Boa noite, senhores leitores incautos que buscam no Ao Sugo um artigo novo para ler. É sempre um tédio a parte em que começamos os artigos nos desculpando pela ausência de alguns dias no blog, sempre justificadas pelos compromissos individuais e a preguiça.  É, sinto muito, que bom ainda que estou sendo sincero: para escrever as asneiras que vocês gostam tanto de ler aqui no Ao Sugo é necessário um mínimo de inspiração e, todos sabemos, não é todo dia que encontramos uma fada minúscula no meio do bosque como em O Labirinto do Fauno… Mas nesse último fim de semana eu encontrei (ou reencontrei) uma personalidade notável que mereceria todos os artigos do Ao Sugo juntos, a Morte, dos Perpétuos.

“Quando a primeira coisa viva
existiu, eu estava lá esperando…
Quando a última coisa viva morrer,
meu trabalho estará terminado…
Então, eu colocarei as cadeiras
sobre as mesas, apagarei as luzes,
e fecharei as portas do universo,
enquanto o deixo para trás…”

Calma, não sejam preconceituosos, podem continuar a leitura. Não estou sendo nem querendo ser mórbido, só estou relatando o Delírio (que já foi Deleite) que foi reencontrar a Morte após tantos anos, deixe-me ver… Foi em 1997, quando li “Morte – O Grande Momento da Vida”, de Neil Gaiman. Apesar de já conhecer desde 1992 o seu irmão famoso, Sonho, só fui mesmo conhecer a Morte tempos depois, de fato. Obra do Destino, talvez. Culpa de uma leitura errática dos volumes de Sandman durante a minha aborrescência, isso porque a Morte já dava o ar de sua Graça na edição número 8 quando bate um sério papo com o irmãozinho Pérpétuo.

Hazel: “Hã, eu te amo.”
Morte: “Obrigada, Hazel. Eu também te amo.”
Hazel: “É, mas você ama todo mundo.”
Morte: “Eu sei.”

Os leitores espertos de inspiração nerd já sabem do que estou falando: Sandman, uma das maiores obras-primas da nona arte, da banda desenhada, dos comics, dos gibis, da bande dessinée, fumetti, tebeos, historietas, muñequitos, arte seqüencial, isso, das Histórias em Quadrinhos! Em 75 edições memoráveis o escritor britânico Neil Gaiman trouxe ao universo uma nova maneira de ver as coisas, a vida ou, porque não, a própria Morte, nos contando a história de Sonho e seus irmãos Perpétuos na sua intrincada relação com a humanidade. Sendo eles Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio, os Perpétuos são entidades antropomórficas dos maiores, menores, melhores e piores anseios humanos, responsáveis assim por todo o encadeamento e funcionamento da realidade em que vivemos.

Como já disse Frank McConnell, os Perpétuos não são divindades, eles já existiam antes mesmo dos deuses serem inventados: se algum dia determinado deus foi sonhado pelos homens, esses homens passaram antes de tudo pelo reino onírico do Sonhar. E se um deus deixou de existir, agora fadado ao esquecimento, passou pelas fronteiras das Terras-Sem-Sol e conheceu a Morte. E tudo isso já estava escrito no grande livro que Destino carrega acorrentado em seus pulsos. As correlações e conotações são inúmeras e surpreendentes, trazidas ao leitor pelo sempre-roteiro de Gaiman, capas de Dave McKean e inúmeros ilustradores habilidosos. Mas qualquer análise que busque o encadeamento da vida dos Perpétuos com a realidade para além do apresentado nas páginas de Sandman corre o sério risco de passar por uma filosofia, semiótica ou antropologia mal-feitas. Não façamos isso.

Existem aqueles (como o nosso caro co-editor do Ao Sugo, Marcus) que dizem que coube a Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons trazer os quadrinhos norte-americanos para um novo patamar do mundo literário, uma vez que tais HQs sempre foram reconhecidas no senso comum por trazer super-heróis-musculosos-fortões-quase-invencíveis-contra-super-vilões-musculosos-fortões-quase-invencíveis, concordo. Mas é inegável que Sandman colocou os quadrinhos em um ponto mais privilegiado por conta de suas (complexas) referências constantes sobre filosofia, mitologia, literatura, música e artes. Piração total da mais refinada qualidade, que passa pelos mais fantásticos Sonhos (e às vezes Pesadelos que beiram ao Desespero) ao Delírio absurdo de ver tudo de bom misturado em um lugar só. Afinal, quem pode saber o que Delírio vê através de seus olhos desiguais?

