LordVader

Recentemente, obtive, joguei e terminei um dos jogos da franquia Star Wars mais esperados dos últimos anos. Produzido, como de costume, pela LucasArts (pertencente ao grupo da Lucasfilms e, por extensão final, ao Papai Papudo George Lucas) e lançado em setembro de 2008, The Force Unleashed causou um certo furor por alguns certos motivos. O game chegou para o PC com seu conteúdo expandido, intitulado Star Wars: The Force Unleashed: Ultimate Sith Edition apenas em novembro de 2009.

Parte do frisson supramencionado vem do dito revolucionário engine do jogo. Aliado ao Havok, que relaciona peso e integridade dos objetos, tem-se o sistema Euphoria, responsável pela reação dos personagens não-jogadores ao serem arremessados, eletrocutados ou o que seja, e também o sistema DMM (sigla para Digital Molecular Matter), que simula o material do qual são feitos os objetos e como reagem a ações contra eles. Por exemplo, um vidro estilhaça como um vidro, e um metal amassa como metal, com a aplicação da mesma força sobre eles. Desenvolvido pela empresa Pixelux, o sistema DMM já está sendo adotado por uma infinidade de jogos eletrônicos.

Com essa engine curiosa e inovadora, o mote do jogo entra no cenário: teoricamente, seria “a Força como nunca se viu antes” ou coisa do gênero; correlativo, evidentemente, ao próprio nome, The Force Unleashed, “A Força Livre” ou, mais literalmente, “Livre de Grilhões”. Só isso já atraiu os olhos sedentos de uma legião de gamers ao redor do globo, que queriam ver a “Força com força total”, com cenários e personagens reagindo à dita cuja. Enfim, para atrair os fãs de Star Wars houve o toque final: o enredo do jogo é canônico de acordo com George Lucas, e vale para a história da Saga.

O jogo tem como aspecto principal uma aventura em terceira pessoa, situada entre os episódios III (A Vingança dos Sith – o final da nova trilogia) e IV (Uma Nova Esperança – o começo da trilogia clássica). Você assume o controle de Starkiller, o aprendiz secreto de Darth Vader e assassino/espião sith do Império. Após uma missão de caça a um Jedi em Kashyyyk, Lorde Vader encontra um Starkiller ainda pequeno – filho do Jedi que acabou de eliminar – mas sente a Força poderosa nele, e o toma sob sua tutela. Crescido e treinado para usar o Lado Negro, Starkiller torna-se parte de uma conspiração que envolverá o Imperador em pessoa e a formação concreta da Aliança Rebelde.

Tecnicamente, o game marca presença por exuberância gráfica. A recriação de personagens e os cenários que acabam mesclando estéticas de ambas trilogias cinematográficas são de deixar boquiaberto qualquer bom apreciador da arte de se fazer jogos, e com certeza contribuem para o feeling de Star Wars que todo bom jogo da franquia deveria ter. O personagem principal muda de roupa a cada missão, e todas elas tem uma aparência interessante, que também mistura aspectos novos e velhos. A ambientação e imersão são auxiliadas por efeitos sonoros excelentes e uma trilha sonora incrível, que sempre remete aos temas clássicos que todos conhecem.

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O uso dos poderes da Força, para um videogame, é bastante fascinante. E graças aos engines utilizados na programação, eles sozinhos já proporcionam um espetáculo visual. Contudo, o jogo peca com uma dificuldade irregular e com uma câmera que muitas vezes atrapalha a movimentação e jogabilidade, principalmente nas batalhas contra os chefes de fases. Durante o desenvolvimento da história existem alguns quebra-cabeças bastante fáceis de resolver, contudo, mesmo indo não muito além do “matar, pilhar e destruir”, ainda mais com uma razoável gama de poderes, o jogo é divertido e pode garantir algumas horas de distração.

