Quem aqui conhece Julia Child? Bom, fora os cinéfilos, os antenados na cultura televisiva norte-americana e as feministas, aposto que ninguém aqui faz a menor idéia de quem seja esta pessoa. Pois bem, como Hollywood sempre nos ensina quando falam para ver seus filmes ao invés de lermos livros, temos a chance de conhecer Julia Child em “Julie & Julia”, filme recém lançado em DVD no Brasil e que promete encher de saliva a boca de todo mundo aqui. Como um blog inteligente e cheio dos pratos apetitosos, vamos falar de comida.

Com direção e screenplay de Norah Ephron, diretora de vários filmes “água com açúcar” que nós nerds adoramos evitar, “Julie & Julia” conta a história de duas mulheres que através da culinária encontram o sentido da vida marcada por poderosos marcos históricos. Morando na Paris do pós-guerra com o marido Paul Child (Stanley Tucci), Julia Child (Meryl Streep) ganharia o pleno domínio da culinária francesa e revolucionaria o mundo doméstico para sempre. Há quilômetros e anos de distância, Julie Powell (Amy Adams) encontraria no aprendizado da culinária francesa o rumo da sua vida em New York do pós-11/09.

Após anos de estudo da culinária francesa em Paris, Child conheceria as amigas Simone Beck (Linda Emond) e Louisette Bertholle (Helen Carey), com quem posteriormente escreveria um dos livros de culinária mais vendidos dos Estados Unidos, “Mastering the Art of French Cooking” (1961). O objetivo de tal livro era trazer para a língua inglesa uma série de receitas da cozinha francesa até então desconhecidas na América, resultado do que inicialmente era hobby para Child e suas amigas na França das décadas de 40 e 50 do século passado.

Fruto de mais de 8 anos de trabalho, as 524 receitas do livro de Beck, Bertholle e Child visavam socorrer as donas de casa norte-americanas do pós-guerra que não possuíam cozinheiras ou empregadas domésticas, revolucionando para uns o modo de cozinhar dentro de casa. Como percebe um dos editores fictícios no filme que rejeitou o livro das 3 Gourmands, as mulheres norte-americanas dos anos 50 estavam mais preocupadas com receitas rápidas com alimentos em pó, marshmallow e mixers do que as intrincadas combinações gastronômicas que só poderíamos ter na França.

Para além do livro, Child ficaria rapidamente famosa nos Estados Unidos por estrelar um dos programas televisivos de culinária mais conhecidos das décadas de 60 e 70, “The French Chef”, atentando para a praticidade de suas receitas com sua voz característica e seus gestos exagerados por conta de sua estatura (Child possuía 1,88m de altura). O programa seria parodiado no Saturday Night Live em 1978 por Dan Aykroyd, quando corta o seu polegar na execução de uma das receitas e pede calma aos telespectadores, mostrando que possuía total controle da situação. A paródia mostrava no modelo ou arquétipo da mulher norte-americana desejável dos anos 50 e 60, transpassado em “The French Chef” como “independente”, mas não podemos esquecer do estereótipo da mulher submissa ao marido do Dona Reed Show, sucesso dos anos 50 que mostrava as mulheres sob controle e devota às tarefas do lar e ao marido.

Julie Powell, escritora frustrada e tendo como bico o atendimento dos parentes das vítimas do 11 de setembro, encontrou na cozinha ao final do expediente um hobby que mudaria a sua vida, a culinária. Com o projeto de realizar todas as 524 receitas do livro de Beck, Bertholle e Child e publicar em um blog sua aventura, Powell tornou-se uma celebridade da blogsfera, recebendo posteriormente várias propostas para a publicação de livros e até do filme que vos falo. A Julie de Amy Adams marca os dilemas mundanos do casamento e do dia-a-dia frente à necessidade de uma válvula de escape para as atividades estressantes da vida contemporânea.