Como já disse anteriormente, Morte fez o seu debut em Sandman #8 (1988) com a história “O Som de Suas Asas” para encerrar a novela Prelúdios e Noturnos. Nesta história Morte se apresenta não como o Ceifador, um esqueleto, um fantasma ou um ser encapuzado, mas sim uma garota gótica bastante jovem, super simpática, atraente e o mais importante, desejável… Deprimido após recuperar seu amuleto, sua algibeira, seu elmo e castigar seu captor Roderick Burgess, Sonho passa a aventura ao lado de sua irmã mais velha enquanto ela recolhe os mortos “ao som de suas asas”, mostrando-lhe não apenas a importância de suas responsabilidades para a coesão e existência da realidade humana, como lhe mostra os aspectos da vida que realmente merecem ser observados. Longe de ser uma personagem mórbida, Morte nos mostra o quanto devemos valorizar a vida enquanto ainda podemos, antes de entrar no seu reino Sem-Sol. Isso porque, como ela sempre diz, ela ama todos.

Hazel: “Olha… hã… por que a gente sofre? Por que a gente morre? Por que a vida não é boa o tempo todo? Por que não é justa?”
Morte: “Essas perguntas não são bobas, Hazel. Para alguns são as únicas perguntas que interessam.”
Hazel: “Então você não vai responder?”
Morte: “Claro que vou, mas é um assunto meio complexo e tem um monte de respostas. E as respostas não significam nada… não são perguntas bobas, mas é como perguntar ‘quando é púrpura?’ ou ‘por que terça-feira?’, se é que você me entende…”
Hazel: “Não muito.”
Morte: “Bem. Eu acho que em parte tem a ver com contrastes. Luz e sombra. Se você nunca teve dias ruins, como vai saber se teve dias bons? Mas em parte é apenas isto: se você vai ser humano, tem um monte de coisas no pacote. Olhos, um coração, dias e vida. Mas são os momentos que iluminam tudo. O tempo que você não nota que está passando… É isso que faz o resto valer.”

De inspiração que resvala inocentemente no melhor Existencialismo, o mais impressionante deste escritor no mínimo estranho – porém genial – como é a sua habilidade em criar uma personagem atraente e extremamente desejável para os protagonistas de sua mitologia dos Perpétuos que, sem mais nem menos, acaba criando estas mesmas sensações entre os leitores, especialmente entre os adultos. A Morte é apaixonante, Desejável (e aí resvala os domínios de seu outro(a) irmão(ã) andrógino(a), Desejo). Apenas tendo vivido um mínimo possível neste torvelinho estranho e sem sentido que adquirimos um mínimo da experiência e do conhecimento para entender a profundidade das falas de Morte. Assim, Sandman não é uma literatura gráfica para crianças nem aborrescentes – não pelo aparecimento de cenas de nudez, violência, etc, mas simplesmente porque eles não entendem. Ainda.

Morte acabou ganhando tamanha expressividade para o autor e leitores de Sandman que ganhou duas mini-séries fantásticas com roteiro de Gaiman, arte de Chris Bachalo e Mark Buckingham. “Morte – O Preço da Vida” (Death – The High Cost of Living, 1993) faz uma paródia do filme “Uma Sombra que Passa” (Death Takes a Holiday) de 1934, em que Morte decide sair de folga por algum tempo apenas para conhecer a vida e entender a realidade sob uma outra perspectiva. Na mini-série a irmã de Sonho adquire a oportunidade de poder viver um dia a cada 100 anos a vida de qualquer ser-humano e ver tudo pelo outro lado… O dos que morrem. E nesse dia a Morte passeia entre nós, come cachorro-quente no carrinho da esquina como todo mundo, ri e chora como todo mundo. E assim percebe o peso de sua responsabilidade.

Todavia, é em “Morte – O Grande Momento da Vida” (Death – The Time of Your Life, 1996) que temos uma de suas histórias mais densas a, por que não, apaixonantes. Nesta mini-série (que empresta os diálogos aqui colocados no Ao Sugo) traz o relacionamento entre duas garotas, uma nova cantora de rock Foxglove e a chef Hazel. Se já não bastasse o relacionamento abalado pelo sucesso de Foxglove, durante uma turnê e longa ausência da parceira, Hazel perde num acidente o filho ainda bebê, Alvie. Para prorrogar a vida do menino, Hazel pede à Morte alguns meses para deixar ele viver, com a troca de que outra pessoa vá no seu lugar. Relutando em voltar para casa por estar imersa no trabalho, Foxglove é obrigada a repensar a sua vida que havia saído dos eixos. E nada melhor do que a mortalidade para lhe fazer pensar na vida.

Hazel: “Ele tá morto.”
Morte: “Sim.”
Hazel: “Isso não é certo.”
Morte: “Não é certo nem errado, Hazel. Apenas é.”

Além das aparições recorrentes em Sandman (que de fato merecem outros tantos artigos aqui no Ao Sugo), não podemos deixar de comentar sobre a empreitada da ilustradora Jill Thompson com o seu “Morte – A Festa”, adaptando a famosa novela “Estação das Brumas” para o estilo mangá, mostrando agora a Morte ainda mais jovial e simpática. Após Lúcifer Estrela da Manhã ter abandonado o governo do Inferno e entregado a chave para Sonho, os mortos que deveriam lá ter a danação eterna começam a voltar, causando uma disrupção na teia da realidade. Para dar tempo de resolver as coisas com seu irmão Sonho, Morte decide dar uma festa em sua casa para os regressos, deixando os preparativos para suas irmãs Desespero e Delírio, criando momentos bastante divertidos e que de certa forma amenizam a densidade filosófica desta memorável série em quadrinhos.