Todavia, o problema entra nos termos do enredo (prepare-se, eu não vou controlar a exposição de spoilers). A história do game em si não é ruim – apesar de poder ter sido bem melhor – mas ela infere no cerne da trilogia clássica de Star Wars e acaba alterando, em muitas vezes para pior, alguns conceitos que tínhamos como certos. E, mesmo sendo Universo Expandido, o fato de ser legitimado pelo próprio George Lucas nos obriga, em tese, a rever uma porção de coisas a respeito da amada saga. Coisas que, muitas vezes, é melhor que se deixem intocadas. E os probleminhas de desenvolvimento vão todos remeter a isso: ao fato da história agora ser canônica e que algumas coisas não devem ser alteradas.

Para começo de conversa, o personagem principal, Starkiller, é excessivamente poderoso. Mesmo. Seu domínio da Força é tão grande e absoluto que ele mescla combos de sabre-de-luz com telecinésia e consegue “carregar” a lâmina luminosa com a “eletricidade da Força”. Ele também é capaz de destruir cenários inteiros com um simples empurrão em todas as direções, amassar AT-STs como se fossem isopor, arremessar Tie Fighters como bolinhas de tênis e até mesmo derrubar um Imperial Star Destroyer usando apenas a Força. Mesmo outros jogos da franquia Star Wars, como Jedi Knight, Jedi Outcast e Jedi Academy, que tinham claras demonstrações do uso da Força, não foram tão exagerados.

Evidentemente, como eu disse ali em cima, em um jogo isso funciona. Bem demais, até. Essa sensação de poder dificilmente ficaria chata enquanto jogamos. Mas o problema começa ao colidir com a Força como nós a víamos antes. Em momento algum vemos qualquer personagem fazer algo minimamente parecido com as façanhas de Starkiller. Nem representantes que sabemos ter um conhecimento e domínio da Força ridiculamente alto; superior ao de Starkiller, inclusive, como Yoda, e ainda que o Lado Negro seja mais… “purpurinado”, nunca vimos o Imperador Palpatine atuar de tal forma, também.

Isso atrapalha na própria conceituação da Força. Ela deixa de ser algo místico e misterioso, que remete ao entendimento da vida e da morte e de algo intangível, uma filosofia e uma fé, e torna-se uma demonstração inconseqüente de superpoderes. Levamo-nos a questionar como é possível que os Jedi tenham sido exterminados por meros clones, quando na realidade são supersoldados capazes de feitos absolutamente sobre-humanos. É um exemplo da supremacia do Yoda piruletante com um sabre-de-luz à mão a um Yoda calmo, reflexivo e sábio. Culpa, em parte, de George Lucas e seus malditos midichlorians.

Ainda, o enredo do jogo introduz novas idéias à história que foram feitas de maneira descuidada. Ele credita a criação da Aliança Rebelde como uma manipulação do Império para tentar abater todos os seus inimigos de uma só vez. Apesar do conceito em si não ser de todo mal, a sua execução poderia ter sido melhor. A reunião de todos os futuros líderes da Aliança fica em cargo de um já conflituoso Starkiller, que numa rara interessante reviravolta do enredo e numa reversão ao lugar-comum, está “caindo para o Lado da Luz”.

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Enganado por Vader e pelo Imperador, que capturam a futura liderança da Aliança – nomes como Mon Mothma, Bail Organa e a princesa Léia fulguram entre os coadjuvantes – o vingativo Starkiller persegue seus antigos mestres até a quase completa e em fase de testes Estrela da Morte (numa missão decepcionante, devo acrescentar). É ali que se tem o desafio final: salvar seus novos amiguinhos. Você confronta Vader e, após uma longa batalha, derruba – usando a Força, claro – uma infinidade de artefatos mecânicos da Estrela da Morte sobre o Lorde Sith.

Neste ponto, você pode escolher entre o final core, canônico e bonitinho ou o final motherfucker e alternativo. No final alternativo, você segue o confronto com Vader e o destrói. No CG que se segue, o Imperador o parabeniza e ordena que execute o Mestre Kota, um Jedi sobrevivente à Ordem 66 e que faz parte, segundo o jogo, da futura liderança da Aliança. Ao invés disso, Starkiller tenta atacar o Imperador, apenas para ser rechaçado e ter seu corpo quase inteiramente destruído. O CG segue com Starkiller sendo reerguido como uma espécie de “Vader 2.0 Diplomata Turbo”, e com o Imperador dizendo que agora você está sob seu comando, e quando o momento chegar, você será substituído. É com este Starkiller que você executa duas das missões adicionais que a Ultimate Sith Edition traz: Tatooine e Hoth (que são bem legais, até).