Em indicações para vários prêmios como o Oscar, o BAFTA e o Globo de Ouro, o filme de Ephron busca conciliar a vida destas duas “Jules” que através do livro de Beck, Bertholle e Child e o blog de Powell se mesclam de maneira impressionante. Baseado no livro de Julie Powell, “Julie & Julia: 365 Days, 524 Recipes, 1 Tiny Apartment Kitchene no livro autobiográfico do casal Child, “My Life in France”, ambas as personagens principais, agora reunidas em um filme, dialogam e expressam seus problemas e anseios para ávidos leitores até então distantes ou invisíveis.

Ao invés de regar o artigo com azeite e tantos outros spoilers, prefiro deixar aos leitores uma questão no filme que muito facilmente passaria despercebida aos leitores brasileiros que nunca ouviram falar de Child. Como diz no making of de “Julie & Julia”, Ephron atenta para a independência feminina que é marcada em seu filme, adquirida pelas duas personagens principais com o aprendizado da culinária francesa. Contudo, como compreender a independência da mulher se a cozinha de “The French Chef” também já foi pensada pelo American Way of Life, da mulher norte-americana “ideal” e submissa às tarefas do lar, como ironicamente apontada no seriado feminino Gilmore Girls ao falar de Donna Reed Show?

Nesse sentido, “Julie & Julia” nos traz também, para além de um filme biográfico ou uma comédia light “água com açúcar”, uma reflexão do comportamento feminino norte-americano através da coisa que melhor sabemos fazer na vida, comer. Destaco a atuação impecável de Meryl Streep, que reflete a imaginação de como seria a Julia Child nos olhos de Julie Powell. Temos, portanto, uma visão romanceada ou caracterizada de um dos ícones da televisão norte-americana que evidentemente marcaram a maneira de como os Estados Unidos pensam algumas das próprias dinâmicas domésticas que ninguém dá muita bola, o ato de cozinhar. Exceto a gente, é claro.

Saiba mais! Conheça o blog original de Julie Powell que originou o livro Julie & Julia: 365 Days, 524 Recipes, 1 Tiny Apartment Kitchen

Victor Hugo, Chef

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

5 comentários »

  1. Uau! Fantástico! Cultura AoSugo… Muito bom.
    Realmente, se eu visse o filme antes de ler este artigo muito provavelmente daria pouco valor a ele, mas agora a situação é totalmente diferente. Quero ver este filme já e certamente prestarei bastante atenção nos detalhes.

    • Gostou do filme? Confesso que gostei, apesar de ter ido ao cinema sem grandes pretensões. Mas de fato a Meryl Streep mandou muito bem, pois se vocês checarem os vídeos da Julia Child no Youtube, verão que é realmente muito parecido. Imagino que deve ser muito difícil fazer um papel que consiste em imitar outra pessoa, ainda mais para uma atriz de alto cacife como Streep, pois de certa forma você é obrigado a se limitar na atuação, sem muita chance para improviso… contudo, se vocês olharem os extras do DVD, verão que o filme é uma releitura não só da diretora, como também das atrizes em tentar mostrar como enxergam estas pessoas famosas, daí o charme do filme…

      Obrigado pela visita inesperada (um site de receitas, rs), ficamos bastante felizes.

      Abraços,

  2. Eu tava com preguiça de ver este filme mas depois de ler esta resenha, me entusiasmei. Pena que tiraram a sátira do Dan Aykroyd. Fiquei mesmerizada diante do vídeo da Julia Child. O programa dela é fantástico! Lembra um pouco o Talk Sex com Sue Johanson.
    E de quebra aprendi, nos mínimos detalhes, como é que se transfere uma omelete da frigideira para o prato!

  3. É Vitor, de fato um grande filme, bom não poderia deixar de ressaltar a importância que o filme tem não apenas para aqueles que sentem paixão pela gastronomia e tem o sonho de se tornarem cozinheiros ou donos de grandes restaurantes, mas o filme retrata a superação de dificuldades encontradas na vida, tanto julie quanto julia traçaram uma meta para suas vidas e foram até o fim e a paixão pelo que elas faziam possibilitou vencer as barreiras que foram surgindo ao longo da vida.

    Problemas todos tem, sofrer é opcional, se vocês querem algo a mais do que simplesmente viver ao acaso eu recomendo o filme! Ah e também doses diárias de sorriso, felicidade, paixão e boa comida! xD

    bon appetit!

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