Talvez seja necessário repetir que Sandman não é quadrinho para crianças. O que também deveria servir de lição (e massacre à rodo) para todos aqueles – em especial os cults – que colocam esta expressão gráfica em um nível inferior ao da literatura convencional, acreditando que tudo o que é vendido em revistas pequenas cheias de quadros contém apenas historietas engraçadinhas como Mônica ou testosterona a mil como em Wolverine. Gaiman, hoje roteirista de sucesso de inúmeros filmes e escritor de livros consagrados como Neverwhere, Coraline, Stardust e Deuses Americanos deu à categoria dos quadrinhos um novo ânimo visto até então apenas com Watchmen: a premiada série Sandman é sucesso absoluto não apenas de vendas como também já é ensinado nas universidades como exemplar notável da “nona arte”. Evidentemente, não é possível encerrar este assunto de maneira definitiva, deixando então ao leitor apenas uma leitura tosca de uma das mais apaixonantes personagens deste mundo místico que une fantasia e terror. Bons sonhos.

Victor Hugo


Fontes:

THOMPSON, Jill. 2004. Morte – A Festa, Conrad: São Paulo

GAIMAN, Neil & KRAMER, Ed. 2004. O Livro dos Sonhos 1, 3ª Edição, Conrad: São Paulo

GAIMAN, Neil & KRAMER, Ed. 2001. O Livro dos Sonhos 2, Conrad: São Paulo

Diálogos:

GAIMAN, Neil. 1997. Morte – O Grande Momento da Vida, mini-série em 3 edições, DC Vertigo, Abril  Jovem

Imagens:

BACHALO, Chris & BUCKINGHAM, Mark, em GAIMAN, Neil. 1997. Morte – O Grande Momento da Vida, mini-série em 3 edições, DC Vertigo, Abril  Jovem

Morte – por Dave McKean

Victor Hugo Kebbe

Nerd, Antropólogo Japanologista, Bibliotecário do Novo Canon e do Velho Universo Expandido de Star Wars, Dragonborn, Witcher, Vault Hunter, exímio piloto de A-Wing, combatendo os Geth e Reapers até os dias de hoje.

5 comentários »

  1. Eu tinha lido sim, mas reli porque é muito legal *squeeeeeeeee* Descobri minha versão em HQ com “O Som de Suas Asas” e desde então, bem… I’m Death. Me encontrei nela.😄

    Filosofia, mitologia, literatura, música e artes – Algo que Neil Gaiman sabe juntar tão bem… Fiquei irada com SN copiando descaradamente o “Good Omens” e o “American Gods” nessa temporada que foi altamente #EpicFail [mania de Twitter isso de hastag, rs]

    Ah, e como vc falou do “Opúsculo”, tomara que Sandman nunca vire filme, porque seria um assassinato de uma das melhores obras lietárias da atualidade… Tomara que Desejo nunca deseje isso e que o Destino rasgue as páginas do livro em que supostamente Sandman vira filme.😄

    E lembrando… tem “Little Endless” (Pequenos Perpétuos) que é Sandman e seus irmãos for kids? Já leu?

    Ana Death Duarte

    “Of course I know what happens when you die. I’m Death.”

  2. Será que vão transformar em série? Tomara que não, só se for a festa que eu nunca li, pois está em formato de mangá, algo que não gosto de ler.
    A morte foi o meu primeiro contato com Sandman, li o grande momento da vida quando apenas conhecia “Prelúdios e Noturnos” e já achava deslumbrante, quando eu terminei a leitura de Sandman, achei ainda melhor descobrir mais coisas sobre a Morte, Foxglove e Hazel.
    Impressionante como Gaiman estava no auge de sua escrita quando produziu Sandman, será que temos esperanças de rever algo em tão alto nível?

    Espero ver mais quadrinhos em meios acadêmicos, como um objeto de estudo e uma forma de literatura reconhecida.

    Preciso reler “A Morte”.

    • Olá Ernesto,

      Então, acredite se quiser, mas o Neil Gaiman já foi chamado para fazer o filme da Morte, adaptando e expandindo o roteiro de The High Cost of Living. A Warner orçou em US$ 15 milhões, sendo “muito barato” para o estúdio… Por conta disso, o projeto foi cancelado (na verdade está em suspenso, na esperança que algum estúdio menor assuma o projeto).

      Gaiman estava realmente no ápice da carreira em Sandman, até que ele diz que, dessa época, ele conseguia lembrar das falas e enredos de cor, enquanto esquecia de coisas cotidianas. Por isso também que ele decidiu encerrar a série, pois estava consumindo demais a mente do nosso caro escritor.

      Bons sonhos,

      Victor Hugo

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