No final canônico você precisa enfrentar o Imperador em pessoa, e após uma batalha decepcionante (chefes de missões anteriores eram muito mais desafiadores), segue o CG do sacrifício de Starkiller para salvar Mon Mothma, Bail Organa e afins. Reclusos, eles decidem “continuar o que Starkiller começou” [!!!!], leia-se a Aliança Rebelde, e adotam como estandarte o símbolo heráldico da família do falecido.

Mesmo o enredo não sendo tão ruim assim – é até bacana creditar a formação da Aliança a um Jedi – acrescentar estas coisas na história acabam sendo um tiro no pé. Faria sentido Starkiller ser um personagem que ninguém conhecesse se ele continuasse como assassino sith e aprendiz secreto de Vader e morresse assassino sith e aprendiz secreto de Vader.

Contudo, a partir do momento em que ele exerce um papel tão fundamental na formação da Aliança Rebelde – ao ponto do símbolo de sua família ser o estandarte da coligação – entra o questionamento: por que nunca ninguém ouviu falar nesse cara? Temos aí um Jedi, um cara que cacetou o Vader, que tinha um domínio ridiculamente incomum sobre a Força e que foi o responsável pela formação da facção que derrubou o Império e restaurou a República Galática. Ele seria um grande herói para a Nova República e mereceria, no mínimo, uma nota de rodapé pelos seus feitos. Ele é o primeiro mártir da Aliança. E então, cadê ele?

No final das contas, The Force Unleashed é o domínio do estilo sobre o conteúdo, da demonstração da tecnologia sobre o enredo e sobre a falta de cuidado do Universo Expandido, e do próprio George Lucas, em acrescentar novas idéias à história dos filmes que começaram tudo em primeiro lugar. Um problema que ocorre muito mais freqüentemente após a nova trilogia – Episódios I, II e III – que demonstraram pouco cuidado do próprio criador da franquia em enriquecer a história. Como jogo, realmente, funciona, entretanto, exemplos como Dark Forces, jogo lançado em 1995, mostram claramente que é possível combinar boa jogabilidade com um enredo bem encaixado e interessante, sem destituir Star Wars de conceitos que a transformaram numa das mais bem-sucedidas franquias multimídia de todos os tempos.


Marcus Vinicius Pilleggi

Imagem de Cabeçalho: Lorde Vader, por Eric Poulton

3 comentários »

  1. Muito bem escrita esta resenha, me trouxe muita informação nova, inclusive! Não sabia que o “Papai Papudo” em pessoa havia canonizado o jogo, quando soube que a estória tratava de um (desconhecido) aprendiz de Vader (boa idéia, inclusive), imaginei que fossem usar esse argumento justamente pra criar uma personagem interessante que, apesar de tudo, tivesse morrido no anonimato, o que justificaria nunca ter aparecido nos filmes. Imagine a minha reação agora a pouco, durante a batalha com Luke (se vc não poupou spoilers, tb não vou poupar) em que Skywalker candidamente vira a casaca “dando um passeio” no lado negro da força! E pra fechar com chave de ouro, Starkiller o chama de aprendiz?! Que estória é essa, minha gente? Como que eles pretendem resolver isso sem perverter a estória original?
    Além disso vc chama a atenção pra outros pontos cruciais, realmente não faz sentido o starkiller ser tão poderoso assim (e anônimo), um personagem com esse calibre de uso da força deveria ter sido criado numa época futura, descendente de Luke, talvez?
    Apesar (ou por causa) disso e das questões sobre a jogabilidade confusa, dificuldade randômica etc, estou ansiosa para o lançamento de SWTFU II. Imagino se o Starkiller original realmente morre e é clonado ou se apesar de clonado, sobreviveu (e como, pois nesse caso o sobrevivente deveria ser uma versão 2.0 Diplomata Turbo do Vader — boa!). Com certeza visualmente será um espetáculo, tomara que a jogabilidade também tenha feito progresso. Quando já tiver jogado eu volto aqui pra ler a resenha! Até!

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