebia que a outra Alice estava a balançar sua mão esquerda. Ao atravessar o espelho como se este fosse uma tênue fronteira entre duas realidades, a menina percebia que o jogo de inversões ditava todas as regras deste outro mundo maluco.

Outra história que todo mundo também já conhece. E se não conhece, bem, já dei o meu aviso. Aventuras originalmente narradas em tardes de verão para as crianças Liddell, os dois livros de Alice dialogavam diretamente com as percepções da filosofia berkeliana de grande sucesso – e terror – na Inglaterra vitoriana. Correndo o risco de me repetir, vale a pena retomar como esforço intelectual as idéias do bispo irlandês George Berkeley, já alertando os leitores de uma representação aqui bastante simplista.

Berkeley propôs que a realidade está ligada diretamente à forma como apreendemos as coisas e o mundo a nossa volta. Não experimentamos as coisas por elas mesmas, mas sim as sensações que temos ao percebê-las… Filosofia imaterialista. Complexo, não?

Nem tanto. Num sonho, quando sonhamos com um lanche suculento, nós também não deixamos de perceber o feixe de sensações que um lanche nos traz na vida real. Ficamos com água na boca, com fome e quando comemos, não existe lanche melhor até que quando acordamos nos lembramos vividamente sobre o quão fantástico era este sanduíche onírico. Para Berkeley a realidade poderia ser vista da mesma maneira, já que experimentamos o mundo pelas sensações que as coisas nos trazem… Sendo assim, qual a diferença entre o sonho e a realidade?

Carroll propunha em seu tempo duas aventuras non-sense e malucas que mudariam o gênero da Fantasia para sempre, gerando inúmeros desdobramentos literários de grande sucesso nas livrarias, no cinema e na televisão. Para pensarmos nos reflexos diretos, temos quase toda a obra de Neil Gaiman sobre o Sonhar e a discussão sobre sonho e realidade, seja em Sandman, Neverwhere, Mirrormask ou Coraline. Não podemos deixar de falar de Hayao Miyazaki com A Viagem de Chihiro, sucesso da animação japonesa que conquistou a Disney ou, por que não, até mesmo aventuras em terras tupiniquins como as de Emília de Monteiro Lobato. E lógico, temos a primorosa produção da televisão brasileira Hoje é Dia de Maria, de Luiz Fernando Carvalho.

Contudo, alguns destes artigos que saíram por aí se focariam na antiga discussão acerca das possíveis patologias de Dodgson em sua época que justificariam – ou não – o seu espírito criativo e deveras ousado. Investigado e debatido por inúmeros médicos e psicólogos que buscam entender “de onde saiu tanta loucura”, Dodgson ainda é fortemente estigmatizado por ter tido várias amigas crianças, dentre elas a pequena Alice Liddell, esta que por sinal não era loirinha, não travava discussões malucas com o Gato de Cheshire e nem recitava poemas para Tweedle-Dee e Tweedle-Doo.

A literatura médica e psiquiátrica deixa de considerar grandes “pormenores” históricos até então “esquecidos” de nossa sociedade. Como belamente escreveu o pensador francês Michel Foucault, os discursos médicos se esquecem que a Medicina e a Psiquiatria foram ontologias inventadas e cuidadosamente lapidadas ao longo dos anos, deixando de constituir assim num conjunto de definições técnicas e explicações lógicas naturais. Tanto se fala de patologia nos dias de hoje, mas se esquecem que para compor os primeiros “manicômios”, os novos estudiosos da saúde mental recolhiam os pobres e mendigos das ruas para compreender a mente humana e classificar suas possíveis deficiências em caixinhas chamadas doenças.

Com sua grandiosidade e genialidade explicadas agora em tantas patologias desconhecidas (ou seja, ainda não inventadas), o fantástico escritor Charles Lutwidge Dodgson, o mesmo que mudaria o rumo da literatura, estaria agora reduzido em um linguajar médico cuja insanidade não deixa de ser socialmente sancionada. Se fosse fácil assim condenar e rebaixar a imaginação e capacidade criativa dos grandes escritores em “patologias”, então que venham abaixo as instituições que cuidam dos doidos varridos e loucos, agora todos grandes gênios e escritores potenciais que são simbolicamente trancafiados cotidianamente.

Em tempos em que Alice de Tim Burton estreia nos cinemas de todo o mundo, fica aqui mais uma vez a minha defesa aos mais fantásticos recônditos da imaginação humana. Também produto dela, o pensamento científico sem reflexão crítica consegue de maneira assustadora retirar e extrair como em uma cirurgia as pequenas coisas que tornam a nossa realidade aceitável, como Chapeleiros Loucos, Lebres de Março, Cavaleiros Brancos ou Rainhas de Copas. É pedir muito? Um viva à Rainha Alice.

Victor Hugo, aguardando a luta entre o Unicórnio e o Leão

8 comentários »

  1. Magnífico!
    É muito bom lembrar desta digníssima obra que até hoje desperta a imaginação nas jovens mentes que vêem ao mundo.
    Muito bem lembrada a minissérie Hoje é Dia de Maria e as obras de monteiro lobato, que são de entreter até mesmo as mentes mais envelhecidas e presas a esta maldita realidade.
    A Criatividade e o poder de imaginação deviam ser exercitados com a mesma freqüência de nossos hábitos alimentares, só assim poderíamos alcançar a verdadeira liberdade. Sem criatividade e imaginação só resta a realidade e cada vez menos liberdade e consequentemente menos felicidade.
    Parabéns pelo excelente artigo e um Viva a Rainha. E também um Viva a nossos devaneios, eternos companheiros na terrível luta para suportar o peso da realidade.

  2. A realidade é frágil.

    A realidade é o que quisermos que seja.

    a realidade não passa de percepções nossas; não é, realmente. É só o que enxergamos.

    OBRIGADO.

    Esse texto lembra-me que devo ousar MAIS.

    Não precisa fazer sentido. Não há sentido. Enxergamos o que quisermos.

    Não precisamos explicar. Apenas sentir.

    Tristes são os que vivem sem sonhar – a realidade já é opressiva o suficiente.

    Aceitar a fantasia é entender melhor a si mesmo e encarar verdadeiramente a realidade.

  3. Boa análise, muitos não percebem ou não dão a mínima pra importância literária dessa obra, principalmente hoje em dia que virou modinha.

    Até Super Mario Bros. teve inspiração em Alice xD

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